Obrigada pela visita!

Arnaldo Ribeiro

Janeiro / 2000

Elas se aproximam, em fila, com os folhetos nas mãos. No rosto, um misto da simpatia treinada e do enfado resultante da fala repetitiva de todos os dias naquele mesmo cruzamento. Procuro ser simpático e abro a janela para receber não apenas um, mas uma meia dúzia de folhetos coloridos, nos quais reconheço algumas caras manjadas da televisão que, da noite para o dia, arrumaram bicos altamente remunerados como promotores de vendas de empreendimentos imobiliários. As garotas até que são bonitinhas, todas preocupadas com o capricho do visual, mesmo debaixo do sol inclemente. Fazem um esforço notável tentando agregar qualidade de desempenho à propalada qualidade dos empreendimentos que, de acordo com os folhetos, serão fundamentais para a qualidade de vida da minha família. Algumas delas, quem sabe, talvez sonhem entregar seu folhetinho a um descobridor de talentos, a um fotógrafo de modelos, ou mesmo a uma das tais caras manjadas. No mínimo, voltariam para casa com um autógrafo. Nada de juros, nem parcelas intermediárias, nem avalistas, nem comprovação de renda. Uma barbada para pagar, pois não? Ah, e sou convidado por algumas para passar no local da obra, onde poderei ganhar um valioso brinde e receber, de um corretor especializado, uma claríssima demonstração de como serei um sujeito afortunado ao adquirir uma das unidades de um condomínio de altíssimo padrão, em região de valorização rápida e garantida, desde que eu não preste muita atenção ao asterisco (ou asterístico, como muita gente mal informada prefere, palavra que talvez tenha sido inventada para designar um asterisco artístico).

Atrás de mim, o motorista do caminhão de entregas pede todos os folhetos só para ele. Não irá comprar nada, com certeza. Está apenas sendo solidário e procurando melhorar a "produtividade" das moças. Quem sabe não irá até contribuir para reduzir o lixo nas vias públicas.

Percebo, em seguida, que metade daqueles folhetos já são meus conhecidos de outras paradas em outros cruzamentos. Percebo, também, que chegou mais alguém junto à minha janela. Não vem oferecer imóveis nem caprichou no visual. Veio me mostrar sua miséria, seu abandono, sua exclusão. Não traz folhetos, traz uma criança no colo e não parece preocupada com o futuro nem interessada em autógrafos: apenas pede uns trocados. Não parecendo muito satisfeita com o que lhe dei, mal balbucia um agradecimento e se dirige a outro carro, permitindo-me ver o vendedor de flores, que estava esperando a sua vez para oferecer seus ramalhetes, como quem oferece uma trégua no caos. Como eu não demonstro interesse em comprar, ele segue em frente e eu me assusto com o garoto que começou a esfregar seu rodinho ensaboado no meu pára-brisas, sem sequer pedir licença. Acho que ele está sendo irônico quando diz, sorrindo: "Só prá pudê enxergá o mundo mais bonito, dotô!"

 

 

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