E eis que, de repente, sua promissora carreira executiva de engenheiro da qualidade fora interrompida porque ele acabara de ser compulsoriamente alistado ao exército de profissionais altamente qualificados.....e desempregados.
Como muitos outros executivos da qualidade, tinha sido atropelado no cruzamento da globalização com a tal de reengenharia.

Aquela posição de diretor da qualidade, tantas vezes prometida, ficara na saudade.

A viagem de especialização ao Japão acabara de se transformar em lenda oriental. "Não foi nada pessoal, as razões da demissão são puramente estruturais", ouviu do diretor de RH. De agora em diante, não haveria mais necessidade de um departamento da qualidade já que a empresa recebera o certificado ISO 9000 e o gerente da produção assumiria a responsabilidade pela qualidade dos processos.

A explicação de seu embaraçado chefe direto foi ainda mais infeliz: "Você entende, não é? A empresa diminuiu de tamanho e não há mais espaço para tantos funcionários".
Sentiu uma sensação indefinida, como se estivesse sendo demitido e despejado, tudo ao mesmo tempo.

Nem tempo nem cabeça para qualquer outra leitura. Folheia o jornal avidamente, apenas à procura de uma possível, embora difícil, colocação. Há que buscar um outro ganha-pão e garantir a manutenção do padrão de vida de uma recém constituída família (ainda sem filhos mas com despesas igualmente elevadas em outras rubricas).

No caderno de empregos, é atraído pela entrevista de um famoso "head hunter" (traduzido ao pé da letra, para o idioma tupiniquim, seria um "caçador de cabeças", mas vamos chamar o moço de "caçador de talentos" que, afinal, é a intenção do termo original).

Na opinião do "caçador de talentos", o executivo recém desempregado tem que se dedicar imediata e intensamente à procura de um novo emprego. Nada de férias, livros ou atividades não profissionais que objetivem reduzir o "stress" da demissão. Opinião um tanto estranha. Afinal, dizem os psicólogos, não é só a demissão que "estressa". Também a procura de emprego "estressa", assim como o início num novo emprego é, igualmente, fator de "stress". Aceitas as opiniões do "caçador" e dos psicólogos, existirá sempre uma condição de alto risco, caso um desempregado hoje saia à procura de um emprego amanhã e tenha o azar de achar algum.

Quantos candidatos a infarto, pensa lá com seus botões o nosso engenheiro. Retorna ao jornal e encara a foto do "caçador" que parece estar lhe dizendo: "Vai arrumar outro emprego, seu vagabundo. Nada de tirar férias!".
Pensa no tal do infarto, fecha o jornal, pega o telefone e liga para a agência de turismo: "Tem pacote para Fortaleza?"


Arnaldo Pereira Ribeiro
abr/1996