Sim, nós temos ética

Ei, você, mulher!
É, você mesma aí, faminta e esquelética, que vive doente,
sei lá se diabética, epilética ou aidética,
se arrastando nas filas injustas e implacáveis.

Você não sabe bem o que isto é,
embora tenha ouvido falar numa tal de ética.

Nunca se falou tanto disso e, ao escrever suas matérias,
os jornalistas usam e abusam do vocábulo,
como se estivessem saindo de um jejum que parecia interminável.

Um jejum de ética? Seria tal coisa possível?
Será que falta ética no País?
A maldita fila não anda, não é?
Como?
Você acha que não falta ética?

Ah, entendi: sobra ética no meu texto mas falta ética no País!
E você, menina, que passa pela rua com esta expressão
poética de namorada amantética,
sonhando com os lindos olhos de seu príncipe encantado, diga-me lá:
temos ou não temos a tal ética?
Ah, tanto faz?
O que importa é a cosmética?

Ah, claro, tipo assim como uma questão estética de forma atlética.
Já percebi que você também quer muita ética no meu texto,
mas não está nem aí para a ética nacional.

Quanto à senhora elegante, especialista em genética e estudiosa da cinética,
que do alto de sua fala apologética louva as conquistas da ciência,
permita-me perguntar-lhe: há ética nesta terra de tantos doutores?
Ah, sim, temos muita dialética mesmo quando há problemas de fonética.
Tá bom, a senhora não precisava ser tão acética para dizer
que nos sobra ética no vernáculo, mas falta ética no País.

E a moça bonita ao volante da Mercedes, em velocidade frenética,
tomando uma bebida energética, fica indignada ao ser parada na estrada
por causa de um radar, maravilha da cibernética:
a senhorita acha que esta é uma situação patética?
Ah, vai perder a carta?
Mas não fique apoplética e me responda, mesmo de forma hipotética:
o que houve com a ética?

Ora bolas, não precisava ser tão sintética nem falar de maneira assindética.
Deu para entender que sobra ética no dicionário,
mas falta ética no País (e respeito aos sinais de trânsito também).

E aquela gentil velhinha que já foi uma grande protética,
mas que hoje é apenas uma bisavó caquética,
que adora dormir sentadinha na sala,
é considerada pelos parentes ingratos uma morfética embora seja,
na verdade, uma anciã profética: segundo ela,
este que aqui escreve deveria seguir uma linha mais eclética e menos hermética e,
quem sabe, adotar uma postura menos cética.

Em outras palavras, fosse ela mais jovem,
talvez dissesse que eu deveria acreditar mais no futuro e que dia virá
em que teremos muito mais ética neste País do que no dicionário.

Foi então que eu saí por aí com este texto concluído e dobradinho no bolso,
sem saber muito bem o que fazer com algumas sobras tais como
apogética, noética, zetética ou parenética.

E, ao dobrar a esquina, dei de cara com minha vizinha escalafobética que,
numa gesticulação peripatética, passava uma descompostura
no tintureiro sem que ele entendesse patavina.

O pobre coitado acabara de chegar ao País,
imigrante oriundo de uma falida república soviética. . .



(Arnaldo Ribeiro)
maio/2001