






Modernidade
Arnaldo
Ribeiro
Outubro-1992
Tio Arlindo resolveu defender a modernidade. Naquela campanha presidencial,
foi um árduo defensor do candidato Collor e do seu discurso
modernizador. Não se conformava com a retórica da esquerda
que, segundo ele, "insistia na pregação ultrapassada
de uma economia estatizante que iria afundar o País nas profundezas
abissais do atraso tecnológico e da burocracia estatal".
Não, não era meu parente. O "tio" era um tratamento
carinhoso, porque ele era o mais velho da turma da faculdade e os
precoces cabelos brancos adicionavam vários anos na aparente
diferença etária.
Pois Tio Arlindo teve algumas namoradas em sua juventude mas sempre
mostrou uma forte tendência para o celibato. Costumava dizer
que o casamento era um passo muito sério na vida de qualquer
homem e, para dá-lo, era necessário refletir bastante
sobre suas conseqüências.
Aparentemente,
o "velho" companheiro de estudos nunca se dedicou a tal
reflexão. E, assim sendo, o solteirão convicto veio
vivendo a vida meio que perdido entre festinhas em casa de amigos
("todos casados, hipotecados, com um monte de filhos: estas festas
são terríveis!") e sessões de cinema de
arte ou espetáculos de teatro. De esquerdista não declarado
em 64, o tio Arlindo se transformou num ferrenho defensor do sentimento
ufano-nacionalista do "Brasil, ame-o ou deixe-o" e do "Ninguém
segura este país", característico dos anos setenta.
Atravessou o período Figueiredo dizendo que "o homem está
extrapolando nas suas manifestações" e "talvez
tenha mesmo chegado a hora de devolver a coisa para os civis".
O governo Sarney provocou uma mudança radical no ideário
do tio Arlindo. Inconformado com o que lia nos jornais a respeito
de salário de professores, violência urbana, invasão
de terras, tráfico de drogas, funcionalismo público,
estatização da economia, reserva de mercado, etc, decidiu
romper com seu pensamento nacionalista e passar a defender as propostas
alternativas de modernização. O texto da nova Constituição
provocou arrepios no inconformado "tio" ("Isto é
um saco de absurdos! Teremos que mudar tudo em 93! Este Congresso
precisa se modernizar!").
O discurso "collorido" chegou na hora certa. Cabo eleitoral
de primeira hora, o velho solteirão tratou de reunir os amigos
fiéis, seus filhos já eleitores, esposas, sogras, mães,
vizinhos, amigos dos vizinhos e quem se aproximasse, para reuniões
no salão de festas do prédio. Nestas reuniões,
eram expostas as mazelas do governo Sarney, denunciadas por todas
as mídias. Também eram mencionados os perigos representados
pelas idéias estatizantes da campanha petista, bem como ressaltadas
as promessas modernizantes da plataforma do seu candidato.
Não via o Arlindo havia vários anos. Sabia que ele se
aposentara e estava "curtindo" o fruto de seus investimentos
em imóveis e ações. Mas não tinha notícias
dele até receber seu convite para uma reunião dos velhos
amigos na sua nova casa em Angra. Combinamos que eu iria de ônibus
e que ele me esperaria na estação rodoviária.
Arlindo me transportou da estação até sua bela
casa na garupa de uma Kawazaki Ninja vermelha. Estava vestido a caráter:
capacete, casaco e luvas de couro, jeans e botas. Ao chegarmos em
casa, uma belíssima construção estilo mediterrâneo
a 50 metros da praia, apresentou-me à sua namorada. Ela é
uma deslumbrante morena, bronzeada pelo sol e aparentando menos que
25 anos. Fala inglês fluentemente, é analista de software,
cursa engenharia de alimentos e adora jet ski. Ela me mostrou toda
a casa, da cozinha ao estúdio de som, tudo equipado com máquinas
e equipamentos importados.
Ao entardecer do dia seguinte, Arlindo me levou de volta à
rodoviária. Abracei-o e dei-lhe os meus parabéns. Afinal
de contas, suas expectativas haviam se concretizado. A modernidade
chegara ao Brasil. Pelo menos, para ele.






