O
recente final de século e de milênio
trouxe para o morador da grande metrópole
algumas novidades. O período natalino,
além de promover o encantamento luminoso
de tantas partes da cidade, tornou suas
noites algo parisienses e deslumbrantes,
motivo para um belo passeio turístico
noturno por diversos pontos magnificamente
decorados. E, como não podemos fazer de
conta que os rios da metrópole são o rio
Sena, por razões conhecidas de todos, os
turistas fizeram o passeio de ônibus
mesmo, o que é muito mais higiênico.
Como,
feliz ou infelizmente, não temos neve no
Natal, diferente de Paris e Nova Iorque,
algumas pessoas mais criativas tiveram a
idéia de aprimorar o cenário natalino e
realçar o efeito das luzes, produzindo
uma "neve de mentirinha", feita
a partir de espuma de sabão, soprada por
dispositivos especiais por sobre a cabeça
dos transeuntes. Foi algo muito divertido
e sugestivo, que fez a alegria de
crianças e marmanjos. Uma nevezinha bem
ralinha, que desaparecia no ar, secava
rapidamente, não se acumulava em lugar
nenhum, não emporcalhava as ruas nem
provocava acidentes. A "neve de
mentirinha" foi, na opinião de
muitas pessoas entrevistadas pela
televisão, um faz de conta de primeiro
mundo, uma "brincadeira legal"
ou "o maior barato".
Também
tivemos a inauguração de novas salas de
cinema em shoppings. Aquelas salas
modernas, com som digital, telas enormes,
poltronas confortáveis e ar condicionado
que fica ligado até o final do filme, sem
falar da qualidade da pipoca. Parece que
estamos vendo o filme lá em Hollywood,
não é mesmo? Maravilha. Coisa de
primeiro mundo. Que nós merecemos, é
claro. Afinal, chega de cinemas
"pulgueiros", onde sentamos em
cadeiras quebradas, somos tratados com
absoluta indiferença ou até grosseria e
de onde saímos suando, porque o ar
condicionado é desligado a meia hora do
final da sessão. Cinemas dessa qualidade
deveriam ser coisa proibida desde o
século passado.
Outra
novidade foi o complexo de viadutos que
levou tanto tempo para ser construído.
Mas lá estão todas aquelas alças de
aço e concreto, permitindo a passagem
rápida dos veículos uns por sobre os
outros, diminuindo os congestionamentos
(se é que isso é ainda possível na
grande metrópole). A gente olha para tudo
aquilo e fica com uma sensação de estar
em outra cidade, outro país, outro
hemisfério. E quando trafega pelos novos
viadutos, rodando por aquele pavimento
novo, liso, limpo, perfeito, tem essa
sensação reforçada.
Mas,
de repente, o viaduto acaba e estamos de
volta ao nosso caminho usual, aquele mesmo
velho conhecido. E percebemos isso
facilmente, porque o veículo que nos
transporta retorna ao seu habitual
sacolejo, pula por sobre lombadas
propositais ou depressões consentidas,
mergulha em valetas incompreensíveis,
afunda em crateras traiçoeiras, desvia
dos monturos de lixo.
A
grande metrópole nos oferece muitas
novidades a cada dia, a cada semana, a
cada ano. Algumas chegam para ficar,
outras são efêmeras. Muitas servem para
nos transportar, como num sonho,
levando-nos a imaginar como seria bom se
fossem para valer. Outras contrastam tanto
com a nossa realidade que nos levam a
questionar se irão durar muito tempo. Se
estabelecerão um novo padrão de
qualidade. Se não serão ilusórias. Como
neve de sabão.
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