No trânsito engarrafado, a bonita loura sorria para mim. Dentes tão alvos a recomendavam muito mais para um comercial de dentifrício (palavra horrível esta que o Aurélio nos ensina para pasta dental!). Mas o comercial era de uma rede de farmácias e, portanto, muito mais abrangente do que o belo sorriso poderia sugerir.

Sim, a loura não me sorria ao vivo e, portanto,
quem pensou em paquera errou redondamente. Afinal, paquera no trânsito não reúne grandes chances de sucesso uma vez que as pessoas,
via de regra, estão irritadas e mesmo um
inocente e banal sorriso pode gerar um
processo de assédio sexual.

Retornando ao comercial, era desses colocados
na traseira dos ônibus e a loura em questão
era uma conhecida apresentadora de
televisão já veterana (não, ela não cantava
quando mais moça) e que, em meio à fumaça, convidava os infelizes paulistanos obrigados
a penar diariamente na rota Rubem Berta - 23 de Maio, a encontrá-la numa das farmácias da tal rede.

Convitezinho mentiroso aquele. Sabemos todos como apresentadoras de televisão e outras figuras reconhecíveis da mídia adoram ir pessoalmente a farmácias, supermercados e outros pontos de concentração popular, onde enfrentam a tietagem
implacável e distribuem autógrafos às centenas!

Propaganda enganosa, é claro. Tão enganosa quanto aquelas que mostram como são bem sucedidas na vida as pessoas que fumam tal cigarro
ou bebem tal uísque. É possível até que a referida senhora adquira os medicamentos de que precisa
na rede anunciada. Mas é pouco provável que não faça seus pedidos pelo telefone.

Acreditando nisso, fiquei encarando a loura bonita
e pensando o quanto ela teria cobrado pela autorização para o uso de sua imagem. Perguntei
a meus botões quantas pessoas famosas vendem sua imagem para a publicidade de produtos que
não usam (e na propaganda dizem que usam), de lojas onde não compram (e na propaganda dizem que compram) ou de serviços que não utilizam
(e na propaganda dizem que utilizam). São poucos os que não lançam mão desta venda irrestrita de sua imagem para faturar (e muito!) sem preocupação com o que irá acontecer com esta imagem e, muito menos, com as palavras que esta imagem estará divulgando para o povão nas ruas.

Suponhamos que eu tivesse atendido ao convite
da loura senhora e visitado uma das farmácias
da dita rede. Certamente não a teria encontrado pelos motivos já apresentados. O mais importante, entretanto, seria encontrar os remédios que
eu estivesse precisando comprar a um custo competitivo. Embora um bom comercial com
sorrisos de gente bonita seja algo muito agradável,
qualidade é produzida por fatos. Acima de tudo,
qualidade é medida pela percepção do cliente e,
por esta única e singela razão, será algo sempre recheado de verdade. Ou não existirá.
O resto é apenas efeito publicitário, muitas vezes
de caráter um tanto enganoso, que deveria ser evitado por todas as empresas. Ética e caldo de galinha não fazem mal a ninguém.



(
Arnaldo Pereira Ribeiro)

dez/1998