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Arnaldo Ribeiro

Outubro / 1999

"Pois saiba o senhor que mesmo não sendo mais obrigatório, eu sou a favor e sempre tenho um no carro! Para mim ele tem sido muito útil!"

A manifestação sincera vinha do motorista do táxi que me conduzia desde o aeroporto, e o assunto da conversa era o famigerado e outrora obrigatório estojo de primeiros socorros, apelidado implacavelmente pelos críticos de "kit bobagem". E continuava ele, com jeito de ter engatilhado um discurso que demandaria mais tempo do que o necessário para chegarmos em casa:

"Acredite o senhor que quando este novo código de trânsito começou a valer, eu falei pra minha patroa que o meu trabalho ia ficar mais fácil porque, lá no Art. 94, tava escrito que os quebra-molas seriam proibidos e os buracos retirados ou sinalizados. A cidade ia ganhar um monte de barreiras eletrônicas no lugar dos quebra-molas. Fiquei até zangado quando ela começou a rir, dizendo que eu acreditava em tudo o que lia no jornal. Até a minha sogra, que é uma senhora equilibrada e que sempre apóia o que eu digo, naquele dia me criticou. Me chamou de miolo mole, sonhador e outras coisas piores."

Fiz menção de interromper mas ele não me deu a menor chance:

"Pois olha só que elas tavam cheias de razão, uai!" exclamou, revelando a mineiridade. "A buraqueira continua, há valetas em todas as ruas e os quebra-molas clandestinos estão firmes como nunca. Até parece que ninguém lá na Prefeitura ouviu falar do tal do código, o Sr. não acha?" Dispensando a minha resposta, arrematou: "O Sr. não faz idéia do perigo que a gente corre nestas ruas cheias de obstáculos não sinalizados. Já perdi a conta das vezes em que tive que trocar um pneu estourado, ou entrar debaixo do carro para um conserto de emergência. Volta e meia a gente se machuca fazendo essas coisas. Tenho algumas cicatrizes nos braços e dedos para lhe mostrar, olhe só! Por isso é que sou favorável ao estojo. Acho que ele é muito necessário. Para lhe dizer a verdade, acho que ele é indispensável mesmo!"

 

Paguei a corrida, desejei boa noite ao motorista e fui para casa perguntando a mim mesmo por que ninguém pensara nisso antes. Afinal, ouvido o taxista, até que seria uma boa idéia adicionar aos tais estojos mais algumas coisas como água oxigenada, band-aid, estopa e, quem sabe, uma latinha de removedor de graxa. E colocá-los à venda outra vez. Sem obrigações ou compromissos. Só na cidade de São Paulo. Até que um dia, quem sabe, acabe a nossa paciência, o nosso baixo nível de exigência, o nosso conformismo.

 

 

 

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