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Arnaldo
Ribeiro
Agosto
/ 2000
Costuma dizer que vai morrer trabalhando. Acha que é viciado
em trabalho ou um workaholic, como preferem os mais entendidos em
equivalentes importados. Assumiu o vício na falta de uma resposta imediata para
a pergunta da terapeuta:
"O que o trabalho representa mesmo em sua vida?"
Aos quarenta anos sabe que, se houver alguma resposta, ela
terá que ser encontrada lá no fundo de seu arquivo de memórias, e depois de muitas
reflexões e conversas com seu travesseiro.
Naquela noite, após sua primeira sessão de terapia, não
conseguiu dormir.
Ficou recordando o passado e lembrou que tudo começara
quando ainda era um jovem e inexperiente profissional recém diplomado,
trabalhando em 3 lugares diferentes para poder encarar mulher, filho recém
nascido e prestação de apartamento. Lembrou também do primeiro emprego numa
empresa sólida, o salário permitindo abandonar os "bicos" e dedicar
mais tempo à família, embora não durasse até o fim do mês. Aos poucos as
coisas foram melhorando e, depois de duas promoções, já sobrava algum para o
lazer e para um restaurante no sábado à noite. Dava até para aumentar a
família, projeto conduzido com sucesso.
Foi quando decidiu melhorar sua qualidade de vida. Afinal,
naquela empresa ele estava trabalhando como um condenado e comprometendo a
felicidade e o bem estar da sua família. Precisava galgar posições mais
importantes, diminuir o ritmo de trabalho e receber um salário bem maior. Uma
casa na praia, um barco, viagens ao exterior, etc., tudo isso representaria mais
qualidade em sua vida, com certeza. Passou noites e fins de semana estudando,
investiu numa pós-graduação, fez mestrado e doutorado, enfim, virou um
especialista de alta qualificação, o que acabou resultando, de fato, em muitos
convites, salários bem maiores, gratificações especiais, essas coisas. Passou
a ser um dos "top ten" na sua especialidade. Costumava
dizer nas entrevistas que seu sucesso profissional era fruto do prazer que
sentia pelo trabalho. Adorava o que fazia e, por isso, seu trabalho o
acompanhava constantemente, na empresa, na rua, em casa, onde estivesse. Era um
executivo dos tempos modernos.
Coerentemente ou não, as necessidades da família cresciam
em proporção maior que o salário. O apartamento ficara pequeno, o bairro
inabitável, a escola das crianças inadequada.
Associou seus problemas gástricos com a mudança para o
casarão no condomínio fora da cidade. Nunca sofrera de azia na vida. Foi só
mudar de residência para a maldita começar. Fazia estoques de antiácidos em
casa, no escritório, na pasta. Recordava-se de já chegar em casa mal humorado,
sem muita disposição para brincar ou mesmo falar com as crianças ou a mulher.
Aliás, seu contato com os filhos era quase que puramente telefônico, pois
raramente estava disponível para acompanhá-los à escola, ao clube ou qualquer
outro lugar.
Ao lembrar dessas coisas não podia deixar de lembrar também
dos seus tempos de adolescente, quando seu pai trabalhava naquela fábrica de
eletrodomésticos. Suas preocupações com o trabalho eram ligadas e desligadas
com o bater do cartão no relógio de ponto. Ao chegar em casa, o velho estava
quase sempre sorridente, com fome e a fim de um papo com quem estivesse por
perto. Um semblante fechado era sinal evidente de alguma indisposição física
ou contrariedade no trânsito. Nunca um problema do trabalho. Dizia sempre que
os problemas do trabalho eram preocupações remuneradas, as quais, portanto,
deveriam ocupar apenas o tempo pago por esta remuneração, ou seja, o horário
de expediente.
Forçado pelas circunstâncias, decidiu procurar ajuda
terapêutica. Estava pondo a perder seu casamento, estava prejudicando a
educação dos filhos. Precisava de uma vida mais tranqüila, com mais tempo
para as crianças, para a mulher. Precisava, uma vez mais, diminuir o ritmo de
atividade e, novamente, aumentar a receita. O seu padrão de vida, afinal,
custava os olhos da cara.
Passadas algumas semanas, o caminho lhe parecia muito claro e
sua decisão estava tomada. Não acumulara tanto conhecimento e experiência
profissional para ganhar tão pouco e trabalhar como um condenado, sacrificando
a felicidade e o bem estar de sua família. Recusou todas as propostas para
permanecer no emprego e montou sua própria empresa. Era o seu grito de
independência e, com ele, atingia um nível de realização profissional onde
muito poucos chegavam.
Hoje, continua trabalhando como um condenado, interrompeu a
terapia por absoluta falta de tempo, seu casamento vai de mal a pior, seus
filhos são duas pestes, mas seu patrimônio segue aumentando a olhos vistos.
Aos novos e mais íntimos amigos, quando criticado por trabalhar tanto, ele
costuma retrucar:
"Sou o pior patrão que jamais tive."
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