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Disco o número do telefone da concessionária autorizada para saber se o serviço de revisão do meu carro ficou pronto. Ouço o sinal de chamada soar umas cinco vezes até que uma áspera voz feminina, do outro lado, declara em alto e bom tom o nome da empresa e pede "um minuto". O "por favor" que deveria ter complementado o pedido é absolutamente esquecido. Uma música agradável chega, então, ao meu ouvido direito. O tema é um clássico famoso, embora minha memória ou minha pouco sólida cultura musical não me permitam identificá-lo. Mas é tão conhecido! Devo tê-lo ouvido pelo menos uma dezena de vezes. Diabos, eu deveria lembrar essas coisas! Afinal, com tantos discos de música clássica em casa, seria natural que eu conhecesse o suficiente sobre o assunto para, ao menos, identificar os autores. Debussy? Acho que não. Talvez Chopin. Ou Grieg? Quem sabe
Schumann?

Acordo da divagação, percebendo que o minuto solicitado pela telefonista já acumula mais de cinco. A música está maravilhosa, mas a minha orelha direita está doendo com a pressão do telefone e eu estou sem carro para ir ao escritório e para ir almoçar no Clube com um velho amigo.

Alô, alô? Não adianta. Debussy, Chopin, ou o que seja, continua rodando no outro lado. O "serviço tele-música" da tal concessionária, sob meu patrocínio, está funcionando com muita eficiência. E o disc-jockey tem muito bom gosto. Imagino um comercial na televisão proclamando a qualidade do serviço aos clientes: "ligue para nós e ouça sinfonias especialmente escolhidas para você".

Desligo o telefone e volto a discar. A coisa se repete, para minha irritação. Mas a terapia das terças-feiras tem funcionado, e consigo passar da irritação para a curiosidade com uma simples e profunda respiração. Decido dar um tempo à telefonista e vou procurar, nos meus discos, o nome e o autor da tal música. Não poderei ir trabalhar com aquela dúvida na cabeça. A pesquisa, afinal de contas, irá fazer bem ao meu humor. Gasto uma boa meia-hora no assunto. Tenho que rodar trechos de diversos discos até poder exclamar um "achei", misto de alegria e frustração: era Smetana.

O senso do dever profissional desfaz meu devaneio musical e eu retorno ao telefone. Nada mudou, a não ser que a música, agora, é Besame Mucho, com a orquestra de Ray Conniff (esta é muito fácil). Minha mulher aparece para saber por que diabos eu não saio do telefone a esta hora da manhã. Digo a ela que estou ouvindo música e ela replica minha suposta ironia dizendo que seria mais fácil e barato ligar o rádio. Na tréplica, alego que é horário político. Aí ela pergunta se pretendo continuar usando o telefone e eu digo sim. O fato é que meu coração já está batendo forte com a irritação que retorna e eu, não sei por quê, lembro que o problema maior do carro é que ele não estava acelerando direito. A gente faz cada associação de idéias de vez em
quando!

Penso em enviar uma carta de protesto para a concessionária, cujo lema é "nossos clientes são nossos melhores amigos". Na carta, colocarei os títulos de 2487 livros, artigos de revistas e fitas de vídeo sobre como encantar clientes e vencer o desafio da competitividade.

Desisto e desligo. Resolvo deixar para ligar do escritório. A central da concessionária deve estar carregada. Afinal de contas, hoje é sexta-feira... Procuro, então, o número da central de rádio-táxis. Após discá-lo, ouço o sinal de chamada. Prontamente, uma simpática voz feminina atende do outro lado: "Rádio-Táxi Ligeirinho às suas ordens. Queira aguardar na linha só um segundo, por
favor".
Tiririca e Florentina invadem meu ouvido.
Arnaldo
Pereira Ribeiro
(agosto
96)
Corujando
Dia e Noite
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