Artur era supervisor de inspeção e ficou desempregado naquela
época em que esta atividade caía em desuso e as empresas começavam a aplicar o tal do "downsizing". Palavra curiosa esse "downsizing". Também traduzindo pro tupiniquim, equivale a "ajustar para baixo", ao pé da letra. Ou seja, reduzir de tamanho. Você pode fazer um "downsizing" no seu nariz, por exemplo, como é comum entre políticos, "socialites" ou qualquer um que tenha uma boa nariganga, seja vaidoso e tenha dinheiro para pagar o cirurgião plástico. Muitas mulheres costumam fazer um "downsizing" por ano: ora é no busto, ora nas áreas posteriores, ora nas laterais.

  Pois muitas empresas fizeram o tal "downsizing", mandando para o beleléu uma porção de empregos. Segundo os teóricos da época, havia que distinguir o processo de "downsizing", que era complexo, tempestivo e gerenciável, do mero e intempestivo "headcutting" que, como o próprio nome diz, se resumia a "cortar cabeças" após uma simples decisão de diretoria (equivalente, na linguagem popular, ao famoso "facão"). Na prática, entretanto, dava no mesmo. As empresas cortavam cabeças em nome de um suposto "downsizing". Pois uma das cabeças cortadas na empresa do Artur foi a do Artur.

O Artur sempre fora um sujeito de bom caráter, zeloso, ciente de seus deveres, assíduo, honesto, nunca ficava doente por mais de um dia e sempre gozava férias pela metade. Nunca se destacara como um funcionário brilhante mas que era leal e dedicado, isso era!

Um belo dia, seu diretor o chamou para uma conversa muito séria. Disse que ele estava tirando férias pela metade há muito tempo e que isto não seria mais tolerado. Um bom funcionário como ele merecia tirar suas férias na totalidade para poder gozá-las na praia, com sua família. Disse mais, que a empresa, reconhecida por seu esforço e dedicação e com o objetivo de compensá-lo por tantas férias assinadas mas não gozadas, estava lhe dando uma licença emunerada de 3 meses.

O Artur ficou feliz. Agora ele poderia fazer aquela viagem com a mulher, conhecer Paris, Moscou, Roma, Atenas, Viena! Afinal, o dinheiro economizado durante tanto tempo estava lá no cofre
criando mofo.
Uma verdinha em cima da outra. E lá se foi o casal curtir o Velho Mundo, uma novidade absoluta.

Ao voltar para a empresa, antes mesmo de completar os três
meses de licença, Artur encontrou com o tal "downsizing".
O que disseram para o Artur foi: "Sabe como é, Artur, a empresa se restruturou neste trimestre e já treinamos um estagiário para fazer o seu trabalho. Nós lamentamos muito porque gostamos de você e vamos sentir muito a sua falta". Entretanto, o que o Artur ouviu foi: "Sabe como é, Artur, você ficou tanto tempo afastado que a empresa descobriu que você não fazia falta nenhuma".

O Artur entrou em depressão, infartou e deu um trabalhão prá
família. Ficou quase um ano em tratamento médico e psicológico
para recuperar a saúde e a auto-estima abaladas.
Acabou conseguindo porque, afinal de contas, só havia perdido o emprego. Era um emprego de vinte anos mas era só um emprego. O downsizing" não afetara sua estatura. Nem sua dignidade. E sua cabeça continuava no mesmo lugar, apesar do "facão".


Arnaldo Pereira Ribeiro

fev/1999