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Arnaldo
Pereira Ribeiro
(abril/1991)
O Waldemar disse-me, revoltado, que cansou de ser certinho
neste país de infratores. Resolveu, de uma vez por todas, seguir fielmente a
chamada "lei de Gérson", que, junto com a "lei do menor
esforço", define o comportamento social e cívico do brasileiro. Conta
ele: "Veja só: ontem eu estava levando a minha sogra para casa dela e
parei o carro num sinal vermelho. Um sujeito parou atrás de mim e começou a
buzinar, fazendo gestos para que eu andasse. Apontei para o semáforo e
gesticulei para que ele tivesse calma. Nesse instante, ele me ultrapassou,
atravessou o cruzamento e ainda gesticulou em resposta, apontando o pai de todos
para cima, no melhor estilo dos filmes americanos. Eram tão somente oito horas
da noite e minha sogra comentou que o moço fizera um sinal pra mim,
provavelmente para avisar sobre alguma coisa! A velha é do tempo em que um
policial e um apito disciplinavam qualquer cruzamento em São Paulo".
O Waldemar sempre foi um cidadão íntegro, cumpridor dos
seus deveres. Nunca lesou o fisco, apesar de comerciante. Sempre pagou tudo em
dia. Nunca pulou a cerca. Marido exemplar. Lá na vizinhança, muita gente o
chamava de "São Waldemar". É isso aí: neste país, ser totalmente
honesto provoca a galhofa e pode levar ao ridículo. Mas ele nunca se abalou com
isso. "Podem falar de mim à vontade", dizia quando ficava sabendo dos
comentários, "um dia o Brasil vai mudar e todos terão que fazer como eu:
respeitar as leis!".
Uma das vantagens que o Waldemar levava com esse seu jeito de
ser e proceder era que ninguém da vizinhança o procurava para pedir ajuda na
declaração de rendas. Pudera!! Mas havia muitas desvantagens, em
contrapartida. Um dia, ele resolveu reformar a frente da sua casa para colocar
uma janela maior, dessas panorâmicas. Tirou licença na Prefeitura mas o fiscal
disse que a obra era irregular, apesar da licença. Mas dava para "quebrar
o galho" em troca de uma cervejinha. Indignado, o Waldemar denunciou o
fiscal por corrupção. Deu em nada. Mas sua mulher ficou ouvindo palavrões ao
telefone durante várias semanas.
O Waldemar ficou passado com o negócio do confisco dos
cruzados. Passou mal. Teve taquicardia. Parou de ler jornal. Disse que nunca
mais votaria para coisa alguma. Mas o tempo passou e ele superou o problema.
Voltou a ler jornal e a discutir política. Voltou a pôr fé na equipe
econômica. Entretanto, o escândalo da Previdência Social foi além da conta.
Indignou-se, com toda a razão conferida a quem sempre recolhia suas
contribuições como mandava o figurino!
Acho que o Waldemar agora desequilibrou. O incidente do semáforo foi só a
gota d’água. Ele nunca foi um revolucionário e nem poderia ser porque não
teria muitos seguidores. Mas o Waldemar está revoltado. A revolta do cidadão
sem mácula no império da esperteza!
Corujando
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