
Scott
Adams confessa no prefácio do seu
primeiro livro que, por não ter sabido trocar
a bateria do seu pager, agiu como um idiota ao levar o
aparelhinho para consertar. Segundo
o mesmo Adams, somos todos
idiotas independentemente do nível
de escolaridade e é sobre esta premissa básica
que se desenvolve "O Principio Dilbert".
Em
primeiro lugar, Adams está muito
longe de ser um idiota. Bem sucedido
cartunista e agora escritor, já é
um badalado guru às avessas quando
se trata de administração. Desiludido
profissionalmente após nove anos de Packard
Bell, passou a viver do sucesso de
suas divertidas tirinhas e de
seus livros carregados de ironia e sarcasmo,
muito embora seus críticos
mais mordazes possam vir a dizer que ele é
apenas um ótimo cartunista
que não deu certo naquilo que fazia
antes.
Ironias à parte, as críticas de Adams
aos gerentes e à administração das empresas
podem ser lidas de duas formas. Sob
a lente do humor, seus livros são
uma boa diversão, especialmente para quem
trabalha em organizações e convive, diariamente,
com pessoas e situações facilmente identificáveis
com aquelas criadas pelo autor.
Por
outro lado, sob a lente da gestão moderna e
participativa, a obra de Adams apresenta uma
contribuição talvez ainda não percebida pela
maioria das pessoas, na medida em
que expõe idiossincrasias e comportamentos reais
responsáveis pela origem de graves problemas
de comunicação e mesmo de relacionamento
pessoal no dia-a-dia de muitas
e muitas empresas. Estas crises de
relacionamento costumam conduzir a ineficiências,
desperdícios e muitas outras
perdas não contabilizadas pelo
sistema da qualidade. Incluem-se
aí as práticas burocráticas e cínicas
muito comuns nos ambientes de trabalho, facilmente
reconhecidas por expressões do tipo "isto
não é comigo", "ninguém me pediu nada ainda",
"eu não sabia que era importante"
e outras do gênero.
Para
o gestor consciente e responsável, a
obra de Adams vai muito além
do humor irônico. Ao abordar a avaliação
de desempenho, por exemplo,
o autor consegue mostrar com rara
habilidade o ponto crucial responsável
pela ineficácia dos processos utilizados:
a dificuldade em realizar a entrevista chefe-subordinado
ou mesmo de torná-la um momento de
sincero diálogo e de "limpeza de área",
onde o "olho no olho" prevaleça como
forma de gerar confiança entre as
partes. Ainda
é muito comum
nas empresas a prática da auto-avaliação
escrita que depois recebe um
"de acordo" (ou não) da chefia, sem que seja
gasto um só minuto de conversa produtiva, esclarecedora
e geradora de comprometimento sério com
resultados práticos. Na
verdade, quando a chefia assume uma postura tão
alienada e foge de uma boa conversa com
seu subordinado,
limitando-se a pedir-lhe uma auto-avaliação
escrita, ela está se arriscando
a endossar inverdades e cometer injustiças.
No caso de funcionários mais temerosos ou
inexperientes, a auto-avaliação tende a ser
tímida e não
seria exagero dar razão ao autor quando
ele afirma que a avaliação de desempenho, como
regra geral, tem funcionado mais como um
instrumento de opressão gerencial que objetiva
convencer os funcionários
a trabalhar mais e esquecer qualquer aumento de salário.
No
meu ponto de vista, avaliação de desempenho requer
considerável dose de treinamento e orientação
especializada para que as organizações
possam evitar o estilo "dilbertiano" nesta
prática de gestão. As
entrevistas chefe-subordinado não podem ser
excluidas do processo e devem ser objeto de
um importante trabalho de preparação dos participantes
para que se garanta um processo de
comunicação eficaz.
Em
recente artigo para a Quality Progress (Banas
Qualidade nº 76), Elizabeth Rice, da
Ford Motor, Dearborn, analisa a habilidade de
ouvir, qualidade que a maioria das pessoas
em cargo de chefia não possui.
Diz a especialista que as pessoas precisam
se conscientizar da necessidade de escutar
os outros para que estes possam expor suas
idéias e opiniões
e sentir que elas são consideradas. Em
seu excelente artigo, Rice menciona
ainda alguns custos organizacionais decorrentes
da falta de habilidade de escutar, tais como perda
de tempo em reuniões, confusão com pedidos
e entregas, vendas perdidas, além de clientes
e funcionários mal informados, confusos
ou nervosos. Saber ouvir seu interlocutor
é essencial
especialmente num momento tão crítico
como a entrevista de avaliação entre
chefe e subordinado. Crítico
pela importância do perfeito entendimento entre
as partes para que o processo de avaliação
atinja seus objetivos. Crítico
pela oportunidade que este momento de
abertura e de demonstração de maturidade cria
para a formação de
uma equipe de trabalho fortalecida
pelo respeito e pela confiabilidade
entre profissionais.
Assim,
é recomendável que, antes de qualquer programa
de avaliação
de desempenho, as organizações busquem
desenvolver em seus funcionários
a arte de escutar. Sem dúvida, o
processo de avaliação será muito beneficiado,
as pessoas se sentirão melhor e o
clima organizacional evoluirá positivamente. E
todos poderão ler Scott Adams com total
descontração, sem achar que seus
leitores são um bando de idiotas.
Arnaldo Pereira
Ribeiro
dez/2000