BEIJOS DEVIDOS PARA

IOLANDA



Lembro-me dos teus passos firmes e decididos cruzando a sala, com uma determinação que eu admirava sorrindo, enquanto brincava com meus soldadinhos de chumbo. Lembro-me da garantia da tua mão macia mas firme ao segurar a minha, ajudando-me a enfrentar as levas de adultos sempre presentes nas lojas, na rua ou no parque. Lembro-me dos movimentos do teu dedo indicador, acompanhando tuas censuras e advertências, e que aprendi desde cedo a interpretar como uma batuta que me conduzia pelos acordes do bem viver.

Como não lembrar do teu colo quente e acolhedor onde tantas vezes encontrei abrigo para chorar livremente meus desenganos, minhas decepções e meus insucessos?

Como não lembrar do teu sorriso aberto e receptivo que ora me sinalizava perdão, ora aprovação, ora entendimento, mas sempre me transmitia carinho e revelava a alegria de ser minha mãe?

Como não lembrar das tuas palavras sábias, repetindo docemente tantos ensinamentos, sem te importar se o fazias pela décima ou pela milionésima vez?

Não esqueci dos valores que me ensinaste e que moldaram o meu caráter. Não esqueci dos limites que me demonstraste e que balizaram os meus caminhos. Não esqueci das valiosas lições sobre desigualdades e individualidades, sobre direitos e oportunidades, que tanto me ajudaram a entender o mundo e respeitar todas as pessoas.

Contigo aprendi a distinguir sonhos e metas, a desenhar o paraíso e a edificar meu mundo real. Muitos beijos me pediste, tantas vezes, eu me lembro. Muitas vezes não te beijei, por birra, zanga ou doença.

Beijei-te muito menos do que merecias, mãe.



Arnaldo Pereira Ribeiro
abr/2001