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Arnaldo Pereira Ribeiro

(novembro/2000)

 

 

 

 

Depois da separação, voltara a morar no pequeno apartamento de solteiro do qual nunca se desfizera. Talvez uma premonição, uma ironia do destino ou mesmo pura sorte sua, não saberia explicar a razão pela qual nunca vendera o velho apartamento. Ao contrário, mantivera-o alugado para aquela velhinha simpática que jamais atrasara um aluguel. Também muito convenientemente, sua inquilina morrera no mesmo mês da separação, poupando-o do desconforto do sofá da sala ou dos custos daquele flat que Beatriz (a sua ex) já descobrira ali bem pertinho do metrô (e longe dele, naturalmente).

 

Pois o pequeno apartamento, pintado e com nova decoração, até que ficou aconchegante. Providenciara um barzinho no canto da sala e não fizera economia na parafernália eletrônica de som, vídeo, TV a cabo e tudo o mais que ele bem merecia. Montou uma cozinha bem moderninha, para que pudesse retornar a seus passatempos culinários de vez em quando. Ah, e uma cama redonda, bem grande, para as mil e uma noites de prazer despreocupado e sem remorsos que iriam acontecer em seu futuro.

Resolveu que faria uma re-inauguração bem legal e convidaria os velhos amigos da vizinhança, da faculdade, do trabalho, algumas gatinhas novas para animar a festa e comemorariam os velhos tempos e o seu retorno à vida de solteiro. Se Beatriz o deixara, tanto melhor. Ele perdera a mulher, mas a noite ganhara um novo personagem. Usou o computador para produzir uns convites bem sugestivos e procurou o velho zelador do prédio para distribuí-los. Ficou desagradavelmente surpreso ao receber a maioria de volta, com as devidas explicações do dedicado zelador.

"O Mariozinho? Se formou e foi para Curitiba." "Não, senhor, o Pereira não mora mais aqui. Ganhou uma bolada na Sena e foi morar em Miami." "O Dr. Faria morreu, o senhor não soube não? Uma tristeza, tão moço que ele era!"

Bastante frustrado com as novidades sobre seus antigos vizinhos, resolveu apelar aos antigos colegas (solteiros, é claro!) de trabalho.

"Alô? Quem? Zé Carlos Vidal? Não, amigo, não trabalha mais na empresa, viu? Teve uma redução de pessoal por aqui e sobrou pra ele, sabe? Não, senhor. Não sei para onde ele foi. Ele não deixou nem telefone pra recado!"

Recorreu, também, a antigos endereços.

"Você queria falar com a Carla Milene, meu amor? Ah, era "cacho" antigo, é? Que peninha! Ela casou com um estrangeiro cheio de dólares e foi morar lá na Europa, num castelo lindo, lindo! Festinha? Claro que eu topo!"

À re-inauguração do apartamento compareceram oito "convidados": a amiga da Carla Milene, que já chegou trocando as pernas e esbanjando batom, a viúva do Dr. Faria e seu olhar esperançoso, a sogra do falecido e seu olhar desaprovador, o zelador e a mulher, o casal do apartamento ao lado e o síndico que ali chegara para reclamar do barulho e acabara ficando para tomar "só uma cervejinha".

À meia-noite, conseguiu se livrar do último "convidado" e sentou-se na cadeira da varanda para respirar e refletir. Foi nesse momento que o celular tocou e ele ouviu a voz de Beatriz.

"Desculpe por ligar a esta hora. Você está sozinho? Não quero ser inconveniente."

Respondeu que estava sozinho, que ela não estava sendo inconveniente, muito pelo contrário, que o apartamento tinha ficado uma beleza e que..., bem, que...

"Sim, e o quê?"

Ficou ouvindo a voz rouca de Beatriz querendo saber se ele estava passando bem, achando-a mais sensual do que nunca e começando a imaginar coisas. Não, nem pensar! Depois de tudo o que acontecera entre eles! Será que ela aceitaria?

"Festinha de re-inauguração? Puxa, você podia ter me convidado mais cedo! Claro que eu vou! Me dá uns quinze minutos?"

 

 

 

 

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