Obrigada pela visita!

Arnaldo Ribeiro

Agosto / 2000

 

Vez ou outra, diz tchau para sua Porto Alegre trilegal e se manda para a paulicéia desvairada a fim de uma jornada gastronômica. E fica por aqui durante uns quinze dias visitando os amigos e dividindo as noites entre cervejarias e restaurantes. Apesar de celibatário convicto, adora a companhia dos velhos amigos casados, independentemente da condição de estabilidade do casamento. Segundo ele, casais estáveis são excelente companhia para um jantar em alto estilo após uma peça de teatro. Agora, se o programa for mais inspirado em Baco, diz que é melhor sair com um casal em crise. De preferência com meio casal em crise, seja qual for a metade. Afirma que dor de cotovelo, ciúmes e outros que tais são excelentes acompanhamentos para um bom destilado.

Pois numa noite do último inverno carregou um casal amigo e estável para jantar num desses restaurantes de cozinha italiana que ganham sempre vários cifrões na avaliação das revistas semanais. A idéia, acalentada há várias semanas, era comer um tortelloni bem quente e suculento, regado a chianti italiano legítimo o que, segundo ele, era como um sonho que só se tornaria realidade naquele tal ristorante caro como o diabo.

Tudo estava maravilhoso até acontecer o acidente. O delicioso molho do sonho se transformou num traiçoeiro e quente gotejar sobre a sua perna graças a um garçom pouco habilidoso. Pedidos de desculpas, lamentos, toalha, água quente, talco, constrangimento e a decepção estampada na sua fisionomia. O maître, solícito, procurou restaurar o clima de normalidade e comandou a reposição da toalha, talheres e demais acessórios atingidos no infortunado evento. Ainda com uma expressão de frustração mal disfarçada, voltou a sentar-se à mesa, disposto a aproveitar o restante do jantar e a companhia do casal de amigos. Foi então que percebeu que o tortelloni esfriara, o que foi prontamente resolvido pelo garçom e pela eficiência das microondas. Mas prato requentado é prato requentado, seja em restaurante caro ou no boteco da esquina. Chamado o maître, um novo tortelloni foi providenciado e um recomeço sugerido. É aquele momento crítico em que se tenta fazer de conta que nada aconteceu, que foi tudo um pesadelo que passou e que, daí pra frente, tudo vai ficar beleza pura.

Entretanto, a calça continuava branca de talco e o encanto inicial estava desfeito. Com certeza o tortelloni já lhe parecia igual a qualquer prato de macarrão e até mesmo o chianti não o entusiasmava tanto.

Mas o papo estava muito agradável e a simpatia dos amigos ajudou a fazer com que o inconveniente evento fosse quase esquecido. Quase. Foi o elegante porta-nota de couro apresentando a conta que trouxe de volta o desencanto e a decepção. Todos os itens servidos ali estavam, implacáveis, cobrados como se aquele tivesse sido um jantar normal, com serviço irrepreensível, sem falhas, sem incidentes, sem qualquer problema. Dos aperitivos ao licor, passando pelas entradas, pelo vinho, pelas sobremesas, tudo fora incluído na conta. O estabelecimento se limitara ao atendimento de emergência e ao pedido de desculpas. Nenhuma preocupação em compensar seus clientes pelo inconveniente sofrido, pela expectativa frustrada, pelo prazer não desfrutado. Nenhum gesto simpático como servir champanha, não cobrar a sobremesa ou oferecer uma rodada extra de licor. Como se aquelas pessoas ali tivessem chegado simplesmente para comer e não para gozar os prazeres da boa mesa.

Paga a conta, dirigiu-se ao gerente e relatou o ocorrido, estranhando que o estabelecimento não tivesse oferecido alguma compensação à mesa acidentada. Como resposta ouviu que poderia mandar suas calças para a lavanderia que o restaurante pagaria pela lavagem. Pensou em falar alguma coisa sobre como encantar e conservar clientes, mas desistiu. Afinal, numa cidade tão grande como São Paulo, deveriam existir muitos outros lugares onde ele pudesse comer um tortelloni "louco de especial" com seus amigos e ser tratado como um cliente indispensável. Despediu-se do gerente com um "adeus, tchê, deu prá ti". Saiu para a noite fria e garoenta certo de que aquele sujeito dificilmente iria entender o espírito da coisa.

 

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