Ah! F l Ô
Puxa, Flô,
como você tá mudada! Saiu daqui faz cinco anos, meio
jeca, de trancinhas, vestido de chita, santinha, virgem. "Vou
estudar na cidade", você dizia, "num colégio
grande, e depois fazer faculdade, vou ser doutora".
E lá se foi num ônibus
fumarento, em companhia daquela sua tia bonitona que chamava a
atenção de toda a cidade quando usava aqueles vestidos
que cobriam quase nada. E eu fiquei por aqui mesmo, desiludido,
desalentado, vendo a paixão da minha adolescência
sumir na poeira da estrada.
Flô, você era branquinha e frágil que nem porcelana.
Olhe só agora, você tá toda morena da testa
ao dedinho do pé. E que baita morena você ficou!
Onde foi que você fez tanta ginástica e como foi
que tomou tanto sol?
Seu nome naqueles tempos era só Flô. Todo mundo lhe
chamava assim e você gostava desse nome curtinho que nos
lembrava violetas, margaridas, rosas. Você cheirava a rosas,
Flô. Agora você cheira a perfume caro, só atende
por Florinda e faz questão até do sobrenome emprestado
quando trata com as pessoas mais humildes. Que pena, Flô!
Você não era de muita conversa, lembra? Era toda
tímida e chegava a ser matuta com os estranhos que apareciam
por aqui. Mal respondia às perguntas das pessoas e vivia
olhando pra baixo como se estivesse sempre examinando os sapatos.
Agora, tá toda falante e risonha, encarando com todos,
postura altaneira, orgulhosa. Que diferença, Flô!
Não sei quanto foi que você estudou, se fez faculdade
mesmo, se tem doutora no nome. Só sei que ouço você
falando um monte de coisas em inglês e francês. Até
nome feio. Logo você que corava só de pisar no estrume
da vaca. Que progresso, Flô!
Nossa, Flô, você tá até fumando! E bebendo
uísque! Tá usando uns sapatos modernos com saltos
bem altos. Deixam você muito elegante. Suas pernas ficam
ainda mais bonitas principalmente quando você coloca aqueles
vestidos bem curtinhos. Sabe, Flô, acho que você mudou
tanto que ficou parecida com aquelas moças que aparecem
sempre na capa das revistas lá na banca da rodoviária.
Você tá bonitona, Flô. Muito mais que aquela
sua tia.
O
engraçado dessa minha conversa é que eu fico aqui
sentado debaixo desta figueira velha falando comigo mesmo enquanto
você fica aí passando de um lado para o outro, mostrando
esta sua ginga que ninguém por aqui conhecia e fazendo
de conta que não me vê.
Eu já entendi o seu recado, viu? Você é passarinho
que voou muito e perdeu o interesse pelo meu alpiste. Não
faz mal não, menina. Sei que pertenço ao seu passado
e juro que não vou atrapalhar o seu presente nem o seu
futuro. Só quero que você continue por aqui a mostrar
suas qualidades. Se não for pedir muito, ficaria feliz
com um sorriso seu de vez em quando. Assim, uma vez ou outra.
Ah, Flô, mas você tá uma lindeza!