Obrigada pela visita!

 

Arnaldo Ribeiro

(Julho / 1993)


O parque está bastante movimentado nesta manhã de domingo. Há vovós tomando sol e há mamães recentes e orgulhosas passeando com seus bebês. Há vendedores de pipoca e algodão doce anunciando suas guloseimas. Há crianças correndo por toda a parte, atrás de uma bola ou de um cachorro. Outras pedalam bicicletas, se equilibram sobre patins ou “skates” ou, simplesmente, pulam corda. Há uma sensação de liberdade que se espalha no ar e faz bem ao espírito.



Vou fazendo a minha caminhada matinal, despreocupado com a vida, quando ouço o garoto chorando. Ele está no colo da mãe que, inutilmente, tenta fazê-lo compreender que não será mais possível brincar no chafariz da estátua. A razão? Muito simples: a Prefeitura ergueu uma cerca de metal ao redor da estátua para evitar as famigeradas pichações.


 

Pobre criança. Pobre cidade. Pobre sociedade. Um cidadão dá sua vida por uma nobre e patriótica causa e, em troca, ganha uma estátua em praça pública. E é justamente aí que está a ironia da coisa: o herói vai para a cadeia na sua posteridade. Se ele pudesse prever o futuro, talvez tivesse colocado como cláusula de seu testamento a exigência de não ser homenageado com estátuas no Brasil. “Não, muito obrigado”, diria ele, “prefiro uma estatuazinha lá na Alfama ou no Chiado. No Brasil? Deixa pra lá!”.


 

Pichadores do Brasil! Vamos contribuir para a liberdade de nossa história! Já contribuímos para a liberdade de tanta gente! Que tal contribuir agora com a libertação do Cabral, dos Pedros Imperadores, do Tiradentes, do Nabuco, do Henrique Dias, do Zumbi? Vamos guardar pincéis e “sprays” e permitir a libertação dessa gente toda! Como alternativa, eu sugeriria que vocês pichassem nossa história viva sapecando um colorido nestes marginais que roubam a Previdência Social, traficam influência, falsificam documentos e figuram diariamente nas manchetes dos jornais como ladrões, mas insistem em permanecer impunes à sombra de sua imunidade. Por que não dar uma boa pincelada em vários dos políticos que ajudamos a eleger e que, até hoje, estão devendo uma prestação de contas de suas atividades parlamentares ou administrativas?


 

 

Libertemos nossos monumentos enjaulados para que o povo possa se aproximar deles e admirá-los. Para que nossas crianças possam ser fotografadas por seus pais corujas, aos pés de um grande personagem ou junto de uma famosa escultura. Será que já não bastam as pombas e os passarinhos que, na sua irracionalidade, brindam os nossos gloriosos vultos históricos com os restos do seu metabolismo?

 

Corujando Dia e Noite

 

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