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Arnaldo P.
Ribeiro® -
Livro Crônicas do
Entardecer
Via de regra, as campanhas publicitárias radiofônicas, no meu
entender, não se destacam pela qualidade. Parece que a turma
capricha mais nos comerciais feitos para a “telinha”. Daí minha
surpresa ao tomar conhecimento de recente campanha de uma
concessionária de energia elétrica, responsável pela criação da
simpática imagem do “pombo paulista” em um comercial veiculado pelo
rádio.
Confesso que esse pombo me diverte pois é um personagem com sotaque
característico, que fica andando de um lado para outro na praça da
matriz, “mãos” às costas, ou que está lá pousado na fiação elétrica,
observando e denunciando imprudências ou atitudes pouco
recomendáveis da população e que representam consumo excessivo de
energia ou riscos de acidentes e de danos às instalações (caso das
pipas empinadas junto aos fios, de instalações subdimensionadas, de
diversos aparelhos ligados na mesma tomada etc).
Campanha inteligente. Daquelas que cativam e chamam a atenção do
ouvinte. Sem apelações, malícia ou duplo sentido. Trabalho de gente
competente, com qualidade e muita ética. Tão bom que deveria ser
imitado para outras campanhas. Com a devida permissão do criador, é
claro. O que não seria difícil de se obter se a causa fosse boa e
patriótica.
Por que patriótica? Porque eu estava apoquentado com a leitura do
jornal, atualizando-me com as costumeiras e pouco recomendáveis
atitudes que acontecem no dia-a-dia desta nossa terra de 500 anos (e
que são verdadeiras práticas de lesa-pátria, pra dizer o mínimo),
quando me ocorreu que uma boa causa seria uma campanha nacional pela
recuperação dos valores que fazem das pessoas bons cidadãos, que
melhoram a qualidade de vida da sociedade, que transformam um país
numa nação.
Taí: poderíamos criar o pombo brasileiro! Afinal, em que lugar do
Brasil não existem pombos? É só ter uma praça e uma igreja, não é
verdade? Assim como o paulista, o pombo brasileiro também seria
capaz de andar de um lado para o outro, “mãos às costas”,
denunciando as coisas naquele mesmo tom educado do pombo paulista.
O nosso pombo brasileiro contaria coisas interessantes, muito
conhecidas mas também pouco consideradas ou valorizadas, seja pelos
sistemas instituídos seja por nós mesmos, muitas vezes alienados
cidadãos (ou candidatos a tal). O nosso pombo brasileiro estaria
aparecendo na mídia com a finalidade de despertar a massa para
direitos e deveres, para educar os mal educados, para lembrar os
esquecidos, para recuperar os transviados, para denunciar os
corrompidos.
Acho até que um bom momento para o pombo brasileiro aparecer no
rádio seria durante qualquer campanha eleitoral. Seria assim uma
forma de enfatizar os valores morais que nos são mais caros (ou que
deveriam ser), lembrar alguns dos problemas enfrentados pela
população e forçar uma auto-censura (com todo o respeito!) aos
candidatos dispostos a repetir o bestialógico e a ficção de todas as
campanhas eleitorais.
O pombo também poderia aparecer na televisão, dando entrevista em
programas de alto índice de audiência, como aqueles das tardes de
domingo, tão educativos. Ou nos intervalos do futebol, partilhando
das iluminadas mesas-redondas de comentaristas que ainda discutem o
que teria acontecido com o Ronaldinho na França.
As declarações do pombo seriam sempre destinadas a lembrar à turma
nativa (ou mesmo importada) de que certos atos, situações, posturas
ou comportamentos não são lá muito recomendados, convenientes ou
agradáveis. Vejamos alguns exemplos, de lembrança imediata:
“... trata-se de um bom sujeito, sabe? Só que constrói prédios que
desabam fácil, fácil!”
“... não é que eu queira mal à empresa, mas ela não recolheu o INSS
dos empregados.”
“... os garotos são gente fina, só que na falta do que fazer ficam
pichando as paredes pela cidade.”
“... é um comerciante honesto, mas só fornece nota fiscal se o
cliente pedir.”
“... foi eleito deputado prometendo emprego para todo o bairro: já
arrumou para a família dele.”
“... o túnel ficou muito bonito, todo iluminado. Só requer
escafandro quando chove.”
“... aí baixou a fiscalização da prefeitura, uns dez fiscais. Todos
muito ricos, dirigindo seus carrões importados.”
“... dirigia religiosamente de acordo com a velocidade permitida. E
era ultrapassado por todos os motociclistas da cidade.”
“... a prefeitura não privilegia o automóvel. Prova disso são os
quebra-molas, as valetas e os milhões de buracos espalhados por
todas as ruas.”
“... é claro que meu candidato foi eleito. Como é mesmo o nome
dele?”
“...o kit bobagem não é mais necessário. A velhinha de Taubaté disse
que o Denatran vai recomprar todos eles.”
“... o prefeito disse que nós também somos culpados. Mas nós nem
votamos nele!”
“... a carga tributária é muito alta, gente! O coitado só podia ser
clandestino!”
“... trata-se de um terrorista em potencial. Sempre que viaja de
avião se esconde no banheiro para fumar.”
“... jamais bebeu uísque falsificado. Era especialista na arte:
fabricava remédios.”
“... é que a população não entende, sabe? Os vereadores são do
legislativo e as administrações regionais são do executivo. Tá
claro? Ah, os vereadores é que mandam nas regionais? Que é isso,
gente, vocês tão querendo confundir o pombo?”
Os exemplos acima, evidentemente, não pretendem esgotar o assunto.
Foram aqui colocados apenas como uma espécie de aquecimento para
você, leitor, que deve estar aí, posto em sossego, lendo esta
crônica. Tenho certeza que, neste exato momento, você está lembrando
de mais uma série de outros motes para a campanha do nosso pombo
brasileiro. E, como você, certamente um grande número de leitores
deverá ter outras sugestões que, igualmente, poderiam ser
aproveitadas.
Foi o que passou pela minha cabeça ao ouvir a excelente campanha do
pombo paulista. Sujeitinho boa praça esse pombo. Pena que chegou um
pouco tarde e perdeu o papel de herói nacional para o papagaio.
Acontece que brasileiro é vidrado em papagaio. Papagaio dá o pé,
fala palavrão, imita cantor sertanejo e é um dos maiores
protagonistas de anedotas do País. Pombo não tem o mesmo charme.
Além de não ter as habilidades do papagaio, tem péssimos hábitos dos
quais, o pior, é poluir as estátuas de nossos vultos históricos.
Decididamente, não é um bichinho muito simpático para a maioria das
pessoas. Será que pombo é símbolo de algum time de futebol?
Mesmo assim, acho que teria sido melhor inventar esse pombo
brasileiro há mais tempo. Quem sabe as coisas cá na terra de 500
anos não seriam levadas mais a sério? Em lugar das piadas do
papagaio, as lições de vida do pombo. Educação, comportamento
civilizado, respeito e consideração, direitos reconhecidos, deveres
cumpridos, natureza preservada, limpeza, ordem, enfim, uma vida em
sociedade mais tranqüila e saudável, com mais qualidade.
A esta altura do campeonato, restaria saber onde arranjaríamos um
patrocinador para o nosso pombo brasileiro. Acho que é nesse ponto
que as coisas poderão se tornar inviáveis. Você apontaria algum
interessado?
Arnaldo Pereira Ribeiro®
agosto/99
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