Arnaldo Ribeiro

Junho / 2001

O recente final de século e de milênio trouxe para o morador da grande metrópole algumas novidades. O período natalino, além de promover o encantamento luminoso de tantas partes da cidade, tornou suas noites algo parisienses e deslumbrantes, motivo para um belo passeio turístico noturno por diversos pontos magnificamente decorados. E, como não podemos fazer de conta que os rios da metrópole são o rio Sena, por razões conhecidas de todos, os turistas fizeram o passeio de ônibus mesmo, o que é muito mais higiênico.

Como, feliz ou infelizmente, não temos neve no Natal, diferente de Paris e Nova Iorque, algumas pessoas mais criativas tiveram a idéia de aprimorar o cenário natalino e realçar o efeito das luzes, produzindo uma "neve de mentirinha", feita a partir de espuma de sabão, soprada por dispositivos especiais por sobre a cabeça dos transeuntes. Foi algo muito divertido e sugestivo, que fez a alegria de crianças e marmanjos. Uma nevezinha bem ralinha, que desaparecia no ar, secava rapidamente, não se acumulava em lugar nenhum, não emporcalhava as ruas nem provocava acidentes. A "neve de mentirinha" foi, na opinião de muitas pessoas entrevistadas pela televisão, um faz de conta de primeiro mundo, uma "brincadeira legal" ou "o maior barato".

Também tivemos a inauguração de novas salas de cinema em shoppings. Aquelas salas modernas, com som digital, telas enormes, poltronas confortáveis e ar condicionado que fica ligado até o final do filme, sem falar da qualidade da pipoca. Parece que estamos vendo o filme lá em Hollywood, não é mesmo? Maravilha. Coisa de primeiro mundo. Que nós merecemos, é claro. Afinal, chega de cinemas "pulgueiros", onde sentamos em cadeiras quebradas, somos tratados com absoluta indiferença ou até grosseria e de onde saímos suando, porque o ar condicionado é desligado a meia hora do final da sessão. Cinemas dessa qualidade deveriam ser coisa proibida desde o século passado.

Outra novidade foi o complexo de viadutos que levou tanto tempo para ser construído. Mas lá estão todas aquelas alças de aço e concreto, permitindo a passagem rápida dos veículos uns por sobre os outros, diminuindo os congestionamentos (se é que isso é ainda possível na grande metrópole). A gente olha para tudo aquilo e fica com uma sensação de estar em outra cidade, outro país, outro hemisfério. E quando trafega pelos novos viadutos, rodando por aquele pavimento novo, liso, limpo, perfeito, tem essa sensação reforçada.

Mas, de repente, o viaduto acaba e estamos de volta ao nosso caminho usual, aquele mesmo velho conhecido. E percebemos isso facilmente, porque o veículo que nos transporta retorna ao seu habitual sacolejo, pula por sobre lombadas propositais ou depressões consentidas, mergulha em valetas incompreensíveis, afunda em crateras traiçoeiras, desvia dos monturos de lixo.

A grande metrópole nos oferece muitas novidades a cada dia, a cada semana, a cada ano. Algumas chegam para ficar, outras são efêmeras. Muitas servem para nos transportar, como num sonho, levando-nos a imaginar como seria bom se fossem para valer. Outras contrastam tanto com a nossa realidade que nos levam a questionar se irão durar muito tempo. Se estabelecerão um novo padrão de qualidade. Se não serão ilusórias. Como neve de sabão.

Corujando Dia e Noite 

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