Arnaldo P. Ribeiro® - Livro Crônicas do Entardecer

 


Infelizmente, você precisou utilizar o serviço bancário, desta vez para pagar a fatura do cartão de crédito. O caro amigo, por acaso, sabe lá o que representa entrar numa agência bancária nos dias de hoje?

Em primeiro lugar, embora agência bancária não seja cinema, você enfrenta fila para entrar. Esta fila se forma geralmente na calçada porque, da mesma forma que os jardins perderam seus bancos, os bancos também ficaram sem jardins. Talvez seja um acordo firmado entre a federação dos bancos e a prefeitura. Em segundo lugar, sempre tem algum cliente descuidado que vai ao banco com excesso de metal nos bolsos (ou na pasta, ou na perna ou na cabeça, sei lá!). Em conseqüência, a fila não anda porque aquela maldita porta giratória não gira enquanto o “metaleiro” não tiver colocado todos os seus utensílios e acessórios na gaveta do segurança. Mesmo que o objetivo do cliente seja uma retirada, naquele crítico momento lhe é exigido um depósito de ativos como celular, relógio, caneta, radio de pilha, moedeira e, se bobear, até da correntinha e da medalhinha de São Bento (vale perguntar o que fazer com pernas e cabeças?).

Passada esta etapa, você entra todo satisfeito na agência, aspira o ar condicionado e se prepara para pagar sua continha. É quando surge a fila do caixa! Fico pensando por que razão os bancos brasileiros gostam tanto de gente enfileirada. Não entendo que fila seja uma boa promoção de imagem (aliás nem os próprios bancos acreditam, uma vez que a fila do caixa é mantida serpenteando dentro da agência para que não aumente a fila lá da calçada).

Quando você não é cliente da agência (e muito menos do banco) as coisas se tornam ainda mais difíceis. É que, talvez devido a uma maquiavélica manobra marqueteira, apenas quem é “cliente astro” não precisa esperar muito tempo na fila. Para os “clientes cometas” (que passam lá de vez em quando) fica reservada uma espera razoável em filas para que eles percebam como são idiotas por não serem “clientes astro”. É uma espécie de marketing às avessas: não se conquistam clientes, pune-se quem não é!

Galhardamente você vai vencendo a distância que o separa do funcionário do caixa. É um rapaz magro e alto, tipo físico de corredor de maratona mas que se movimenta com a desenvoltura de um velhinho de 90 anos. No vidro do balcão há um adesivo que diz: “CALMA! Sou bancário, não sou culpado. Mais empregos, menos filas.” Mesmo achando que também não é culpado, você resolve seguir o conselho do adesivo e se lembra de outro conselho de um colega de trabalho: “Não vá ao banco no horário de almoço. Todo o mundo aproveita este horário para pagar contas”. Fica fazendo seus cálculos. Provavelmente todas aquelas pessoas na fila receberam o mesmo conselho que você. É que já são duas horas da tarde! Conseqüentemente, vieram todos após o almoço. E é quando você lembra que os funcionários do banco fazem exatamente o contrário dos clientes: logo depois da hora de almoço, eles saem do banco para almoçar. Afinal, já diziam os mais antigos, saco vazio não fica em pé.

Enquanto espera, você fica lá falando com seus botões. Um dos temas da conversa é a falta de bancos. No jardim? Não, não! No banco, ou melhor, na agência! Os bancos não têm jardim e também não têm bancos onde as pessoas possam sentar enquanto esperam ser atendidas. Aí você ouve o botãozinho do seu colarinho: “ Chefe, desculpe, é que fila não senta. Fila sentada não é fila, é ala ou comissão. Sabe como é nas escolas de samba? Tem a ala das baianas e a comissão de frente: fica um ao lado do outro”.

Outro tema da conversa é a quantidade de caixas. Você conta doze mas só vê três ocupadas com atendentes. Considerando os três que foram almoçar, ainda sobrariam seis caixas ociosas. O botão do punho esquerdo comenta que a culpa é da estabilização da moeda que acabou com a ciranda financeira e promoveu os caixas automáticos. Confessa que sua grande frustração é ser botão de camisa: queria ter nascido botão de caixa automático.

O sósia de maratonista é lento mas parece entender de tudo por ali. Afinal, ele é interrompido a cada minuto para explicar alguma coisa para alguém. A mocinha loira, de camiseta vermelha com decote generoso, parece merecer uma atenção especial uma vez que recebe explicações mais prolongadas, todas acompanhadas por um sorriso de plena aprovação. Depois de testemunhar várias explicações, você, finalmente, consegue chegar ao balcão e pagar sua fatura.

Conformado e, ao mesmo tempo, aliviado por se ter livrado de mais um aborrecimento, você se dirige à saída da agência. Só ali percebe que o aborrecimento ainda não acabou simplesmente porque existe uma outra fila a ser vencida para que você possa chegar na rua. Acontece que só existe uma porta de saída que, por triste coincidência, é aquela mesma porta giratória de entrada. E sempre tem algum cliente descuidado que vai ao banco com excesso de metal nos bolsos (ou na pasta, ou na perna ou na cabeça, sei lá!).

 

Arnaldo Pereira Ribeiro®
março de 1999
 

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