Depois da separação, voltara a morar no pequeno apartamento
de solteiro do qual nunca se desfizera. Talvez uma premonição, uma ironia do
destino ou mesmo pura sorte sua, não saberia explicar a razão pela qual nunca
vendera o velho apartamento. Ao contrário, mantivera-o alugado para aquela
velhinha simpática que jamais atrasara um aluguel. Também muito
convenientemente, sua inquilina morrera no mesmo mês da separação, poupando-o
do desconforto do sofá da sala ou dos custos daquele flat que Beatriz (a
sua ex) já descobrira ali bem pertinho do metrô (e longe dele, naturalmente).
Pois o pequeno apartamento, pintado e com nova decoração,
até que ficou aconchegante. Providenciara um barzinho no canto da sala e não
fizera economia na parafernália eletrônica de som, vídeo, TV
a cabo e tudo o mais que ele bem merecia. Montou uma cozinha bem moderninha,
para que pudesse retornar a seus passatempos culinários de vez em quando. Ah, e
uma cama redonda, bem grande, para as mil e uma noites de prazer despreocupado e
sem remorsos que iriam acontecer em seu futuro.
Resolveu que faria uma re-inauguração bem legal e
convidaria os velhos amigos da vizinhança, da faculdade, do trabalho, algumas
gatinhas novas para animar a festa e comemorariam os velhos tempos e o seu
retorno à vida de solteiro. Se Beatriz o deixara, tanto melhor. Ele perdera a
mulher, mas a noite ganhara um novo personagem. Usou o computador para produzir
uns convites bem sugestivos e procurou o velho zelador do prédio para
distribuí-los. Ficou desagradavelmente surpreso ao receber a maioria de volta,
com as devidas explicações do dedicado zelador.
"O Mariozinho? Se formou e foi para Curitiba."
"Não, senhor, o Pereira não mora mais aqui. Ganhou uma bolada na Sena e
foi morar em Miami." "O Dr. Faria morreu, o senhor não soube não?
Uma tristeza, tão moço que ele era!"
Bastante frustrado com as novidades sobre seus antigos
vizinhos, resolveu apelar aos antigos colegas (solteiros, é claro!) de
trabalho.
"Alô? Quem? Zé Carlos Vidal? Não, amigo, não
trabalha mais na empresa, viu? Teve uma redução de pessoal por aqui e sobrou
pra ele, sabe? Não, senhor. Não sei para onde ele foi. Ele não deixou nem
telefone pra recado!"
Recorreu, também, a antigos endereços.
"Você queria falar com a Carla Milene, meu amor? Ah,
era "cacho" antigo, é? Que peninha! Ela casou com um estrangeiro
cheio de dólares e foi morar lá na Europa, num castelo lindo, lindo! Festinha?
Claro que eu topo!"
À re-inauguração do apartamento compareceram oito
"convidados": a amiga da Carla Milene, que já chegou trocando as
pernas e esbanjando batom, a viúva do Dr. Faria e seu olhar esperançoso, a
sogra do falecido e seu olhar desaprovador, o zelador e a mulher, o casal do
apartamento ao lado e o síndico que ali chegara para reclamar do barulho e
acabara ficando para tomar "só uma cervejinha".
À meia-noite, conseguiu se livrar do último
"convidado" e sentou-se na cadeira da varanda para respirar e
refletir. Foi nesse momento que o celular tocou e ele ouviu a voz de Beatriz.
"Desculpe por ligar a esta hora. Você está sozinho?
Não quero ser inconveniente."
Respondeu que estava sozinho, que ela não estava sendo
inconveniente, muito pelo contrário, que o apartamento tinha ficado uma beleza
e que..., bem, que...
"Sim, e o quê?"
Ficou ouvindo a voz rouca de Beatriz querendo saber se ele
estava passando bem, achando-a mais sensual do que nunca e começando a imaginar
coisas. Não, nem pensar! Depois de tudo o que acontecera entre eles! Será que
ela aceitaria?
"Festinha de re-inauguração? Puxa, você podia ter me convidado mais
cedo! Claro que eu vou! Me dá uns quinze minutos?"
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