
Regina
Rainha
(Arnaldo
P. Ribeiro)
-"Olá, que surpresa te ver aqui no parque."
-"Apenas uma pequena pausa para meditação."
-"A protegida deu uma folguinha, hein? Como vai o stress?"
-"Pois te digo que, embora não me tenha dado muito
trabalho, ela requer quase toda a minha atenção."
-"Ela te é muito especial ?"
-"Muito. Acho notável a sua receita de vida, sempre
disposta a ver o lado positivo das coisas, sempre pronta para perdoar
quem a ofendeu, sempre oferecendo uma palavra amiga ou um ouvido atento
para quem precisa de conforto ou de atenção. Deverias
ver quantos amigos e amigas ela tem. Ela poderia se candidatar a alguma
coisa. Não, não, melhor que isso! Acho que ela mereceria
ser uma rainha e ter poder para fazer todas as coisas que considera
importantes . Acho que ela iria tratar todas as pessoas como trata
seus irmãos. Acho que ela iria amparar todos os velhinhos como
amparou o próprio pai. Acho que ela olharia por todos os doentes
como olha pelo próprio irmão doente."
-"E ela tem filhos?"
-"Duas filhas a quem ama intensamente e que não pára
de curtir desde que nasceram."
-"Ainda casada?"
-"Acredite ou não, com o mesmo marido, que se apaixonou
perdidamente por ela assim que a conheceu, e com quem foi capaz de
construir um lar, uma família, um ambiente de tranqüila
convivência que perdurou independentemente dos inesperados e
das incertezas da vida."
-"Por que ela não te dá muito trabalho? Por acaso
ela não corre os riscos normais de qualquer pessoa que vive
nesta cidade maluca?"
-"Pelo contrário. Acho até que ela abusa um
pouco da sorte. Chego a desconfiar que, por ser como é, ela
tem uma supervisão extra do Estado Maior."
-"E essa tua protegida, está contigo há muito tempo?"
-"45 anos, para ser exato".
-"E como ela se chama?"
-"Rainha. Ela se chama Rainha."
-"Rainha?"
-"É, Rainha. Afinal, tu também és um
anjo e anjos falam latim, não falam? O nome é Regina.
É isso aí: o nome dela é Rainha."
(11
de janeiro de 2002 - aniversário de 57 anos)

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