"Pois saiba o senhor que mesmo não sendo mais
obrigatório, eu sou a favor e sempre tenho um no carro! Para mim ele tem sido
muito útil!"
A manifestação sincera vinha do motorista do táxi que me
conduzia desde o aeroporto, e o assunto da conversa era o famigerado e outrora
obrigatório estojo de primeiros socorros, apelidado implacavelmente pelos
críticos de "kit bobagem". E continuava ele, com jeito de ter
engatilhado um discurso que demandaria mais tempo do que o necessário para
chegarmos em casa:
"Acredite o senhor que quando este novo código de
trânsito começou a valer, eu falei pra minha patroa que o meu trabalho ia
ficar mais fácil porque, lá no Art. 94, tava escrito que os quebra-molas
seriam proibidos e os buracos retirados ou sinalizados. A cidade ia ganhar um
monte de barreiras eletrônicas no lugar dos quebra-molas. Fiquei até zangado
quando ela começou a rir, dizendo que eu acreditava em tudo o que lia no
jornal. Até a minha sogra, que é uma senhora equilibrada e que sempre apóia o
que eu digo, naquele dia me criticou. Me chamou de miolo mole, sonhador e outras
coisas piores."
Fiz menção de interromper mas ele não me deu a menor
chance:
"Pois olha só que elas tavam cheias de razão,
uai!" exclamou, revelando a mineiridade. "A buraqueira
continua, há valetas em todas as ruas e os quebra-molas clandestinos estão
firmes como nunca. Até parece que ninguém lá na Prefeitura ouviu falar do tal
do código, o Sr. não acha?" Dispensando a minha resposta, arrematou:
"O Sr. não faz idéia do perigo que a gente corre nestas ruas cheias de
obstáculos não sinalizados. Já perdi a conta das vezes em que tive que
trocar um pneu estourado, ou entrar debaixo do carro para um conserto de
emergência. Volta e meia a gente se machuca fazendo essas coisas. Tenho algumas
cicatrizes nos braços e dedos para lhe mostrar, olhe só! Por isso é que sou
favorável ao estojo. Acho que ele é muito necessário. Para lhe dizer a
verdade, acho que ele é indispensável mesmo!"
Paguei a corrida, desejei boa noite ao motorista e fui para
casa perguntando a mim mesmo por que ninguém pensara nisso antes. Afinal,
ouvido o taxista, até que seria uma boa idéia adicionar aos tais estojos mais
algumas coisas como água oxigenada, band-aid, estopa e, quem sabe, uma
latinha de removedor de graxa. E colocá-los à venda outra vez. Sem
obrigações ou compromissos. Só na cidade de São Paulo. Até que um dia, quem
sabe, acabe a nossa paciência, o nosso baixo nível de exigência, o nosso
conformismo.
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