
DAQUELA
ÉPOCA
(Arnaldo
P. Ribeiro)
Não, não nasci naquela época. Felizmente,
sou mais antigo. Por outro lado, e também felizmente, tive
o privilégio de adolescer nos anos 50 e, melhor ainda, de adquirir
os direitos de propriedade de meu nariz nos anos 60. Pessoas da minha
idade (que hoje são classificadas de "coroas") são
vezeiras em relembrar as coisas boas de que desfrutaram naqueles tempos.
O irônico é que algumas dessas coisas boas são
hoje peças de museu. Pior, viraram referência de antigüidade
para aqueles engraçadinhos que não perdem a mania de
perguntar: "Mas você é daquela época?".
Muitas coisas "daquela época" são assuntos
clássicos em rodas de aposentados, como a máquina de
escrever mecânica e o mimeógrafo (quem se lembra da cópia
estêncil?). A primeira sempre exigiu uma qualificação
datilográfica preliminar. O diploma de datilógrafa era
o primeiro desafio a ser vencido pela mocinha que sonhava ser uma
secretária executiva. Enquanto isso, grandes vultos da literatura
continuavam usando tão somente os dois indicadores para gerar
suas obras de arte. E pouca gente saberia dizer o que era uma tenossinuvite.
Tenho um primo mais velho que já carregava uma gorda pasta
de couro enquanto eu jogava bolinha de gude com a molecada da vizinhança.
Era uma daquelas pastas com várias divisões internas
onde pareciam caber todos os papeis do mundo e que pesavam uma tonelada.
As chamadas pastas tipo 007 ainda eram coisa de cinema e somente os
privilegiados turistas endinheirados (além do James Bond) é
que podiam ostentar tais excentricidades ou modernismos. Além
disso, como diria o meu primo, ali dentro não cabia nada.
Um conhecido meu, em sua primeira viagem ao exterior, não resistiu
à tentação consumista e ao apelo da inovação
tecnológica: comprou uma calculadora portátil. Era uma
belezinha: pesava uns 300 gramas, cabia no bolso da capa de chuva
e, maravilha das maravilhas, fazia todas as quatro operações
e tinha memória! Infelizmente, não extraia a raiz quadrada
diretamente mas o manual ensinava uma interessante sequência
de cálculos que permitiria obter uma raiz quadrada com quatro
casas decimais em cerca de uns 2 minutos (com a ajuda do dito manual,
é claro!). E tudo isso era possível com apenas quatro
pilhas alcalinas (muito fáceis de encontrar, na época,
em Nova Iorque) suficientes para garantir uma operação
normal durante o inacreditável período de 15 horas.
Eu tive várias canetas tinteiros. Algumas eram muito bonitas,
com tampa dourada e clipe em forma de flecha, lembram? Qualquer rapazola
que quisesse escrever com classe tinha que ter uma! Às vezes
vazavam no bolso do paletó mas o surgimento da tinta lavável
resolveu eventuais contratempos. Nada que água e sabão
não resolvessem. Canetas esferográficas eram uma grande
novidade mas também vazavam no bolso e, desgraças maiores,
a mancha da tinta não saía nunca mais e seu uso estragava
a letra da gente (quem se lembra das aulas de caligrafia?).
Lapiseiras haviam algumas mas apenas para desenho técnico.
Só fui escrever com grafite 0,5 mm depois de formado. O velho
lápis me acompanhou do primário à universidade.
Apontadores de lápis nem elétricos eram: havia que rodar
a manivela com habilidade pois obter uma ponta caprichada era coisa
de muita prática! Revistas eram mensais e os jornais diários
manchavam nossas mãos. Havia sempre uma guerra importante nas
manchetes mas a televisão não a mostrava ao vivo nem
em cores. Minha geração não morreu na guerra
mas vivíamos sempre ameaçados de virar pó-de-
traque pelos falcões americanos e soviéticos. Ouvíamos
histórias de gente rica que tinha abrigo subterrâneo
em casa para a hipótese de uma hecatombe nuclear. Mas, lá
no fundo, não acreditávamos em nada daquilo. Já
naquela época, nem Nostradamus nos merecia algum crédito.
Éramos todos sonhadores,
românticos e, acima de tudo, muito otimistas para acreditar
em fim do mundo. E conseguíamos viver felizes sem TV a cabo,
sem Internet, sem CDs, sem fio-dental, sem trocar palavrões
com as garotas e sem dormir com as namoradas (elas eram deixadas religiosamente
no portão e a despedida era um beijo de boa noite que dificilmente
explodiria num arroubo de paixão desenfreada eis que mamãe
aguardava implacável na porta de entrada com as chaves na mão).
Quanta emoção produzia um beijo daqueles!
Ah, os anos 60 de tantas coisas já obsoletas. De tantas coisas
que são hoje peças de museu. De tantas outras que persistem
na saudade dos mais velhos e na curiosidade dos mais jovens. Do rock'n
roll, da bossa nova, do long-play, da eletrola, do gravador de rolo,
do cinemascope, da Brigitte e da Marylin, da vida acadêmica,
da esquerda festiva, do gin-tônica, dos bondes, da sensualidade
implícita e das camisinhas compradas com a maior discrição
na farmácia do bairro, tão somente para fins anti-concepcionais.
Tantas coisas distantes na memória. Tantas coisas que eram
a "curtição" da moçada (naquela época
a gente não "curtia", a gente "se amarrava").
Não me levem a mal. Não se trata de nostalgia barata.
Hoje eu "me amarro" nas maravilhas hodiernas. Acontece que
fiquei dono do meu nariz naquela época. E que época
bacana foi aquela para se ficar dono do próprio nariz!
Arnaldo P. RibeiroŽ
setembro de 1999
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