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Arnaldo Ribeiro

(setembro/00)

Não nos digam onde nós não devemos ou não podemos ir. Quem são vocês para nos dizer isto?" A manifestação indignada foi de um dos cinco excursionistas deficientes físicos que conseguiram, sobre cadeiras de rodas e muletas, realizar uma proeza admirável: subir uma montanha em New Hampshire, nos Estados Unidos, para chegar até um chalé localizado a uma altitude de 1000 metros, percorrendo uma íngreme e acidentada subida de 7 quilômetros de extensão.

Deu no The New York Times, num mês de agosto. Ainda segundo o jornal nova-iorquino, a dificílima tarefa teve a natural e fortíssima ajuda de parentes, amigos e voluntários, todos comovidos com a coragem dos cinco heróis que precisaram empregar recursos e técnicas de alpinismo, além de boas doses de tecnologia e criatividade, e que consumiram12 horas para percorrer uma distância que uma pessoa fisicamente habilitada faria em 3 horas e meia. Depois, tiveram que enfrentar a volta, descendo pelo mesmo caminho. Embora saibamos que pra baixo todos os santos ajudam, acredito que, na descida em questão, dadas as dificuldades inerentes, alguns santos se abstiveram.

Mas, afinal, qual foi a motivação desse grupo de corajosos deficientes físicos para tal empreendimento?

Acontece que o tal chalé foi reconstruído para uso público e, pelas leis norte-americanas, teve que ser equipado com todas as facilidades de acesso e uso para deficientes físicos (isto é, com rampas, corrimãos e banheiros especialmente adaptados). Como os custos foram elevados, a chamada "turma do contra" invocou o absurdo da despesa adicional, alegando que nenhum deficiente físico iria conseguir chegar naquele local de tão difícil acesso. O preconceito e a arrogância dos ainda fisicamente incólumes lançava seu desafio. Sim, pois somente o preconceito e a arrogância podem explicar por que a incapacidade física de deficientes não provoca em algumas outras pessoas, fisicamente "perfeitas", uma reação positiva de crescimento humano e de aperfeiçoamento moral. Desafio lançado, desafio aceito.

 

Um outro integrante do grupo declarou: "Não foi fácil mas nós já imaginávamos que não seria fácil e acho que foi por isso mesmo que nós o fizemos."

Desafio aceito e assumido com a certeza do sucesso. E o sucesso foi de tal magnitude que os cinco pretendem repetir a façanha e acreditam que, na próxima vez, terão novos companheiros deficientes se incorporando ao grupo.

Pensei em fazer desse episódio um "gancho" para comparações e criticar o quase descaso com que o deficiente físico é tratado no Brasil, onde não há transporte coletivo adaptado, calçadas rebaixadas, rampas para acesso aos prédios, etc. Mas todo mundo já está cansado de saber disso e de outras coisas mais. Deficiente físico brasileiro já enfrenta um enorme desafio quando precisa ir ao banco. Deficiente físico brasileiro enfrenta dificuldades para estacionar, porque na sua vaga exclusiva quase sempre tem um espertinho fisicamente habilitado e impunemente estacionado. Basta que não haja um policial por perto. Deficiente físico brasileiro tem dificuldades até para ir ao banheiro. Mesmo em locais onde existem banheiros exclusivos, muitas vezes estes estão trancados.

Não, não vou falar sobre isso. Quero, sim, falar sobre como os deficientes físicos, quase sempre, são pessoas admiráveis. Pessoas que parecem possuir reservas extras de personalidade e coragem como compensação natural da perda de sua integridade física. Como os cinco de New Hampshire. Sua deficiência física não os tornou cidadãos diferentes dos demais, e foi a grande motivação para calar o preconceito e derrotar a arrogância. Acho que poucas pessoas teriam a coragem de fazer o que aqueles cinco fizeram. Não sei se eu teria. O amigo leitor aí, teria?

Para encerrar, algumas reflexões.

Em primeiro lugar, vencer desafios muitas vezes é uma questão de alta dose de motivação, mas a ajuda de parentes e amigos faz uma grande diferença. Daí a importância de se ter uma família por perto e a necessidade de se ter amigos, de fato, "do peito".

Em segundo lugar, e acho que o mais importante: não se renda ao preconceito e à arrogância, se você almeja mais qualidade em sua vida. Não deixe que os porta-vozes da discriminação e da mediocridade simplesmente digam onde você não deve ou não pode ir. Tenha você pernas ou não. Não deixe de cumprir suas obrigações de cidadão, e faça sempre valer seus direitos. Não, não é fácil. Não nesta sociedade hipócrita que construímos. Não neste bê-á-bá de democracia onde vivemos. Muitas vezes chega a ser um desafio. Mas é por isso mesmo que deve ser feito.

 

 

 

 

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