De
corpo presente
(Arnaldo
P. Ribeiro)
Dizia
o simpático e saudoso Dr. Hélio Beltrão, brasileiro
notável e que foi Ministro da Desburocratização
há quase 20 anos, que a desconfiança nos usuários,
nos servidores e nos empresários (ou seja, nos cidadãos
em geral) é a grande responsável pela avalanche de exigências,
formalidades e outros tipos de comprovação que só
servem para dificultar a vida das pessoas honestas sem intimidar as
desonestas.
Os serviços públicos sempre levaram o rótulo
de excessivamente burocráticos e sempre que se fala sobre desburocratização
a lembrança se encaminha, automaticamente, às repartições
públicas.
Com a privatização a todo galope, começa a parecer
que a cultura da burocracia além da conta foi leiloada juntamente
com os diversos ativos das estatais e passou a incorporar os serviços
prestados pelas empresas concessionárias privadas. Quando se
esperava que problemas relacionados com serviços de telefonia
celular, por exemplo, passariam a ser resolvidos pelo telefone, eis
que somos obrigados a comparecer à loja "mais próxima"
da concessionária, enfrentar as inevitáveis dificuldades
do trânsito (sempre presentes) e batalhar por vagas para estacionamento
(sempre ausentes), dar de cara com nossa velha conhecida fila, senhas
numeradas, etc. Simplesmente porque o serviço telefônico
é um serviço que não serve para resolver problemas
relativos ao serviço telefônico.
Procure entender, meu caro leitor: devem existir problemas no serviço
telefônico que impeçam a concessionária de serviços
telefônicos de atender seus clientes que precisam resolver problemas
com o serviço telefônico. Temos que estar lá,
de corpo presente, como defuntos em missa fúnebre, vítimas
da burocracia incompreensível que, se não nos mata,
nos cansa, nos irrita e nos custa caro.
Comparações jocosas podem não ser válidas
na opinião dos dirigentes de qualquer destas empresas telefônicas
que se disponha a "vestir a carapuça". Servem, entretanto,
como reflexão quando colocamos em funcionamento o raciocínio
lógico e lembramos das boas práticas gerenciais relacionadas
com a satisfação do cliente e com o aprimoramento dos
serviços e dos processos.
Sugerimos,
então, uma comparação com um hipotético
fabricante de elevadores e escadas rolantes que, na sua sede central,
instalou um escritório para atendimento aos clientes. Tudo
muito luxuoso e bonito com uma característica especial que
chamava a atenção de quem ali comparecia: o belo escritório
ficava na terceira sobreloja e (pasmem senhoras e senhores clientes!)
não haviam elevadores nem escadas rolantes.
Procurado para dar explicações sobre o fato, o dirigente
da empresa declarou que se tratava de uma estratégia de marketing
ou seja, após subir uns sessenta degraus, qualquer pessoa valorizaria
um elevador ou uma escada rolante.
Tem
também aquela do fabricante de café que só servia
chá de boldo aos clientes que o visitavam. É o mesmo
raciocínio, ou melhor, a mesma estratégia. Aqueles que
já tomaram chá de boldo vão entender.
Casa de ferreiro, espeto de pau. Só assim se valoriza o espeto
de ferro. Imaginem um provedor Internet que não aceite e-mails
dos seus clientes mas apenas telegramas. Que será de nós
no dia em que os Correios não receberem nossas cartas? O que
é que há, pessoal?
Arnaldo
P. Ribeiro®
novembro de 2000
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