Uma
história triste e que poderia
ser real,
contada pela grande amiga e escritora
Margarida Reimão.
Entre
tantas coisas bonitas que ela me
enviou foi difícil
decidir o que publicar...
Continue me esperando por aí, um dia nos
encontraremos...
FESTA
DE ANIVERSÁRIO
No
dia do aniversário, do aniversário de
casamento.
Esperava
presente dileto e um sonho de lembranças dos
passos, dos beijos tantos, da sofreguidão da
paixão.
Esperava
o brilho de festa da alma, e
os laços no peito repleto de amor.
A
esperança foi tormento quando
gritastes que não mais me amavas que
o amor escorreu-se no rio da memória e
foi morar numa encruzilhada qualquer.
Eu,
uma dama, senti no peito a mancha da dor.
O
desespero da dor que me corroia o coração
tornado valente
Veio
um xingamento, de raiva, da procura vã.
Uma
revanche, um copo de água atiçado sobre
teu rosto na cama.
A
cama branca e morna que esperava o encontro e
os meandros da mulher que chorava,
desaparecida.
Esbocei a ironia, porque tudo cabia diante da
revelação.
Um
velório de amor fenecido nas vestes do tempo
a
porta fechando-se sem nenhuma música, só o
vazio o desencontro,
a raiva, o peito com sangue e coceira.
Eu,
uma dama, gritei duas pragas de que não mais
terias sossego.
Arrependida,
rezei; tudo era fusão do vital que
escorregava no pretendido beijo, na
noite cálida, na vida arrumada, com papel e
cartão, fogo e tesão.
Meu
corpo ansiava e tu estavas se despedindo destino
surdo! Susto de luz apagada, ruídos abafados.
O
ressentimento pela falta do abraço, a vontade
louca de quebrar o quarto inteiro, atirar
coisas pela janela, roupas, tralhas, confidências.
Dizer:
Nunca te amei. Mas, seria pura mentira, ainda
continuo amando.
Eu,
uma dama, uma figura na névoa do
esquecimento.
Olvidada
na poluição da matéria, despia do teu
afago, zelosa por não ter a chave que
conseguisse abrir-te o coração.
Quem
fomos nós? Ardentes amantes, luzeiros
de cânticos da vida.
Que
somos nós? Dois pedaços esquecidos, um com
dor, outro com desamor.
Um
com loucura o outro sem razão.
E,
por assim saber,
caminhei, à-toa, no ventre da noite,
da noite da festa.
Vestida
e nua, ereta, porque sou uma dama, chorando
porque sou mulher.
E
fugi para a fonte, a misteriosa ressurreição
que me conduziria à viagem.
A
íngreme viagem dos meus pensamentos soltos,
inconfessáveis
e inconcebíveis, caminhei
na noite, sem estrelas, negrume inútil de
quem perdeu o toque, perdeu
a ânsia, a vida de fêmea.
Restou-me
um amor sem combinar, pura fantasia, ilusão
insular, onde
me encontro, escondida, porque sou uma dama, e
não me cabe odiar.
Margarida
Reimão
