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Arnaldo
Ribeiro
(Julho
/ 1999)
Suponhamos que toda esta história de inteligência extraterrestre seja verdadeira e que, num belo dia, um OVNI prateado pouse na praça central de Varginha e um sujeitinho verde dele desembarque, falando para um grupo de velhinhos que, até aquele momento, jogava damas na maior tranqüilidade:

“Levem-me ao seu líder!” (Faz parte da nossa suposição que alienígenas saibam falar português sem sotaque nenhum.)

Caso o leitor goste de adivinhações, responda rápido: para onde se deslocaria o grupo? Para a Câmara Municipal? Para Belo Horizonte? Para Brasília? Para Washington? Para Havana? Ou para o Vaticano?

Suponhamos, mais uma vez, que um guru desses que escrevem best-sellers sobre administração, qualidade ou relações humanas, entrasse numa empresa (poderia ser na empresa em que você trabalha, caro leitor). Imaginemos ainda que este guru também falasse português e pedisse a um funcionário:

“Leve-me ao seu líder empresarial!”

Na opinião do leitor, para onde se dirigiria a dupla? Para a sala do chefe do funcionário abordado? Para a sala do diretor industrial? Para a sala do presidente da empresa? Ou para outra empresa?

Nas duas suposições, existe a mesma dificuldade: identificar uma liderança. Na suposição extraterrestre, essa dificuldade é compreensível uma vez que o alienígena não informou a que tipo de liderança ele estava se referindo.

Na suposição empresarial, entretanto, a demanda foi explícita. Se o leitor achou estranha a última opção, saiba que ela seria muito provável. Tem gente que adora o chefe dos outros: “Legal mesmo é aquele Dr. Fulano, que saiu na capa da revista! Aquilo é que é uma liderança empresarial! Quem me dera trabalhar com ele!”

Outros preferem louvar antigos chefes: “Ah, que saudade do Dr. Sicrano! Esta empresa piorou muito depois que ele saiu! Chefe maravilhoso!”

Dizia a velha marchinha carnavalesca que “o cordão dos puxa-sacos cada vez aumenta mais”. Entretanto, manifestações dessa ordem são, via de regra, fruto da sinceridade das pessoas. É claro que as aparências geralmente enganam gente pouco informada e de boa fé. Quantos chefes “maravilhosos” perderam seu emprego por desonestidade ou incompetência? Quantos pulhas simpáticos tivemos a infelicidade de conhecer ao longo de nossa vida, seja pessoalmente, seja pela mídia? Quantos nos surrupiaram um votinho para algum cargo eletivo?

Liderança não se constrói com falsidades, sorrisos hipócritas, tapinhas nas costas ou abraços efusivos em ocasiões ou eventos planejados, como aqueles tradicionais momentos de simpatia explícita que ocorrem em datas pré-determinadas como Natal, Dia da Criança, Dia da Secretária, aniversário da empresa, etc. Liderança exige a confiança conquistada por meio de palavras francas e ações coerentes bem acima dos limites da auto-proteção e das disputas políticas internas, superando obstáculos como medos, orgulhos, antipatias localizadas e interesses disfarçados.

Liderança se aprende. Há, nas livrarias, vários livros excelentes sobre o assunto e que podem orientar os interessados. O que não existe à venda é a famosa disposição de mudar. Mudar de chefe para líder é tão difícil como parar de fumar ou fazer dieta para emagrecer. É tão cômodo ser do jeito que se é, não é verdade?

“Ah, lamento muito, mas eu sou assim e vocês vão ter que se acostumar comigo!”

“Não queiram ensinar pirueta nova pra macaco velho!”

Frases como essas são ouvidas de chefias por este mundo afora!

Liderança requer coragem para abrir trilhas no escuro e em terreno desconhecido. Um chefe sem coragem não serve como líder, embora possa ser um bom gestor. Mas nunca se espere inovação por onde ele passar.

Falsos líderes podem ser muito perigosos na medida em que não assumem a liderança quando pressentem um risco maior para o seu pescoço. Agem como aquele sargento que, ao desembarcar na praia minada, grita aos comandados:

“Em frente, pessoal, que eu estou logo aqui atrás de vocês!”

São chefes desse tipo que adoram ver seu pessoal pelas costas. As conversas com os subordinados são rápidas, inconclusivas, surdas, de mão única e sem olho no olho. Vivem apregoando um falso estilo democrático: “Lá na empresa, minha sala está sempre aberta para os funcionários”. O curioso é que ninguém entra.

Qualifiquemos tal comportamento de auto-proteção ou de auto-preservação. Geralmente do próprio cargo de chefia.
Liderança também requer capacidade de inspirar uma atitude construtiva através de características positivas, entre as quais se destacam a estabilidade emocional, o comportamento coerente e confiável, a solidariedade, a postura ética e moral, o compromisso com o trabalho, a prioridade do interesse da empresa sobre os projetos pessoais e a prática de seu próprio discurso. Trocando em miúdos, um líder de fato não pode ter destemperos nem chiliques, não pode assediar as secretárias, não pode ser chegado numa fraude e nem ser do tipo “façam o que eu digo mas...”. Também não é recomendável exibir um carro novo quando o resultado da empresa não permitiu aquele aumentinho de mérito para os funcionários.

Como? Assim fica difícil ser um líder? Concordo. Por isso eles não são muitos.

Tenho um amigo mineiro que apontou um pequeno lapso neste texto. De acordo com ele, na atual escassez globalizada de lideranças, o grupo de velhinhos lá de Varginha, com toda a certeza, teria conduzido o tal alienígena até a casa do tio dele, o Dr. Sezefredo que é, sem dúvida, o maior jogador de damas do estado e líder inconteste dos apreciadores do esporte. Imbatível.
Corujando
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