Diálogo e Entendimento

Ainda com pouca
idade, aprendemos a usar esta palavra e, daí para a frente,
ela nos acompanha pelo resto da vida. Na escola fundamental, dizemos
que nossos professores (com raras exceções) não
permitem um diálogo e, em casa, da mesma forma, nossos pais
(também com raras exceções) não sabem
estabelecer um diálogo conosco para entender melhor nossos
terríveis problemas.
Adolescentes, enfrentamos nossas agudas crises amorosas reclamando
que aquela garota linda e maravilhosa não quer nenhum diálogo
com a gente. Agora, aquela outra feiosinha de óculos é
vidrada num papo altamente intelectual. Depois, quando casamos, muitas
vezes a coisa não dá certo e lá vem a mesma explicação:
com a Jandira nunca houve diálogo! Se geramos filhos, um novo
ciclo se inicia. E lá vem a falta de diálogo outra vez!
Mas, afinal, o que precisamos para viabilizar um diálogo?
Se partirmos da premissa de que dialogar significa manter entendimento,
estabelecer comunicação com vista à solução
de problemas comuns entre pessoas (Aurélio), fica claro que,
ao falarmos de diálogo, sempre estaremos falando de estabelecer
um vínculo interpessoal.
Entretanto, um vínculo interpessoal só nasce e se consolida
quando baseado em atitudes de respeito mútuo de compreensão
do direito que cada indivíduo tem de pensar e sentir diferentemente
dos demais.
Quando nos esquecemos
disso nos tornamos incapazes de estabelecer qualquer diálogo.
Dialogar pressupõe possibilidades de dissenso e de consenso.
A falta de consenso não precisa significar ruptura de relações
ou afastamento das pessoas. Temos a necessidade natural da comunicação,
queremos que as outras pessoas se comuniquem conosco mas temos sérias
dificuldades em manejar nossas relações interpessoais.
Geralmente achamos que estamos fazendo o melhor nessa área
o que nos leva a um desequilíbrio entre a nossa necessidade
de comunicação e os meios que utilizamos para isso.
Nelson Pilosof, filósofo, jornalista e pensador uruguaio escreveu
que diferenças ideológicas, num contexto de falta de
diálogo, conduzem quase sempre ao confronto porque as idéias
passam a funcionar como abismos que distanciam e não como pontes
que aproximam. Desta forma, o que era colega ou parceiro pode passar
a ser adversário ou mesmo inimigo.
Qual é o objetivo por trás de uma campanha ideológica?
Que as demais pessoas adotem a ideologia em campanha. Mas isso jamais
será conseguido pela imposição pois esta não
é capaz de convencer, de gerar adesão. Pelo contrário,
a imposição gera a resistência, como mostra a
nossa própria história. Normalmente, o que gera a adesão
de pessoas a partidos ou grupos políticos ou mesmo a simples
idéias, condutas ou comportamentos é a persuasão
e é este o caminho usado em quase todas as campanhas políticas
ou ideológicas e nas ações visando mudar atitudes
ou comportamentos. Adesão poucas vezes significa entendimento
genuíno e franco. Pode significar desistência, entrega,
capitulação, sujeição, rendição.
Nem sempre adesão quer dizer convencimento.
O entendimento genuíno e franco por qualquer pessoa ou qualquer
comunidade se alicerça tão somente na convivência
aberta, onde não há predomínio desta ou daquela
concepção mas um equilíbrio racional entre uma
pluralidade de concepções, de perspectivas, de pontos
de vista. O entendimento só acontece quando as pessoas têm
a oportunidade de se comunicar abertamente, sem qualquer policiamento,
sem censuras, quando todos ouvem e todos podem falar, mesmo que não
tenham muito a dizer.
Arnaldo
Pereira Ribeiro
(dez/2000)