Saí de casa com a decisão tomada. Nada me faria mudar os planos que eu havia traçado desde a semana anterior. Era hoje ou nunca. O grande dia havia chegado e todos iriam ver com quem estavam lidando.

Desci a rua com passos firmes de quem tinha uma missão a cumprir e estava determinado a fazê-lo. Na minha mente, desfilavam as mais estranhas imagens, como que numa antevisão do que estava para acontecer. Mas eu não tinha medo ou, pelo menos, tentava me convencer disso, repetindo para mim mesmo: "não perca a coragem, tudo vai dar certo, você vai conseguir".

Em quinze minutos eu estava chegando. A rua era revestida de paralelepípedos mas havia muitos buracos, alguns ainda cheios de lama originada pela chuva da noite anterior. A limpeza pública ignorava o local e havia muito lixo acumulado junto aos muros.

O prédio era uma velha construção de alvenaria e parecia não ter proprietário, tendo em vista o seu estado de abandono. O revestimento original havia caído em vários trechos, deixando à vista os tijolos que estavam cobertos de musgo. Em algumas partes ainda se podiam ver antigas pichações.

Cruzei pelo portão enferrujado, que protestou com um longo e agudo gemido ao ser aberto, e atravessei o pátio frontal, correndo agachado para não ser visto por ninguém. Parei frente a uma grande porta de madeira maciça que empurrei com o ombro para poder passar meu corpo. À minha frente havia uma carcomida escada de madeira que fui descendo com o máximo cuidado enquanto os velhos degraus rangiam ao meu peso.

A escada levava a um grande salão que parecia ser a parte principal do prédio. Fiquei ali parado, sem saber que direção tomar e sentindo o bater acelerado do meu coração. A tarde já chegava ao fim, ameaçava chover novamente e a noite se avizinhava. A sirene de um carro da polícia se fez ouvir ao longe. Pensei, por um momento, que alguém poderia ter visto minha entrada no prédio. Mas não havia vivalma por ali, ou parecia não haver. Confesso que me assustei quando uma grande ratazana passou entre minhas pernas e subiu, aos saltos, a escada atrás de mim. Seria capaz de apostar que haviam morcegos ali dentro.

Arrisquei mais um pouco e entrei no salão. Um cheiro muito forte e desagradável tomava conta do ambiente e o ar era quase irrespirável.Fiquei ouvindo o gotejar monótono de uma torneira. Devia estar pingando há muito tempo. Andei uns quatro passos e parei. Havia teias de aranha por ali e algumas se enredaram em minha cabeça. Andei mais um pouco e tornei a parar, outra vez assustado.

Meu pé direito esbarrara em alguma coisa comprida e esbranquiçada que eu não conseguia identificar na penumbra. Abaixei-me e apalpei. Era frio e rígido. Tirei minha pequena lanterna do bolso da calça e apontei o facho luminoso para o chão. Era mesmo um braço. Olhei em volta e vi mais um, logo adiante. Algumas mãos, igualmente frias e rígidas, estavam dentro de uma caixa de papelão enquanto outras haviam sido deixadas no chão, espalhadas em torno da mesma caixa.

Continuei a caminhar, agora com mais pressa e com a ajuda da lanterna. Aquele salão parecia ter sido atingido por um terremoto. Havia muitas cadeiras tombadas, armários quebrados e fios elétricos soltos pelas paredes sujas. Pisei numa poça de água fétida e contornei uma mesa grande. Debaixo dela, havia muitas caixas, um serrote, um cutelo e outras ferramentas. O chão, em volta da mesa, estava todo coberto por trapos que pareciam restos de roupas rasgadas. Algumas manchas vermelhas salpicavam a mesa e os trapos no chão, como se fossem borrões de tinta.

Continuei minha exploração do salão, num misto de curiosidade e medo. Ainda não estava satisfeito porque queria conhecer muito mais daquele local. Cheguei à porta dos fundos e percebi, na fraca claridade provocada pela minha lanterna e pela pouca luz que a porta entreaberta deixava passar, duas cabeças que jaziam no chão e pareciam me fitar com aquele olhar morto. Saí para o pátio externo e quase tropecei num tronco sem braços nem pernas e com a cabeça retorcida.

Naquele mesmo momento, ouvi vozes e risadas vindas do salão e resolvi optar pela retirada. Contornei o prédio em direção ao portão de entrada, saí para a rua e comecei a correr, sem olhar para trás, até atingir uma distância segura. Voltei pelo mesmo caminho, com passos largos mas preocupado em não despertar suspeitas. Não queria que alguém descobrisse alguma coisa antes que eu contasse o que fizera.

Ninguém iria me acreditar, com certeza. Todos para quem eu contasse iriam rir de mim e dizer que eu inventava histórias. Estava já curioso para saber quem teria coragem de repetir o que eu havia feito. Só queria ver a cara do "seu" Francisco, o dono do armazém da esquina. Ele vivia contando façanhas de seus tempos de adolescente lá na Espanha, quando corria dos touros na rua. O chato do filho dele não era capaz de entrar no cemitério, medroso que era. Agora ele teria que ouvir a minha façanha. A filha da Dona Cecília costureira, aquela garota bonitinha e de nariz empinado que virava o rosto quando eu passava por ela, ia querer falar comigo depois de saber o que eu fizera.

Eu estava excitado pois era um garoto curioso e, acima de tudo, muito valente.
E era desobediente também. Afinal de contas, minha mãe me fizera prometer nunca entrar naquela fábrica de manequins abandonada.

 

Arnaldo Ribeiro
jun/1991