Elas se aproximam, em fila, com os folhetos nas mãos. No
rosto, um misto da simpatia treinada e do enfado resultante da fala repetitiva
de todos os dias naquele mesmo cruzamento. Procuro ser simpático e abro a
janela para receber não apenas um, mas uma meia dúzia de folhetos coloridos,
nos quais reconheço algumas caras manjadas da televisão que, da noite para o
dia, arrumaram bicos altamente remunerados como promotores de vendas de
empreendimentos imobiliários. As garotas até que são bonitinhas, todas
preocupadas com o capricho do visual, mesmo debaixo do sol inclemente. Fazem um
esforço notável tentando agregar qualidade de desempenho à propalada
qualidade dos empreendimentos que, de acordo com os folhetos, serão
fundamentais para a qualidade de vida da minha família. Algumas delas, quem
sabe, talvez sonhem entregar seu folhetinho a um descobridor de talentos, a um
fotógrafo de modelos, ou mesmo a uma das tais caras manjadas. No mínimo,
voltariam para casa com um autógrafo. Nada de juros, nem parcelas
intermediárias, nem avalistas, nem comprovação de renda. Uma barbada para
pagar, pois não? Ah, e sou convidado por algumas para passar no local da obra,
onde poderei ganhar um valioso brinde e receber, de um corretor especializado,
uma claríssima demonstração de como serei um sujeito afortunado ao adquirir
uma das unidades de um condomínio de altíssimo padrão, em região de
valorização rápida e garantida, desde que eu não preste muita atenção ao
asterisco (ou asterístico, como muita gente mal informada prefere, palavra que
talvez tenha sido inventada para designar um asterisco artístico).

Atrás de mim, o motorista do caminhão de entregas pede
todos os folhetos só para ele. Não irá comprar nada, com certeza. Está
apenas sendo solidário e procurando melhorar a "produtividade" das
moças. Quem sabe não irá até contribuir para reduzir o lixo nas vias
públicas.

Percebo, em seguida, que metade daqueles folhetos já são
meus conhecidos de outras paradas em outros cruzamentos. Percebo, também, que
chegou mais alguém junto à minha janela. Não vem oferecer imóveis nem
caprichou no visual. Veio me mostrar sua miséria, seu abandono, sua exclusão.
Não traz folhetos, traz uma criança no colo e não parece preocupada com o
futuro nem interessada em autógrafos: apenas pede uns trocados. Não parecendo
muito satisfeita com o que lhe dei, mal balbucia um agradecimento e se dirige a
outro carro, permitindo-me ver o vendedor de flores, que estava esperando a sua
vez para oferecer seus ramalhetes, como quem oferece uma trégua no caos. Como
eu não demonstro interesse em comprar, ele segue em frente e eu me assusto com
o garoto que começou a esfregar seu rodinho ensaboado no meu pára-brisas, sem
sequer pedir licença. Acho que ele está sendo irônico quando diz, sorrindo:
"Só prá pudê enxergá o mundo mais bonito, dotô!"

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