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Arnaldo Pereira Ribeiro

(julho/00)

   

Pois quer saber, seu moço?  Acho que tinha que ter só estrelas.  Ficaria muito melhor. Além do mais, ninguém lá fora entende mesmo o que está escrito aí.

Argumentei que o importante é  que nós, brasileiros, entendamos e respeitemos o lema de nossa bandeira. Mas ele pareceu não concordar:

- Ordem e progresso?  O senhor  acha que a galera leva isso a sério?  Acho que merecíamos um lema mais inspirador e patriótico, como aquele da gloriosa bandeira mineira: “Libertas quae sera tamen”. 

Mesmo considerando que o entendimento não seria beneficiado com uma legenda latina, concordei que ficaria muito bem na faixa branca da bandeira um lema ligado fortemente a um movimento de libertação como o dos Inconfidentes. 

 

Pensei cá com meus botões que também poderíamos ter uma mensagem mais direta a todos os brasileiros como a que eu havia visto num adesivo desses de pára-brisa de carro: “Faça a sua parte”. Percebi, entretanto, que ele se mantinha firme na posição contrária à faixa branca com a legenda. Ele queria apenas as estrelas.  Quando indagado da origem daquela faixa branca e daquele lema, procurei explicar-lhe o que eu ainda lembrava do que aprendera no colégio.  Falei das influências do positivismo que regeu o movimento republicano, das idéias do pensador francês Auguste Comte com relação a uma humanidade racional e evoluída, dirigida por homens esclarecidos. Da ditadura republicana, do militarismo científico, de Constant, de Castilhos, dos tenentes até Getulio.  O lema dos positivistas era “o amor por princípio, a ordem por base, o progresso por fim”.  Foi então que sua fervorosa atenção se desfez e ele exclamou:

-                Taí, faltou o amor! Eu gostaria mais de “Amor, Ordem e Progresso”.

 

Lembrei a ele que sempre seria possível sugerir a algum deputado a inclusão da palavra Amor no lema da bandeira. Bastaria um projeto de lei aprovado pelo Congresso.  Ou quem sabe um plebiscito nacional. Ele não achou a idéia boa argumentando que já temos muitos deputados perdendo tempo com coisas irrelevantes e, além disso, o País tem outras prioridades.  Ele ficaria muito feliz apenas se a nossa bandeira fosse mais respeitada e valorizada e se cada brasileiro aprendesse a usar melhor o pavilhão nacional nas ocasiões necessárias e com a emoção requerida.

 

Lembrei-me desse episódio recentemente, ao fugir da cidade grande e me entregar ao prazer de contemplar e ouvir a noite do nosso interior.  Na ocasião, confortavelmente instalado numa rede, entreguei-me também à sensação de mergulhar num lábaro imaginário, sem legendas, apenas um brilhante céu estrelado e cheio de sons.  Pensei em quão brilhante também poderia ser a Pátria amada se conseguíssemos reduzir suas injustiças e valorizar devidamente a seriedade de conduta, a cidadania diligente e o verdadeiro patriotismo. 

 

Pensei que ter o céu como bandeira simbolizaria melhor a esperança imorredoura da felicidade futura que nos caracteriza como país.  Talvez isso também pudesse estar escrito numa faixa branca entre as estrelas.  Ou, quem sabe, também pudesse estar gravado para sempre como uma mensagem estelar monocórdia e subliminar que algum sistema alienígena esteja a retransmitir para cá através de toda a Via Láctea: “País do futuro, país do futuro, não te preocupes quanto ao porvir pois que já ganhaste o céu e o escondes na tua bandeira!”.  Acordei de meus devaneios ao lembrar-me dos versos de Bilac: “Ora (direis) ouvir estrelas! Certo, perdeste o senso.”   

 

 

 

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