Mais uma Vez

    

Acabou mais uma novela das oito.
Ahh... Mas segunda-feira tem outra.
Ahh... mas eu gostava daquela.
Até a gente se acostumar com a outra vai demorar.

Sim, eu sei que os atores serão quase os mesmos, que, igualzinho,
ouviu aquele pedacinho mínimo da música de abertura,
voltamos a apresentar, alguém vai avisar: "Voltô!".

Mas é inevitável, depois que dá o FIM bate a saudade.
Como novela sim passa no interior, novela não, na cidade e,
no caso, a gente deixou a cidade, até se acostumar com sotaque,
trejeito, e mastigar capim ou pescar vai demorar um pouquinho.

Desta vez foi LAÇOS DE FAMÍLIA que acabou.
E, de acordo com a revista da banca,
acabou para 32 milhões de pessoas.
Não sei se me contaram.
Mas acabou pra mim também.

Levando em conta que no Maracanã lotado só cabem 120 mil torcedores,
eu acho muita responsabilidade escrever uma novela.
Principalmente o último capítulo que, efetivamente, todo mundo quer ver.

Curioso é que se o autor escreve uma besteira
quem fica mal é o ator que está na tela.
E se a mulher não gosta do que o ator falou quem
leva a culpa é o homem que está do lado.
Curioso, só se for para o solteiro.
Para o casado é um risco acompanhar certas novelas ou certas damas.

Para ver o último capítulo o bom é saber das regras.
É necessário que você ache ridículo torcer para os
personagens principais ficarem juntos no final, mas torcer.
É preciso fingir não saber que no momento em que o
médico der a boa notícia ou quando o casal se reencontrar,
nesse exato instante, vai entrar a música.
E não conter a emoção.
Por que se não se emocionar pra que a vida serve?
Não precisa exagerar e chorar.
Agora, se acontecer não tem problema porque
você vai estar chorando por um monte de outras coisas
que não estão na novela mas estão em você.
Deve-se saber que não se pode sair senão no comercial
e chegando atrasado, depois da musiquinha,
nunca passar pela frente da TV e sim, por trás do sofá.
Caso contrário, vai levar um fora.

Todo mundo espera alguma coisa de um último capítulo.
Como toda novela acaba em festa,
tem gente que fica acordado só pra ver a
empregada toda arrumada.

Tem sempre o chato que vai comentar:
"Daqui a pouco vai aparecer quatro anos depois'.
E o bom garoto que será direto:
"Ah, cala a boca!"
E a mãe que vai se levantar:
"Ó, parô vocês dois".
E o pai que vai sentenciar:
"Ouviu."

Mas o que os 32 milhões de pessoas esperam mesmo,
junto da minha alma simples são os clichês, a demonstração de amor à vida,
a prova de coragem, o perdão, o beijo na praia, a praia com sol, o sol se pondo,
uma noite estrelada em que se mira outro casal que se beija naquela fazenda,
fazenda com pão quente de manhã como o sol e beijo na praia.

Fim de novela é sempre diferente do que acontece na vida real,
mas aprendemos desde criança, vendo a novela das seis,
que tudo seria melhor se fosse como gostaria a maioria.

E por mais que unanimidade seja burra e pobre nos seus clichês,
o bom é não ligar para o requinte, ligar a TV e esperar e
torcer e rezar para que todo mundo, um dia,
em algum lugar, termine feliz.


(Felipe Castro)
fevereiro/2001