SOBRE PAIS, AMIGOS E GRATIDÃO
Arnaldo P. Ribeiro®
São Paulo 25/07//2002


Meu pai foi um homem simples e um trabalhador diligente, mas teve muito pouca escola. Entretanto, sua capacidade e disposição para o trabalho fizeram com que se transformasse, ainda jovem, num próspero e respeitado comerciante. Foi com essas referências que se casou com uma bela e sonhadora jovem e deu a ela, como prometera, uma vida tranqüila e confortável.

Os caprichos do destino interromperam a prosperidade e a vida sossegada da família o que, tenho a certeza, afetou a harmonia conjugal levando a bela e sonhadora jovem a se transformar, aos poucos, numa mulher amargurada e infeliz.

Foi neste ambiente que eu cresci, distante de muitos privilégios que só o dinheiro era capaz de conceder. Mas não me distanciei de duas coisas que aprendi a valorizar desde cedo: uma boa educação e valores morais sólidos.

Acho que, tivesse sido meu pai uma pessoa mais ambiciosa e pouco ligada à família, ele poderia ter se transformado num rico e poderoso comerciante e eu, como seu herdeiro, talvez tivesse me saído bem. Mas também é provável, se isso tivesse acontecido, que as lembranças que eu teria dele fossem bem diferentes das que hoje tenho: o português baixinho, simpático, contador de histórias, confiante nas pessoas, otimista e sempre orgulhoso dos passos do filho. Não era de beijos, talvez conseqüência do patriarcado lusitano contaminado com o machismo gaúcho. Mas lembro-me de seus abraços e de seus braços fortes me carregando adormecido, após a retreta de domingo na Praça
da Matriz. Quanto aos beijos, ficaram por conta de minha mãe, com toda a certeza, embora a lembrança deles seja um tanto difusa através da poeira do tempo.

Se hoje eu encontro pessoas amigas que, com emoção e para minha emoção, abrem o coração para me oferecer carinho e elogios, devo, sem dúvida, dedicar boa parte disso aos meus pais. Lá no Campo da Fartura, eles devem estar mostrando aos amigos que a sua plantação, afinal, deu uma colheita
boa. Apesar dos percalços e dos caprichos do destino. Sou grato a eles por isso.

Continuo tecendo as minhas cestinhas com palavras, já que não sou uma índia sêneca, sem a pretensão de que venham a ser cornucópias abarrotadas de idéias e mensagens. Ficarei feliz se puderem ser partilhadas com muitos e promover os mesmos valores que balizaram a minha vida. Se não, que possam, pelo menos, ser partilhadas com os "amigos de verdade", aqueles verdadeiros
espelhos mágicos a quem recorremos para abrir a alma e o coração. O "amigo de verdade" ouve e absorve. Absorve e compreende. Compreende e redimensiona. E deste complexo processamento, surgem ações na forma de palavras que provocam uma reflexão ou que conduzem a uma visão diferente. E se a emoção ou o embargo da voz não permitem palavras, há um murmúrio suave, um olhar afetuoso e um abraço terno que falam mais alto do que um milhão de palavras.

Abençoados são aqueles que possuem "amigos de verdade", pois nunca lhes faltará luz no caminho pela Estrada Vermelha. "Amigos de verdade" são, por natureza, seres difíceis de descrever, pelos variados papéis que desempenham em nossas vidas. São os "amigos de todas as horas", os "amigos do peito", são irmãos, pais, filhos, tudo ao mesmo tempo. Somos gratos a eles por isso.

 

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