Esplêndida Harmonia
(Arnaldo Pereira Ribeiro)


Era a terceira vez que o bendito sofá seria devolvido pois o serviço de reforma continuava errado. A dita reforma se tornara absolutamente indispensável graças aos inevitáveis cigarros da titia Alzira e aos lambuzantes chocolates do Alfredinho, o sobrinho único. Tais obras de destruição se alternaram e se acumularam durante mais de cinco anos diante de seu complacente e resignado testemunho. Ela se cansara das infrutíferas tentativas de limpeza a seco e, como se isto não bastasse, algumas molas começavam a soltar.


Depois de muito pesquisar e rodar pela cidade, chegara naquela loja
cuja primeira impressão fora até favorável. Fez muitas perguntas tentando buscar a confiança em um bom atendimento.
A única coisa que faltou fazer foi uma entrevista com o proprietário sobre o modelo de gestão adotado pela empresa ou, quem sabe, uma pesquisa de satisfação junto aos seus clientes.


Mas, agora, lá estava o encarregado da entrega olhando alternadamente para o seu auxiliar e para ela, indagando num misto de incredulidade e esconsolo: "Puxa vida, dona, a senhora vai mesmo devolver o sofá?" Ao ouvir a resposta afirmativa, justificou: "É que o sofá é muito grande e não cabe no elevador. Tivemos que subir a pé os dezoito andares e vamos ter que descer tudo de novo!"
"Lamento muito", respondeu, "mas vocês deviam ter feito o serviço conforme o combinado com o vendedor na loja."
"A senhora tem razão, mas a culpa não é minha não, dona. Eu sou um terceirizado que só faz o transporte dos móveis e não tenho nada a ver com o serviço de reforma. Cada vez que um cliente devolve uma mercadoria, eu tenho prejuízo, sem falar do trabalho dobrado." Penalizada com a situação do entregador mas muito mais preocupada com a sua própria, telefonou para a loja e não gostou do que ouviu: "Madame, a loja terceiriza os serviços de reforma, de maneira que eu terei que entrar em contato com o responsável pelo serviço no seu sofá para saber o que aconteceu." Na realidade, isto não seria necessário pois ela já sabia a resposta, a mesma patética explicação das outras duas vezes em que tinha devolvido o sofá para correção do serviço contratado há quatro meses.

Acontece que a loja que vendia sofás, terceirizava as reformas,
enquanto quem reformava também terceirizava o trabalho de estofamento, além de terceirizar também a entrega dos móveis
que era feita por uma empresa de transporte com caminhões,
é claro, terceirizados.
Num mesmo cenário conviviam terceirização,
quarteirização e outras modalidades menos conhecidas.
E tudo na mais perfeita confusão e na total falta de gerenciamento.

Com um certo sentimento de culpa, lembrou das recomendações do marido para que comprasse um sofá novo. Mas ela insistira na reforma porque aquele sofá tinha uma estrutura muito boa e o novo revestimento harmonizaria esplendidamente com as novas cortinas.

O entregador e seu auxiliar continuavam ali, de pé no meio da sala, como se estivessem aguardando a sentença do juiz num tribunal. Levou os dois até a cozinha e ofereceu-lhes água e um pouco de sorvete. Depois, desesperançada, pegou o telefone e ligou para o PROCON.

Arnaldo P. RibeiroŽ

janeiro de 2000


Pensamento

Voce é o responsavel pelo bem ou pelo mal que acontece em sua vida. (João Moura)

Voltar para Corujando Dia e Noite