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*REQUERIMENTO*
Uma
homenagem aos nossos amigos Durval e Milu.
Amigos
de todas as horas há 39 anos.
Caro
Senhor Tempo,
Espero
que esta o encontre passando bem, ou melhor,
passando o mais devagar possível. Por aqui
vai-se indo,
como o Senhor quer e consente,
meio rápido demais para o meu gosto,
e quando vi já era dezembro.
Foi-se
mais um ano. E com ele foram-se
uma quantidade
incalculável de amores, cores, idades, alguns
amigos,
não sei quantos neurônios, memórias, remorsos,
desvarios,
cabelos, ilusões, alegrias, tristezas,
várias certezas (se não me engano, treze),
algumas verdades indiscutíveis.
Foi-se
o meu gosto por vitrine.
Foi-se quase todo o meu vidro de perfume.
oi-se meu costume de imaginar asneiras à noite.
Foi-se meu forte instinto de acreditar no
que me dizem.
Que
pena.
Foi-se
o tempo em que uma simples farra não significava
necessariamente uma condenação sumária
no dia subseqüente.
Foi-se a poupança. O troquinho da gaveta.
Foi-se aquele antigo projeto.
Foram-se exatamente nove virgula seis por
cento
de todas as minhas esperanças.
Será
que o Senhor não se cansa, seu Tempo?
Não
pensa em tirar umas férias, dar uma pausa,
respirar um pouco?
Não lhe agrada a idéia de mudar
o andamento?
Diminuir o ritmo? Em vez de tic-tac,
inventar uma palavra mais comprida para compasso,
mantra, ícone, diagrama?
Me
diga sinceramente: para que tanta pressa?
Anda difícil acompanhar seus passos ultimamente.
Não
precisa dar meia-volta, eu não espero tanto.
Eternidade? Não. Só queria sua amizade.
Mas já foi dezembro e o janeiro tambem, e
já foi o carnaval.
Foi-se mais um ano, e já está indo outro.
E
o Senhor passou voando, rebocou os meus momentos,
foi desbotando minhas lembranças,
carregou mais doze meses inteiros l
evando cada instante meu de arona.
Tentei voltar atrás em algumas decisões.
Já
era tarde.
Não
deixei nada para amanhã.
Mesmo assim não fiz sequer metade do que
pretendia.
Imaginei várias maneiras de estancar os dias,
segunda, terça, quarta, quando via já era
quinta.
Sexta.
Sábado. Domingo. Pronto.
Pensei
em fuga. Será que existe algum lugar
deste mundo onde as horas não me encontrem?
Fiquei meses trancado em casa.
Foi inútil. Lá fora, o Senhor continua passando.
E
já passou mais um pouquinho.
Calma,
Tempo! Espere só um minutinho
para eu explicar melhor meu ponto de
vista.
Nem
todo mundo é pedra, concorda? Dito isso, imagine
então quantos pobres mortais sofrem da mesma
agonia diária: giros e mais giros nos ponteiros,
os cantos dos cucos, as denúncias das sombras,
os grãos de areia escorrendo (parece
até hemorragia crônica), tudo escapulindo,
descendo, subindo, o frenesi dos dígitos,
um, dois, três, quatro, cinco, cem,
o Senhor vai tirar o pai da forca?
Está
fugindo de alguém? De quem? De mim? De ontem?
Eu
conheço de cor suas obrigações.
Estou convencido de suas utilidades.
Não
fosse o Senhor, não existiriam saudade, retrato,
suvenir, antiguidade, história, época, período,
calendário, outrora, passatempo, novidade,
creme anti-rugas, disputa por pênaltis, antepassado,
descendente, dia, noite, nada,
não existiria sabedoria, eu sei disso.
Não tome como queixas minhas palavras, por
favor não tome.
Aqui
vai apenas uma súplica.
Ah,
se o Senhor fosse mais indulgente, mais piedoso,
mais pensativo, menos estressado, mais
manso,
menos rigoroso, um bon-vivant, e se distraísse
aí pelo caminho,
e se deixasse apreciar as paisagens, e sofresse um
devaneio,
e ficasse de bobeira, esquecido das horas,
divagando.
Escute
aqui, seu Tempo, que tal deixar passar o
resto
e parar quieto um pouco?
(Autor
Desconhecido por muitos e adaptado por mim.)
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Claudia Ribeiro
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