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Arnaldo P.
Ribeiro®
- Livro Crônicas do
Entardecer
“Adeus, seu Carlos. Foi muito bom trabalhar aqui todo esse tempo.”
Os dois homens trocaram um longo aperto de mão. Olhos marejados,
Jorge apertava com a outra mão o envelope contendo os papéis de sua
demissão, entre os quais figurava um comprovante de depósito
bancário referente a um prêmio especial de 30% sobre o valor da
indenização recebida.
Segundo o Dr. Werner, pai de Carlos e presidente da empresa, Jorge
“Promessa” merecia muito mais pela lealdade e dedicação demonstradas
naqueles quase vinte anos de trabalho. Mas, infelizmente, a situação
da empresa só permitira aquilo.
Promessa era o apelido carinhoso que Jorge recebera logo no primeiro
ano de trabalho. Ao longo dos anos foi galgando posições até chegar
a supervisor. Vivia fazendo promessas para Santo Expedito, as quais
pagava religiosamente. Daí o apelido.
Ao soltar a mão de Jorge, Carlos arrematou:
“Você teria mais alguma pergunta antes de ir embora?”
Uma única pergunta ainda restava a Jorge naquele momento:
“Mas, afinal, por que aconteceu essa desgraça com a firma, seu
Carlos?”
Nos últimos instantes de sua vida naquela empresa, as lembranças
fluíam pela memória de Jorge com todos os detalhes. Foi assim que
lembrou daquela tarde em que tudo começara. A comunicação interna
estava afixada em todos os quadros de aviso: Carlos assumira a
diretoria no lugar do pai, o Dr. Werner, que passara a ser o
presidente da empresa, exclusivamente dedicado ao desenvolvimento de
novos negócios. O filho chegava para modernizar a metalúrgica e
prepará-la para a abertura do mercado, dada como certa no recém
eleito governo Collor. Junto com ele, vinha também a sobrinha do Dr.
Werner para assumir a diretoria administrativa.
Passado algum tempo, nova surpresa: a diretora administrativa
comunicava a contratação do famoso consultor Guilloti para coordenar
um processo de reengenharia na empresa. Jorge foi conversar com o
eng. Dimas, que estava implantando o Controle Estatístico na linha
de produção, para saber que diabo significava aquela tal
reengenharia. A mulher do Jorge, ao saber da novidade pelo telefone,
arriscou um palpite. Segundo ela, seriam contratados reengenheiros,
ou seja, engenheiros diplomados duas vezes. Certamente seriam
pessoas com grande conhecimento.
Jorge sempre dera muitas risadas cada vez que lembrava daquele
telefonema. Agora não conseguia sequer esboçar um leve sorriso.
Recordava-se que o tal Guilloti se instalara numa sala ao lado da
diretoria. Os gerentes foram chamados para uma grande reunião e
depois iniciaram um programa de “downsizing”. Na época, ninguém
sabia o que era aquele outro negócio de nome difícil e que a “rádio
peão” logo tratou de apelidar de “dançais”. Pela memória de Jorge
desfilavam as fisionomias de todos os colegas e amigos que entraram
naquela sala para ouvir da diretora administrativa, sempre escudada
pelo consultor, as razões pela qual a empresa estaria reduzindo seus
quadros a partir daquela semana. A sala do Guilloti ganhou o óbvio
apelido de “guilhotina”.
Quando o eng. Dimas veio se despedir de Jorge, tinha lágrimas nos
olhos. “Você também, Dimas? E o Controle Estatístico? E a calibração
dos instrumentos? Quem vai cuidar disso?” O jovem engenheiro
explicou-lhe que as atividades de controle da qualidade estavam
sendo agregadas à produção e que o próprio Jorge teria que assumir
novas responsabilidades, que haveria um treinamento especial para
todos por uma empresa terceirizada, etc, etc, e que tudo iria dar
certo.
A cada mês, lembrou Jorge, surgiam novidades em meio aos piores
boatos. Numa sexta-feira, o velho Werner ficou possesso quando soube
que iriam demitir o Fritz Vermelho, chefe do tratamento térmico.
Convocou a diretoria e exigiu ser consultado sobre toda e qualquer
demissão que envolvesse pessoal com mais de 20 anos de casa. A
sobrinha argumentou que era justamente esse pessoal mais antigo que
oferecia maior resistência às mudanças em curso e que, além disso, a
empresa seria muito beneficiada com a redução expressiva e rápida da
folha e que esta era uma recomendação muito forte do consultor. Com
a promessa de uma polpuda gratificação para o Fritz Vermelho,
conseguiram convencer o presidente de que não havia outro caminho. E
assim foi feito.
No velório do Fritz Vermelho, o Dr. Werner chorou muito junto ao
caixão. Lembrava a todos os primeiros tempos, quando os dois
estampavam chapas lado a lado. Fritz só não era sócio da firma
porque não queria. Afinal, nunca juntou dinheiro para isso pois
gastava tudo o que ganhava visitando os parentes na Alemanha. “Muito
bom ser empregada”, dizia ele, “o gente dorme "melhor”. Quantas
cervejas beberam juntos... Quantas piadas em alemão...Quantas vezes
teve que levar o amigo Fritz para casa ao saírem da cervejaria,
ambos bêbados. As más línguas, por outro lado, diziam que o choro
era puro remorso pois qualquer pessoa na fábrica sabia que o velho
Fritz Vermelho morreria se parasse de trabalhar.
Apesar desse e de vários outros pequenos incidentes, atribuídos pelo
consultor ao “enorme coração do presidente”, o projeto teve
continuidade. O tal de “dançais” foi se tornando mais manso, os
funcionários remanescentes passaram a fazer muito mais coisas pelo
mesmo salário e usando os mesmos processos. Coincidência ou não, as
pessoas passaram a falar menos (umas por excesso de trabalho, outras
porque em boca fechada não entra mosca). A empresa caminhava
rapidamente para um novo patamar de competitividade que a colocaria
entre as melhores do setor, diziam os novos comunicados da
diretoria. O tempo foi passando...
O grupo de visitantes chegara de repente, sem aviso prévio, em
companhia de Carlos e de um representante do principal cliente.
Jorge foi submetido a um interrogatório estranho por parte de um
sujeito baixinho que queria saber sobre os planos para certificação
ISO 9000, sobre um tal de Cpk de processo, sobre rastreabilidade do
padrão de dureza, sobre incerteza de medição e sobre um monte de
outras coisas. Lembrou-se do Dimas e teve vontade de correr, de
fugir dali, de ir para casa e ficar junto da família. Olhou para
Carlos, que o encarava com as sobrancelhas alçadas, e teve vontade
de cobrar ali mesmo as providências sobre treinamento, os cursos do
SENAI, a calibração dos instrumentos e muitas outras promessas não
cumpridas. Teve vontade de chorar quando, encerrada a visita, foi
chamado pelo próprio Carlos e criticado por seu embaraço e pela
falta de presteza nas respostas aos visitantes. Apesar das
explicações e justificativas, tudo o que ouviu de positivo foi uma
nova promessa da diretoria de contratar um programa de treinamento
em qualidade e, tão logo fosse possível, um engenheiro para
implantar a tal de ISO 9000. O tempo continuou passando...
A noticia estourou como uma bomba: o principal cliente tinha ido
para o beleléu. Depois de várias devoluções de peças num mesmo
trimestre, os pedidos em carteira haviam sido cancelados e colocados
num fornecedor australiano. O segundo melhor cliente repetiu a dose
dois anos depois, após uma fracassada tentativa de implantação de
uma outra complicação chamada QS-9000. Daí para a frente, a coisa só
piorou. O Dr. Werner assumiu todas as decisões e tentou negociar a
reconquista dos clientes perdidos. Entretanto, seus antigos
conhecidos já não mais detinham poder e nada puderam fazer. Os
tempos eram outros. As caras e os nomes também. O termo em moda era
“evidência objetiva”. Promessas vazias não contavam mais. Nem Santo
Expedito deu jeito.
Jorge despertou de suas lembranças ao ouvir Carlos responder sua
pergunta, num tom meio solene:
“Sabe, Jorge, é um pouco complicado explicar tudo o que aconteceu
com a gente. Mesmo assim, acho que você merece esta explicação. Você
já ouviu falar em Custo Brasil?”
Arnaldo Pereira Ribeiro®
junho/99
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