CONSELHOS DE UMA CORUJA
António Torrado


Um certo dia o coelho e o rato encontraram-se.
- Tu tens os dentes da frente bem salientes - observou o rato para o coelho.
- Mas tu ainda os tens mais - respondeu-lhe o coelho e foi-se embora.
O rato ficou sozinho, mas por pouco tempo. Apareceu ao pé dele uma lagartixa:
- Tu tens a cauda muito comprida - observou o rato para a lagartixa.
- Mas tu ainda tens mais - respondeu-lhe a lagartixa que deu meia volta e desapareceu. O rato ficou outra vez sozinho, mas por pouco tempo. Apareceu ao pé dele uma rã.
- Tu és muito pequena e insignificante - observou o rato para a rã.
- Mas tu ainda és mais - respondeu-lhe a rã e deu um salto e desapareceu. O rato ficou, mais uma vez, sozinho. Que tempos! Deu um suspiro e pensou:
- Ninguém gosta de conversar comigo. Não consigo fazer amigos. Porque será?
Como o rato pensava em voz alta, a coruja, que a tudo assistira, respondeu-lhe:
- Não fazes amigos, porque não pensas antes de falar. Tenta proceder de outra maneira e verás os resultados.
O rato fechou os olhos e pensou:
- Quando encontrar o coelho vou dizer-lhe que gostaria de ter as orelhas tão compridas como as dele. Como pensava em voz alta, a coruja que tudo ouvia meneou a cabeça negativamente, e pensava em intervir, mas o rato continuava:
- E quando encontrar a lagartixa vou dizer-lhe que gostaria de arrastar a barriga pelo chão como ela arrasta.
Mais uma vez a coruja se enervou e ia falar, mas o rato prosseguia os seus pensamentos:
- Quando encontrar a rã vou dizer-lhe que gostaria de ter a pele escorregadiça e fria como a dela.
A coruja não podia aguentar mais tantos disparates e indignou-se:
- És tolo, duas vezes tolo, rato! Há elogios que matam. Não podes valorizar o que os teus amigos consideram defeitos. Vê se te emendas ou nunca encontrarás quem goste de andar contigo.
O rato virou-se para ela e apreciou-a em silêncio. Depois, pensou em voz alta:
- A senhora coruja dá conselhos com muito acerto, apesar de ser tão feia.
Dito isto, foi-se embora. E a coruja ficou a pensar, também em voz alta:
- Este rato não tem emenda. Deveria te-lo comido, em vez de dar-lhe conselhos. Certamente teria prestado um grande serviço ao resto da bicharada, porque este rato por onde passar só vai causar aborrecimentos. Eu é que fui tola em poupá-lo, em vez de papá-lo.
Pensava, isto, porque as corujas gostam de comer ratos! Mas desta vez o jantar já ia longe.

 

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