Pois
quer saber, seu moço?
Acho que tinha que ter só estrelas.
Ficaria muito melhor. Além do mais, ninguém lá
fora entende mesmo o que está escrito aí.
Argumentei
que o importante é
que nós, brasileiros, entendamos e respeitemos
o lema de nossa bandeira. Mas ele pareceu não
concordar:
- Ordem
e progresso? O
senhor acha
que a galera leva isso a sério?
Acho que merecíamos um lema mais inspirador e
patriótico, como aquele da gloriosa bandeira mineira:
“Libertas quae sera tamen”.
Mesmo
considerando que o entendimento não seria beneficiado
com uma legenda latina, concordei que ficaria muito
bem na faixa branca da bandeira um lema ligado
fortemente a um movimento de libertação como o dos
Inconfidentes.
Pensei
cá com meus botões que também poderíamos ter uma
mensagem mais direta a todos os brasileiros como a que
eu havia visto num adesivo desses de pára-brisa de
carro: “Faça a sua parte”. Percebi, entretanto,
que ele se mantinha firme na posição contrária à
faixa branca com a legenda. Ele queria apenas as
estrelas. Quando
indagado da origem daquela faixa branca e daquele
lema, procurei explicar-lhe o que eu ainda lembrava do
que aprendera no colégio. Falei das influências do positivismo que regeu o movimento
republicano, das idéias do pensador francês Auguste
Comte com relação a uma humanidade racional e evoluída,
dirigida por homens esclarecidos. Da ditadura
republicana, do militarismo científico, de Constant,
de Castilhos, dos tenentes até Getulio.
O lema dos positivistas era “o amor por princípio,
a ordem por base, o progresso por fim”.
Foi então que sua fervorosa atenção se
desfez e ele exclamou:
-
Taí,
faltou o amor! Eu gostaria mais de “Amor, Ordem e
Progresso”.
Lembrei
a ele que sempre seria possível sugerir a algum
deputado a inclusão da palavra Amor no lema da
bandeira. Bastaria um projeto de lei aprovado pelo
Congresso. Ou
quem sabe um plebiscito nacional. Ele não achou a idéia
boa argumentando que já temos muitos deputados
perdendo tempo com coisas irrelevantes e, além disso,
o País tem outras prioridades.
Ele ficaria muito feliz apenas se a nossa
bandeira fosse mais respeitada e valorizada e se cada
brasileiro aprendesse a usar melhor o pavilhão
nacional nas ocasiões necessárias e com a emoção
requerida.
Lembrei-me
desse episódio recentemente, ao fugir da cidade
grande e me entregar ao prazer de contemplar e ouvir a
noite do nosso interior. Na ocasião, confortavelmente instalado numa rede,
entreguei-me também à sensação de mergulhar num lábaro
imaginário, sem legendas, apenas um brilhante céu
estrelado e cheio de sons.
Pensei em quão brilhante também poderia ser a
Pátria amada se conseguíssemos reduzir suas injustiças
e valorizar devidamente a seriedade de conduta, a
cidadania diligente e o verdadeiro patriotismo.
Pensei
que ter o céu como bandeira simbolizaria melhor a
esperança imorredoura da felicidade futura que nos
caracteriza como país.
Talvez isso também pudesse estar escrito numa
faixa branca entre as estrelas.
Ou, quem sabe, também pudesse estar gravado
para sempre como uma mensagem estelar monocórdia e
subliminar que algum sistema alienígena esteja a
retransmitir para cá através de toda a Via Láctea:
“País do futuro, país do futuro, não te preocupes
quanto ao porvir pois que já ganhaste o céu e o
escondes na tua bandeira!”.
Acordei de meus devaneios ao lembrar-me dos
versos de Bilac: “Ora (direis) ouvir estrelas!
Certo, perdeste o senso.”

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