Obrigada pela visita!

 

– Puxa, cara, cê tá atrasado pacas!

– Tô sabendo, gata.

– Onde cê tava?

– Parado no trânsito!

– Congestionamento?

– Negativo. Até que tava fácil.

– Então, o que foi que aconteceu?

– Um guarda cdf me pegou na Santo Amaro.

– Tava rachando, hein?

– Negativo, tava no corredor do ônibus...

Só isso?

..sem o cinto...

Ah!

– ...e usando o celular.

Bom...

Bom nada! Fiquei p...! Onde já se viu?

– Viu o quê?

– Esse abuso, pô!

– Que abuso?

– Abuso de autoridade, entende? Isso não pode continuar, pô!

– Por quê?

– Porque isso é um assunto importante, entende?

– Não.

– Presta atenção, gata! Já ouviu falar que tempo é dinheiro?

– Acho que já.

– É uma coisa assim... tipo... não se pode perder tempo no trânsito, entende?

– Sei...

– O trânsito tá muito louco, meu! 

o se pode ficar parado no congestionamento 

vendo aquela faixa amarela vazia.

– Certo!

Quando eu vejo que não tem ônibus na faixa, eu ponho a máquina nela e pronto! 

É só pisar fundo e chegar nos 100 por hora! Ah! Eu tô maluco!

Bárbaro!

Pois é...

– Mas e o guarda?

Foi no farol da Espraiada. 

Tinha um ônibus na minha frente e não deu pra "queimar". 

Tive que parar e foi aí que eu vi a viatura e o guarda chegando pro meu lado com o talão na mão.

– Continua, continua!

Aí eu falei tudo o que eu pensava! 

Falei que o comunismo tinha acabado junto com a tal da ditadura do proletariado.

– Poletra o que?

Proletariado, gata! Aquele negócio de comuna, entende?

Acho que não...

Aquele negócio do Stálin.

Quem?

– Stálin! Aquele do filme que aluguei na semana passada, lembra?

– Ah, sei!

Ô gata. Vê se não emburrece, tá bom?  

dormiu na metade do filme, pô!

É que tava muito chato. Mas me conta o necio dele.

Do Stálin?

– Claro, meu!

Esse governo tá querendo trazer o comunismo de volta. 

Imagina dar uma faixa só pra ônibus.  

Operário tá andando mais depressa que patrão

tudo errado, meu!

– É mesmo?

Claro, gata! Tá lá na "constituinte", não tá?  É o tal direito de ir e vir pra lá e pra.

– Jura?

– Juro, meu! Tem que parar com isso!

Mas e o guarda? Que foi que ele disse?

– Disse que o discurso tava bom e que eu devia me candidatar a deputado.

Sério, meu?

Claro que ele tava gozando com a minha cara!

E ele te multou?– Multou legal! Quase me leva pro distrito, meu!

– E agora?

Sei lá. Acho que vou falar com o meu tio.

– Qual?

Aquele que é procurador. Se ele é procurador pode achar uma sda, né?

Não entendi.

– Trocadilho, gata!

Foi? Que demais!

 

Arnaldo P. Ribeiro®

maio de 1997

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