A agência é ampla e eu conto 25 caixas, mas apenas 5
cabeças. As outras 20 devem estar gozando férias, licenças ou, simplesmente,
desfilam no bloco do desemprego. Fico me perguntando o que poderia ser feito com
todos aqueles terminais eletrônicos ociosos.
No agradável convívio que pode proporcionar uma fila de
banco, onde a maioria das pessoas pratica o exercício idiota de caminhar 15
metros em 30 minutos, dedico-me a marcar o tempo entre cada chamada do painel
eletrônico, que serve para dizer ao felizardo do início da fila que a vez dele
(aleluia!) chegou! Constato, para meu desespero, que o painel apita a cada
minuto e conto umas 25 pessoas na minha frente. Apesar disso, eu estou a uns
dois metros do balcão dos caixas, graças a esta engenhosa idéia de direcionar
as filas segundo faixas amarelas que serpenteiam pelo chão, lembrando um
labirinto. Imagino que esta seja uma forma de esconder as filas dentro do
próprio banco, longe dos olhos do grande público.
Observando a equipe que trabalha nos caixas, coleto amostras
dignas de figurar no livro "Cliente nunca mais", do Sérgio Almeida
Lima.
No caixa 15, um rapaz negro e gordo chamava o próximo
cliente com o dobrar do dedo indicador (o clássico "vem cá, ó
meu"). Imaginei que ele não soubesse que havia um sistema de chamada
eletrônica (talvez fosse seu primeiro dia de trabalho ou ele tivesse alguma
deficiência auditiva, sei lá!).
Ao seu lado, no caixa 14, uma moça morena e de lábios
carnudos mascava um chiclete com muita competência. Se eu tentasse imitá-la
certamente teria algum deslocamento mandibular.
Lá pelas 11h15 a fila já contava com umas 50 pessoas. Foi
quando (ora viva!) surgiu uma cabeça nova no caixa 10. Sentou, olhou e, grande
decepção, passou a conversar com a moça simpática do caixa 11. Pela
animação da conversa, algo de muito importante tinha acontecido com ele.
Acredito que seu feriado deva ter sido excelente, pois ele bocejava com vontade,
mostrando, sem qualquer inibição, sua anatomia palatofaríngea à turma da
fila.
Às 11h40, finalmente, sou brindado com a campainha
eletrônica. Posiciono-me à frente do bocejador, a quem entrego as fichas de
compensação com os respectivos cheques. Sem falar nada, ele sai do caixa e
entrega um dos cheques para uma funcionária, que está conversando com o rapaz
do caixa exclusivo para idosos (sorte dos velhinhos que têm um caixa rápido e
só para eles). A moça desaparece com meu cheque e eu fico "à
deriva", enquanto o bocejador atende outra pessoa que ele mesmo chamou.
Pergunto qual é o problema do cheque e ele responde que seu valor é alto e,
portanto, é necessária a aprovação da gerência. Digo aos botões da minha
camisa que, na próxima vez, deverei trazer vários cheques de pequeno valor ou,
quem sabe, dinheiro vivo. Pergunto se há algo que eu possa fazer para agilizar
o processo, quem sabe apresentar algum documento. Ele simplesmente responde que
o processo é assim mesmo, e que eu preciso esperar.
Dez minutos depois, o meu cheque é considerado
"bom" e uma moça elegante vem trazê-lo até o bocejador. Pego o meu
recibo e me dirijo à saída consultando o relógio: são 11h53 e percebo, com
prazer, que a jornada bancária não me tirou a fome. Afinal, foram 68 minutos
de caminhada para percorrer os tais 15 metros.
Isto dá fome em qualquer um!
Na saída da agência, olho para um cartaz promovendo a caderneta de
poupança e sugerindo como poupar meu tempo. Constato, sem qualquer bom humor, o
considerável desperdício.
Arnaldo P. Ribeiro
junho de 1997
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