Conexão Chinesa
Arnaldo Ribeiro

junho - 2000

- E aí, tudo limpo? Como foi o fim de semana?
- Passei sábado e domingo pendurada. Minhas irmãs foram passear de carro mas não puderam me levar.
- Mas vejo que deu pra descansar e chegar aqui em plena madrugada, como sempre.
- Sabe como é? Eu estou na mão do dono da mercadoria. Ele manda, eu obedeço.
- E a mercadoria, tá aí com você?
- Tá no outro lado. Estou aqui para facilitar a entrada.
- Me pergunto por que você ainda está aí fora quando tudo depende de você aqui dentro.
- Isto é questão de tempo. Como disse, eu estou na mão do dono da mercadoria. Não se preocupe que, assim que ele decidir, eu estarei aí dentro.
- Tá bom, mas quando isso acontecer, o que você fará para que a mercadoria passe por aqui?
- Eu me viro para abrir passagem.
- Ok, se você prometer se virar direitinho eu te dou cobertura.
- Combinado, você acha que vai ser necessário dar uma lubrificada?
- Acho que não. O sistema aqui tá funcionando direitinho. Não tem nenhum grilo.
- Ainda estou um pouco cismada. Lembra aquela vez em que você bloqueou tudo e eu não conseguia sair?
- Já te expliquei que foi o maldito alarma de segurança que entrou em pane. Fui obrigado a bloquear a tua saída. Esqueça aquilo de uma vez, tá? Te juro que desta vez você vai entrar e sair numa boa e que a mercadoria passará sem problemas.
- Então posso ficar tranqüila que os chineses vão passar?
- Ora, é claro! Se você garante que vai se virar direitinho e eu garanto a cobertura, e podemos confiar no sistema, é abertura total, minha cara. Entram os chineses com a mercadoria e, se o sistema continuar do mesmo jeito, funcionando certinho, eles vão entrar sempre que quiserem. Garantido.

Se o amigo leitor vinha lendo este texto com atenção e ainda lembra do seu título lá de cima, deve ter percebido, com absoluta clareza, que se trata de um diálogo fantasioso, desses de desenho animado, acontecido entre uma chave e a respectiva fechadura da porta do restaurante Conexão Chinesa (também imaginário) localizado algures na grande cidade. O dono do restaurante (um chinês, naturalmente) chegava de madrugada do mercado, trazendo os insumos necessários para sua cozinha, auxiliado pelos filhos (o que também é natural).

Se o caro amigo imaginou tratar-se de um diálogo de outra natureza, não me queira mal. Peço desculpas pela brincadeira. Agora, se essa "outra natureza" foi "aquela" (e foi, não foi?), aí o amigo vai me permitir uma advertência: você já está contaminado pelos noticiosos da TV, com aquelas interessantíssimas entrevistas com delinqüentes, feitas ao vivo nas delegacias e repletas de informações importantes tais como o "curriculum vitae" do fora-da-lei, o arsenal capturado junto com o dito cujo, a lista de nomes "alternativos" usados pelo "elemento" no exercício da "profissão", seus ilustres familiares, etc, etc. Muito provavelmente, você também tem assistido a um excesso de emocionantes sessões de comissões de inquérito, onde diálogos como o da brincadeira acima também são rotineiros.

Feita a advertência, não poderei me furtar ao conselho: dê um tempo, tire umas férias e leve com você uns dois ou três bons romances. Saia da real e caia na ficção. Você merece. E, quanto a mim, vou ver se também não estaria precisando mudar a qualidade da minha programação de TV. Ao finalizar este texto restou-me a sensação desagradável de ter sido contaminado pelas infelizes "pegadinhas" que tanto divertem e educam as famílias brasileiras nas tardes de domingo. Olha lá a câmera!