Vez
ou outra, diz tchau para sua Porto
Alegre trilegal e se manda para a
paulicéia desvairada a fim de uma
jornada gastronômica. E fica por aqui
durante uns quinze dias visitando os
amigos e dividindo as noites entre
cervejarias e restaurantes. Apesar de
celibatário convicto, adora a companhia
dos velhos amigos casados,
independentemente da condição de
estabilidade do casamento. Segundo ele,
casais estáveis são excelente
companhia para um jantar em alto estilo
após uma peça de teatro. Agora, se o
programa for mais inspirado em Baco, diz
que é melhor sair com um casal em
crise. De preferência com meio casal em
crise, seja qual for a metade. Afirma
que dor de cotovelo, ciúmes e outros
que tais são excelentes acompanhamentos
para um bom destilado.
Pois
numa noite do último inverno carregou
um casal amigo e estável para jantar
num desses restaurantes de cozinha
italiana que ganham sempre vários
cifrões na avaliação das revistas
semanais. A idéia, acalentada há
várias semanas, era comer um tortelloni
bem quente e suculento, regado a chianti
italiano legítimo o que, segundo ele,
era como um sonho que só se tornaria
realidade naquele tal ristorante caro
como o diabo.
Tudo
estava maravilhoso até acontecer o
acidente. O delicioso molho do sonho se
transformou num traiçoeiro e quente
gotejar sobre a sua perna graças a um
garçom pouco habilidoso. Pedidos de
desculpas, lamentos, toalha, água
quente, talco, constrangimento e a
decepção estampada na sua fisionomia.
O maître, solícito, procurou restaurar
o clima de normalidade e comandou a
reposição da toalha, talheres e demais
acessórios atingidos no infortunado
evento. Ainda com uma expressão de
frustração mal disfarçada, voltou a
sentar-se à mesa, disposto a aproveitar
o restante do jantar e a companhia do
casal de amigos. Foi então que percebeu
que o tortelloni esfriara, o que foi
prontamente resolvido pelo garçom e
pela eficiência das microondas. Mas
prato requentado é prato requentado,
seja em restaurante caro ou no boteco da
esquina. Chamado o maître, um novo
tortelloni foi providenciado e um
recomeço sugerido. É aquele momento
crítico em que se tenta fazer de conta
que nada aconteceu, que foi tudo um
pesadelo que passou e que, daí pra
frente, tudo vai ficar beleza pura.
Entretanto,
a calça continuava branca de talco e o
encanto inicial estava desfeito. Com
certeza o tortelloni já lhe parecia
igual a qualquer prato de macarrão e
até mesmo o chianti não o entusiasmava
tanto.
Mas
o papo estava muito agradável e a
simpatia dos amigos ajudou a fazer com
que o inconveniente evento fosse quase
esquecido. Quase. Foi o elegante
porta-nota de couro apresentando a conta
que trouxe de volta o desencanto e a
decepção. Todos os itens servidos ali
estavam, implacáveis, cobrados como se
aquele tivesse sido um jantar normal,
com serviço irrepreensível, sem
falhas, sem incidentes, sem qualquer
problema. Dos aperitivos ao licor,
passando pelas entradas, pelo vinho,
pelas sobremesas, tudo fora incluído na
conta. O estabelecimento se limitara ao
atendimento de emergência e ao pedido
de desculpas. Nenhuma preocupação em
compensar seus clientes pelo inconveniente
sofrido, pela expectativa frustrada,
pelo prazer não desfrutado. Nenhum
gesto simpático como servir champanha,
não cobrar a sobremesa ou oferecer uma
rodada extra de licor. Como se aquelas
pessoas ali tivessem chegado
simplesmente para comer e não para
gozar os prazeres da boa mesa.
Paga
a conta, dirigiu-se ao gerente e relatou
o ocorrido, estranhando que o
estabelecimento não tivesse oferecido
alguma compensação à mesa acidentada.
Como resposta ouviu que poderia mandar
suas calças para a lavanderia que o
restaurante pagaria pela lavagem. Pensou
em falar alguma coisa sobre como
encantar e conservar clientes, mas
desistiu. Afinal, numa cidade tão
grande como São Paulo, deveriam existir
muitos outros lugares onde ele pudesse
comer um tortelloni "louco de
especial" com seus amigos e ser
tratado como um cliente indispensável.
Despediu-se do gerente com um
"adeus, tchê, deu prá ti".
Saiu para a noite fria e garoenta certo
de que aquele sujeito dificilmente iria
entender o espírito da coisa.
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