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Arnaldo
Ribeiro
(Setembro
/ 1999)
Era a sua fantasia predileta. Num belo dia, quando menos esperasse, a porta do elevador se abriria e ela entraria, deslumbrante e voluptuosa, sorriria para ele e, sensualmente, se postaria ao seu lado, como que confiando nos seus cabelos grisalhos e no seu porte de cavalheiro. A seguir, o “apagão”, a súbita parada e a escuridão. A maravilhosa morena em seus braços, tremendo de medo, alegando pavor do escuro e claustrofobia. Suas hábeis mãos e sua voz macia conseguem transformar o medo em calor, a fobia em desejo e o tremor em entrega. E tudo se consuma em alguns minutos, ali mesmo sobre o tapete.

Saboreava diariamente esta fantasia como distração, enquanto o elevador cruzava os 38 andares do edifício onde trabalhava. Seus olhos não desgrudavam do indicador luminoso que contava o percurso imutável, andar por andar. Como seus companheiros daquela viagem de todos os dias, ficava lá fitando os números que se acendiam e se apagavam, e olhando, com expressão de tédio, as pessoas que entravam ou saiam. Mas seus olhos não viam nada. Não viam a velhinha que o encarava como se estivesse tentando reconhecê-lo de algum outro lugar. Não viam o garotinho, no colo da mãe, que mostrava aos passageiros como já sabia ler todos os algarismos. Não viam o mensageiro brincalhão que dirigia gracejos à ascensorista. Apenas sua mente trabalhava e sua fantasia rodava como um filme erótico que, a cada nova exibição, ganhava cores diferentes, detalhes renovados, diálogos recriados.

Foi então que, num belo dia, tudo aconteceu. Ela entrou no andar térreo, sorriu para ele e postou-se ao seu lado. Era a mesma morena deslumbrante da sua fantasia. Era o mesmo calor. Era o mesmo perfume. No elevador repleto, o corpo escultural encostou-se ao seu. Ele fechou os olhos esperando pelo apagar das luzes e pela parada súbita. Para seu desespero, o elevador continuava subindo e parando a cada andar. As outras pessoas saíam, mas ela continuava ali ao seu lado, exatamente como na fantasia.
Mas tudo acabou no 32°, quando as portas se abriram e ela correu para os braços do jovem elegante de porte atlético que a esperava com um sorriso e que a abraçou e beijou ternamente.
A desilusão tomou conta dele por muitos dias. Subia e descia pelo elevador como um andróide sem rumo, olhos sem brilho, lábios cerrados. Não sorria mais. Não cumprimentava as pessoas. Todos no edifício comentavam a mudança de comportamento daquele sujeito tão simpático e educado. Até que um dia percebeu que precisava reagir e tomou a suprema decisão: já que a bela morena o “abandonara”, ele providenciaria uma loura bem platinada e ainda mais escultural. Afinal, em fantasias, tudo era possível, dependendo apenas do poder da imaginação. E a vida continuou do mesmo jeito até que aconteceu o reencontro. O elevador parou no 32° e o bonitão atlético entrou sorridente, cumprimentando-o. Estava sozinho, sem a deslumbrante namorada ou noiva ou esposa, sabe-se lá! A conversa então se estabeleceu e ele ficou sabendo que seu “rival” era um industrial. “Fabrico lingerie”, disse. “Deixo as mulheres mais sensuais. Minha especialidade é gerar fantasias masculinas!”.

Ficou ali parado à porta do elevador, meio boquiaberto, como um forasteiro perdido, enquanto a ascensorista repetia: “Térreo, senhor, chegamos ao térreo, senhoooor.....”

Percebeu que estava sendo chamado, encarou a ascensorista, sentiu-se um idiota mas, mesmo assim, sorriu e foi tomar um cafezinho no bar da esquina. Sem fantasias.

Corujando
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