Arnaldo P. Ribeiro® - Livro Crônicas do Entardecer



Os salgados eram deliciosos e faziam o acompanhamento perfeito do choppinho do fim de tarde (evento conhecido no Brasil como “happy hour”). Na hipótese em que a fome fosse muita, os sanduíches eram “hors concours” (termo utilizado no Brasil e que significa alguma coisa como incomparável ou sem rival). Para quem fosse às compras no “shopping” (no Brasil, trata-se de um centro de compras e lazer constituído de muitas lojas, vários restaurantes e alguns cinemas), o estabelecimento provocava sempre aquela parada obrigatória embora muito calórica.

Algum tempo depois, vieram as pizzas em esquema de “coma o quanto puder”. Gostosas e baratas, embora igualmente calóricas. Casa sempre cheia, é claro. Salvo algum esquecimento, ainda não conheci um brasileiro que não goste de pizza. E estou para conhecer um terráqueo que não goste de comer bem e pagar pouco. A propósito, pizza é uma invenção italiana aperfeiçoada na cidade de São Paulo. Alguém aí discorda?

Rodízio de pizzas, convenhamos, não é coisa nova. A novidade do estabelecimento em pauta era a qualidade do local, do produto servido e do serviço prestado. Assim, a personagem desta pequena história passou a ser uma freguesa freqüente o que a obrigou a mais horas de bicicleta ergométrica e esteira lá na academia de ginástica.

Até chegar a fatura do cartão de crédito. Não, nenhum problema com a academia. Acontece que, foi ao conferir suas notas fiscais com a fatura do cartão, que nossa personagem percebeu os 10% de diferença no preço das pizzas degustadas naquele mês de compras de Natal.

A explicação do gerente do restaurante, ao atender o telefone, foi singela:
“Sabe, minha senhora, o valor do serviço a gente não coloca na nota fiscal mas, com certeza, ele foi colocado no comprovante do cartão. A senhora, provavelmente, não prestou atenção quando assinou seu comprovante! Mas isso é muito comum, não se preocupe! Muita gente assina sem verificar essas coisas e depois telefona para reclamar.”

Engolindo em seco e contendo uma resposta desaforada, ela se perguntou se deveria acreditar na explicação ou se os 10% não seriam um adicional pelo pagamento com cartão. Prometeu a si mesma duas coisas importantes: jamais voltar a assinar aqueles minúsculos e mal impressos papeizinhos sem antes colocar os óculos e jamais retornar àquele restaurante. Prestes a desligar, ouviu novamente a voz do gerente na outra ponta da linha:
“Mas não há problema, madame, se a senhora precisar de uma nota fiscal de maior valor para reembolso de despesas é só falar que a gente providencia.”

Desligou aborrecida e arrependida. Podia ter passado sem aquilo. Num único telefonema, feito para reclamar seus direitos de consumidora, ela havia sido qualificada como alienada e desonesta. Mas também entendeu porque certas coisas são como são no país do futebol.

Passeando pelo mesmo “shopping”, no último sábado, notou que o referido restaurante continua cheio de clientes, todos consumindo muitas calorias, usando seus coloridos cartões de crédito e assinando aqueles minúsculos papeizinhos de leitura tão difícil.

 

Arnaldo Pereira Ribeiro®
julho/99

 

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