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Arnaldo Pereira Ribeiro

(setembro de 1992)

 

 

A televisão nos mostrou tudo com clareza. O inferno escancarou suas portas e a fúria da natureza explodiu no céu e rolou sobre a terra. Nada a fazer senão fugir. Impossível conter, inútil lutar. Curioso como, em momentos assim, o homem despe suas diferenças em relação aos animais. Não existe salto evolutivo que o proteja: no máximo, a sua tecnologia lhe proporciona uma fuga mais rápida para um lugar distante e seguro.

 

O Pinatubo explodiu nas Filipinas. País de gente religiosa e temente a Deus. Pobres filipinos! Não bastassem os crimes de Marcos e Imelda, os militares golpistas e as dificuldades sociais, as entranhas da Terra também se transformaram num sério problema para conviver.

 

Tenho um amigo meio irreverente que costuma dizer que, no fundo, no fundo, Deus sempre compensa as coisas. "Tudo é uma questão de equilíbrio", diz ele, "afinal, lá não tem quadrilha da Previdência Social nem dívidas de usineiros. Estas coisas sim são difíceis de resolver".

 

Irreverências à parte, o fato é que o drama filipino da erupção do Pinatubo sensibilizou todos nós. As tempestades de cinzas cobrindo casas, automóveis, ruas inteiras, constituíram cenas inesquecíveis para o mundo.

 

Se a mãe natureza foi dura com os filipinos, mudou sua postura ao olhar para o Brasil. Tradicional amiga da terra, apesar de tão ofendida pelos desmatadores patrícios, a natureza trouxe para nós apenas um efeito do Pinatubo. Talvez pelo fato internacionalmente conhecido de que Deus é brasileiro, fomos brindados com um efeito especial digno de Oscar em Hollywood. Os jornais mostraram que as cinzas do Pinatubo, carregadas pelos ventos e acampadas nas alturas, vieram produzir um pôr-do-sol ainda mais belo nas praias cariocas. 

A vermelhidão do céu no horizonte foi, sem dúvida, 

um atrativo a mais para os namorados no cair da tarde.

 

Contraste? Sim. Injustiça? Acho que não. É possível, até, que o meu amigo tenha razão. Fazendo as contas na ponta do lápis, pode ser que os desfalques na Previdência e as dívidas dos usineiros sejam muito piores que uma erupção vulcânica.

 

Corujando Dia e Noite

 

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