
Belarmino
sabia mesmo das coisas.
Não havia nada que acontecesse nos becos,
nos bueiros ou nos esgotos que ele não soubesse.
O resto da "rataiada", mesmo roendo cabos telefônicos,
grampos ou outros que tais, sabia muito menos que o Belarmino.
As ratazanas mais velhas fofocavam
que ele por certo teria muitos relacionamentos importantes
graças a algum pedigree não revelado.
Ratazanas adoram fofocas que, como sabemos,
quando bem feitas são denominadas versões
e passam a valer muito mais que fatos.
Fontes melhor informadas
garantiam que ele seria meio aparentado
com o tal rato americano das orelhas grandes.
Na verdade, o Belarmino era bem orelhudo mas
daí a ser parente de artista de cinema tinha muito de exagero.
Mas que ele sabia das coisas, isto ele sabia!
Este
grande conhecimento, inevitavelmente, lhe conferia status.
Algum rato famoso já não dissera que informação é poder?
Ou teria sido um humano?
O fato é que o Belarmino nunca conhecera o dissabor da fome.
Pelo contrário, andava sempre bem alimentado,
o que o tornava até um pouco gordo demais para a sua estatura,
considerando que se tratava de um rato malhador.
Sim, o Belarmino malhava regularmente graças aos gatos dos becos
que o forçavam a uma corrida diária
quase sempre nas primeiras horas da manhã.
Mas
como eu dizia, o Belarmino tinha status por ser bem informado,
condição que era resultante de duas características
que ele preferia chamar de predicados gerenciais
ou mesmo requisitos de sobrevivência no mercado competitivo:
a constante observação dos fatos e o ceticismo em último grau.
Em outras palavras,
o Belarmino só acreditava naquilo que via acontecer repetidas vezes.
Era um São Tomé ao cubo.
Graças a tais predicados, ele aprendeu, desde jovem,
a superar situações que poderiam se constituir em perigos mortais.
Com suas observações, ele aprendeu, ainda camundonguinho,
que gatos são bichos preguiçosos e notívagos e
que melhor seria sempre deixar por conta deles
as latas de lixo dos bistrôs elegantes.
Na pior das hipóteses, sempre sobraria alimento para a "rataiada"
quando os felinos adormecessem
entupidos das sobras dos pratos da elite saciada.
Nas épocas de crise econômica,
quando o dólar subia absurdamente além do suportável,
Belarmino sabia que não iria encontrar muita coisa nos becos.
Era quando ele apelava para a incursão noturna
em algumas farmácias conhecidas,
liderando um vigoroso ataque
às prateleiras cheias de caixinhas multicoloridas.
Belarmino sabia, de fonte segura,
onde encontrar uma farinha gostosa e de boa qualidade
só pelo visual da embalagem.
Perdia-se no paladar mas ganhava-se em nutrição,
sem nenhum risco de ingerir
alguma daquelas formulações de nome complicado
feitas para os humanos mas, ao mesmo tempo,
responsáveis pelo sacrifício de seus parentes brancos
engaiolados em tantos laboratórios estrangeiros.
Uma vantagem adicional dessas aventuras farmacêuticas
sobre incursões similares a supermercados
era a maior garantia contra a ingestão acidental
de algum agrotóxico esquecido no arroz ou no feijão.
Um dia contaram a Belarmino
que os restaurantes seriam fiscalizados e obrigados
a tomar uma serie de medidas que acabariam
por matar todos os ratos da região.
Ele então decidiu voltar aos seus esquemas de observação
enquanto a turma prosseguia engordando nas farmácias
até que alguém resolvesse também
fiscalizar as caixinhas coloridas de farinha encapsulada.
Mais uma vez seus predicados foram decisivos
para o destino dos seus protegidos:
como seu ceticismo lhe permitira prever,
a fiscalização foi devidamente remanejada para uma outra região e,
graças à sua paciente observação da população felina,
cada vez mais saciada,
concluiu que cozinhas e latas de lixo
passavam a apresentar melhores condições de acesso e abastecimento.
Não
fossem tais predicados e Belarmino e sua turma
talvez não tivessem sobrevivido às inundações do último verão.
Apesar da lama ser familiar aos ratos
que até se servem dela como fator de sobrevivência
quando percebem hostilidades no ar,
Belarmino sempre temeu a combinação da lama
com as campanhas políticas dos humanos.
Acontece que, nas disputas políticas,
os papeis se misturam,
geram muita sujeira e se acumulam nas "bocas de lobo",
entupindo os esgotos e, muitas vezes,
afogando os ratos sem informação sobre as agendas eleitorais
e a previsão do tempo.
Não fossem tais predicados e eles poderiam estar lá no lixão,
seguindo o exemplo de alguns primos,
menos imaginativos, mais crédulos e pouco observadores.
Para estes, o lixão é uma festa que se renova a cada caminhão.
Mas não para Belarmino.
De fonte segura, ele sabe que, lá no lixão,
a qualidade é duvidosa e, acima de tudo, o contexto é hostil.
Lá, os humanos não são provedores. São concorrentes.
Arnaldo Ribeiro
jun/2000