Obrigada pela visita!
 

Arnaldo Pereira Ribeiro

(março/1992)

 

 

Ela passou pelas portas automáticas e ingressou triunfalmente no imenso saguão. Vestia um vestido longo de seda, todo branco e um pouco transparente. Nos pés, os sapatos de salto quinze lhe davam a postura imponente, acentuada pelo queixo perfeito e empinado. Ela era muito elegante e bonita e atraiu, de imediato, os olhares da multidão que se abria para deixá-la passar. Dirigiu-se, com passos longos e determinados, ao balcão da companhia aérea. Levava nos lábios um sorriso atrevido e tornado sensual pelo vermelho escuro e brilhante do batom. Os cabelos longos e escorridos completavam uma imagem perturbadora. "Meu Deus, que gata", deve ter falado, lá com seus botões, o jovem que a atendeu.

Com o passe na mão, ela prosseguiu sua deslumbrante caminhada em direção ao salão de embarque. Uma top-model na passarela, uma deusa descida do Olimpo. Todos se voltavam para vê-la melhor. Um senhor chegou a ensaiar um gesto em sua direção, como que querendo lhe dirigir a palavra. Um rapaz ganhou uma leve cotovelada da namorada ao parar para contemplar o desfile. Algumas mulheres cochichavam e sorriam, como se fosse possível achar algum defeito naquela figura. Puro despeito.

Foi então que ela começou a cantarolar. Era uma canção em francês, totalmente desconhecida. Falava do mar e do campo, do amor e da vida. Era uma canção bonita, para falar a verdade, e combinava com ela que, ao cantar, deixava à mostra seus dentes alvos e perfeitos. Ao entrar no salão de embarque, ela já cantava em um tom mais alto, chamando ainda mais a atenção das pessoas. Os comentários começavam. "Veja, ela é tão bonita!" "Mas me parece biruta. Onde se viu cantar em público desse jeito?" "Sei lá! Será que ela não está drogada?" "Vai ver ela ganhou uma bolada na loteria!".

Ela dirigiu-se, com os demais passageiros, para a porta de embarque. Na fila que se formou, ela continuava cantarolando, enquanto os comentários se tornavam mais ácidos. "Já pensou uma mulher dessas sentada do seu lado durante todo o vôo?" "Vai ser uma dureza agüentar esta cantoria!" "Se ela continuar, a gente reclama com o comissário" "Afinal, se ela é louca ou se estiver alcoolizada, não poderá viajar. Está nos regulamentos!" "Acho que ela está fazendo isso só para chamar atenção. Quem sabe ela não está atrás de um programinha, hein?" "Se ela sentar do meu lado eu vou cantar junto com ela!" "Se ela der chance, vai ser cantada!".

Ela entrou no avião e sentou-se logo na primeira poltrona, junto à janela. Apertou o cinto de segurança e falou com a comissária, pedindo, com um certo sotaque francês, para não ser perturbada. Agradeceu com um cativante sorriso, colocou o travesseiro ao lado da cabeça e fechou os olhos. Já estava dormindo quando o avião decolou. Na serenidade do seu sono e, quem sabe, do seu sonho, ela parecia feliz e ficara ainda mais bonita.

 

 

 

Corujando Dia e Noite

 

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