Obrigada pela visita!

São Paulo, 10h45 do dia 02 de maio, uma sexta-feira de pouco movimento na cidade em razão do feriado do dia anterior. O centro da cidade, mesmo assim, fervilha. Metade das pessoas tenta vender alguma coisa à outra metade. Eu, infelizmente, estou de volta ao banco, tentando fazer dois pagamentos inadiáveis na agência bancária porque, afinal, os juros são altos e há que evitá-los.

A agência é ampla e eu conto 25 caixas, mas apenas 5 cabeças. As outras 20 devem estar gozando férias, licenças ou, simplesmente, desfilam no bloco do desemprego. Fico me perguntando o que poderia ser feito com todos aqueles terminais eletrônicos ociosos.

No agradável convívio que pode proporcionar uma fila de banco, onde a maioria das pessoas pratica o exercício idiota de caminhar 15 metros em 30 minutos, dedico-me a marcar o tempo entre cada chamada do painel eletrônico, que serve para dizer ao felizardo do início da fila que a vez dele (aleluia!) chegou! Constato, para meu desespero, que o painel apita a cada minuto e conto umas 25 pessoas na minha frente. Apesar disso, eu estou a uns dois metros do balcão dos caixas, graças a esta engenhosa idéia de direcionar as filas segundo faixas amarelas que serpenteiam pelo chão, lembrando um labirinto. Imagino que esta seja uma forma de esconder as filas dentro do próprio banco, longe dos olhos do grande público.

Observando a equipe que trabalha nos caixas, coleto amostras dignas de figurar no livro "Cliente nunca mais", do Sérgio Almeida Lima.

No caixa 15, um rapaz negro e gordo chamava o próximo cliente com o dobrar do dedo indicador (o clássico "vem cá, ó meu"). Imaginei que ele não soubesse que havia um sistema de chamada eletrônica (talvez fosse seu primeiro dia de trabalho ou ele tivesse alguma deficiência auditiva, sei lá!).

Ao seu lado, no caixa 14, uma moça morena e de lábios carnudos mascava um chiclete com muita competência. Se eu tentasse imitá-la certamente teria algum deslocamento mandibular.

Lá pelas 11h15 a fila já contava com umas 50 pessoas. Foi quando (ora viva!) surgiu uma cabeça nova no caixa 10. Sentou, olhou e, grande decepção, passou a conversar com a moça simpática do caixa 11. Pela animação da conversa, algo de muito importante tinha acontecido com ele. Acredito que seu feriado deva ter sido excelente, pois ele bocejava com vontade, mostrando, sem qualquer inibição, sua anatomia palatofaríngea à turma da fila.

Às 11h40, finalmente, sou brindado com a campainha eletrônica. Posiciono-me à frente do bocejador, a quem entrego as fichas de compensação com os respectivos cheques. Sem falar nada, ele sai do caixa e entrega um dos cheques para uma funcionária, que está conversando com o rapaz do caixa exclusivo para idosos (sorte dos velhinhos que têm um caixa rápido e só para eles). A moça desaparece com meu cheque e eu fico "à deriva", enquanto o bocejador atende outra pessoa que ele mesmo chamou. Pergunto qual é o problema do cheque e ele responde que seu valor é alto e, portanto, é necessária a aprovação da gerência. Digo aos botões da minha camisa que, na próxima vez, deverei trazer vários cheques de pequeno valor ou, quem sabe, dinheiro vivo. Pergunto se há algo que eu possa fazer para agilizar o processo, quem sabe apresentar algum documento. Ele simplesmente responde que o processo é assim mesmo, e que eu preciso esperar.

Dez minutos depois, o meu cheque é considerado "bom" e uma moça elegante vem trazê-lo até o bocejador. Pego o meu recibo e me dirijo à saída consultando o relógio: são 11h53 e percebo, com prazer, que a jornada bancária não me tirou a fome. Afinal, foram 68 minutos de caminhada para percorrer os tais 15 metros. 

Isto dá fome em qualquer um!

Na saída da agência, olho para um cartaz promovendo a caderneta de poupança e sugerindo como poupar meu tempo. Constato, sem qualquer bom humor, o considerável desperdício.

 

Arnaldo P. Ribeiro

junho de 1997

Veja mais crônicas

 

Design by Kakauzinha®