Fazia-o religiosamente como se, em não o fazendo, estivesse
incorrendo em algum delito ou cometendo um erro imperdoável. Pouco se
incomodava com os comentários jocosos da mulher e, principalmente, da sogra.
Dos filhos, adolescentes ainda, exigia o devido respeito, e aproveitava qualquer
oportunidade para ensinar-lhes que aquilo que seu pai fazia era o correto. Que,
se todos agissem da mesma forma, certamente haveria menos problemas e a
sociedade até ganharia com a redução de perdas e desperdícios,
principalmente num país como o nosso, com tantos problemas sociais e tanta
falta de recursos, onde era fundamental fazer-se o melhor uso das coisas.
O irmão mais novo, por várias vezes, tentou convencê-lo de
que aquilo era bobagem, coisa de americano ou japonês, um exagero, besteira da
grossa. Mas o irmão não lhe servia de referência para coisa alguma, pois era
um alienado que vivia às custas do resto da família. Para ele, normas, regras
e manuais eram pura perda de tempo.
Antenor não era de muita atividade intelectual pois a escola
não lhe havia sido risonha e franca. Tampouco muito acessível. Lia um pouco do
jornal, quando lembrava de comprar. Os noticiosos da televisão eram a sua
janela para o mundo, mas o radinho de pilha também o divertia, quando o resto
da família se apossava do televisor, para assistir a sucessão de novelas que
se alternavam pelos diferentes canais.
O hábito, quase religioso, do Antenor era ler manuais de
instruções de cabo a rabo. Era só alguém da família comprar alguma coisa de
ligar em tomada ou movida a baterias, que lá ficava ele devorando todas aquelas
instruções, a maioria das quais já sabia de cor. Era sua leitura de
cabeceira. Mesmo quando o produto era importado, lá ficava ele decifrando as
instruções em espanhol, que era o que dava para encarar. Depois, tinha o
cuidado de repassar aos usuários do aparelho todas as instruções importantes
para o bom uso, preocupando-se sempre em enfatizar aqueles detalhes vitais. A
leitura atenta e persistente do Antenor permitira ensinar a todos em sua volta
que aparelhos elétricos têm uma tensão de alimentação correta, e que
aparelhos eletrônicos não podem ser submetidos a temperaturas extremas,
choques ou deformações. Até mesmo os seus vizinhos mais chegados se
aproveitavam desse hábito, e utilizavam a sua boa vontade para aprender sobre o
correto manejo e o bom uso de qualquer nova utilidade doméstica adquirida.
Desta forma, e graças ao Antenor, não aconteciam na
família nem na vizinhança tragédias, como ligar o aparelho de som na tomada
de 220v, guardar a agenda eletrônica no congelador, martelar a câmera
fotográfica ou cozinhar o walkman. Tais ensinamentos eram especialmente
úteis para a família quando das visitas da prima Mafalda e de seu filho pra
lá de temporão, o Renatinho, cuja diversão principal era manejar um martelo,
jogar coisas pela janela e esconder outras no congelador ou, quem sabe, dentro
de alguma panela cheia de sopa quente.
O falecimento do Antenor foi muito sentido pela família, é
claro, considerando-se o marido e pai carinhoso que ele era. Ao lado da grande
saudade e do vazio criados, a ausência do Antenor na família passou a ser
causa de prejuízos, uma vez que faltava o guardião do uso correto das coisas.
O avanço da tecnologia trouxe mais novidades e, com elas, mais instruções e
cuidados. Só que, depois que o Antenor passou desta para melhor, as coisas
começaram a ser feitas de forma mais singela. Afinal de contas, a vida moderna
não permite às pessoas que trabalham fora de casa tempo suficiente para fazer
o que o falecido fazia. Vejam só o tamanho de um manual de instruções de
qualquer aparelho eletrônico. Tão grande que vem acompanhado de uma
"Referência Rápida", sintetizada numa folha à parte e destinada aos
mais apressados (ou mais ocupados). Para que não se limitem a abrir a caixa,
ligar o plugue na tomada e depois exclamar: "Ué, não funciona!"
A família do Antenor vai tocando a vida, como Deus permite. Vez ou outra, um
novo eletrodoméstico ou aparelho eletrônico é adquirido para a alegria de
todos. Entretanto, quando algo sai errado neste contexto, é normal ouvir a
viúva do Antenor murmurar: "Ah, que saudade do falecido!"
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