Mas o que você ainda não percebeu (mas não se preocupe
porque a maioria das pessoas também não percebe) é
que esta sensação de passar por otário é
plenamente procedente. Veja só: você não recebeu
o serviço no prazo prometido, com a completeza solicitada e dentro
do custo esperado. De quebra, engoliu uma explicação muito
bem ensaiada mas pouco esclarecedora. Em conseqüência, saiu
do estabelecimento prestador do serviço sentindo-se mal.
Porém, e inexplicavelmente, seu carro ostenta agora um novo adesivo
no vidro traseiro. E este adesivo está fazendo a divulgação
comercial (e gratuita!) de quem? Ora, do responsável por seu
mal estar! E você nem percebeu a ironia da coisa porque é
bem possível que você seja um daqueles que considera adesivos
nos vidros dos automóveis como banalidades que ninguém
leva muito a sério, não é verdade?
Pois saiba que, para muitos de nós, vidros de automóveis
são assim como uma "vitrina do ego" embora para muitos
outros também sejam uma "janela do coração"
ou um "escudo da cidadania". O brasileiro, em geral, não
cultiva o hábito de se manifestar individualmente em praça
pública devido ao justo receio de ser tomado por louco ou por
candidato alternativo a qualquer coisa. Usamos, então, os vidros
de nossos carros para manifestações livres desde que,
é claro, elas não desrespeitem as leis vigentes.
Essas manifestações se fazem na forma de adesivos de vários
tipos. Há os que grudam e desgrudam sem maiores conseqüências
mas há também aqueles dos quais só nos livramos
quando vendemos o carro (ou quando este é roubado, hipótese
mais provável). Estes últimos eram conhecidos, no extinto
milênio, como decalcomanias (coisa que minha saudosa professora
de português chamaria de galicismo).
Manifestamos, por exemplo, através desses adesivos, a nossa cultura
universitária adquirida no País ou no exterior (especialmente
lá). Seja qual for a igreja freqüentada, manifestamos da
mesma forma nossa inabalável fé e nossa mais profunda
religiosidade (embora nossas reações algumas vezes decepcionem
quem amassa nosso pára-choques traseiro). Também manifestamos
nossa presumida valentia com adesivos de academias de caratê,
de corporações policiais ou de fabricantes de armas. Há
certas manifestações bem mais ameaçadoras e violentas
mas essas, felizmente, são feitas quase sempre em inglês
de maneira que você não é obrigado a entender a
não ser que queira demonstrar sua cultura e sua estupidez, ambas
ao mesmo tempo.
Mas é verdade que também existem manifestações
de apoio a diversas profissões que buscam combater os inúmeros
falsos profissionais e "curiosos" que pululam por aí
(consulte sempre um profissional habilitado). Mas é verdade
que também existem manifestações sinceras e recheadas
de boas intenções, como aconteceu na campanha pelas eleições
diretas (você certamente ainda lembra do "Quero votar prá
Presidente") ou na campanha pela preservação da Mata
Atlântica (o mapa do Brasil sem verde, lembra?). E, ao lembrar
das eleições, lembre também de outras manifestações
políticas em favor de uns, em favor de outros ou contra todos.
Já fomos conclamados a votar em um monte de gente que ficou de
fazer mas não fez e em um outro tanto que fez o que não
deveria fazer. Tentaram nos convencer a alterar a grafia de pallavras
(queira desculpar pela lembrança) mas também tentaram
obrigar certos políticos a trabalhar (convidando-nos, é
claro, a não votar neles).
Mais recentemente, cidadãos de certas comunidades manifestaram
ter vergonha de seus vereadores. Outros estão denunciando a violência
urbana e pedindo socorro silenciosamente. Já outras pessoas preferem
confessar que amam a metrópole onde vivem e trabalham ou a cidadezinha
do interior para onde fogem nos fins de semana ou declarar que adoram
a esposa ou até mesmo a sogra, por que não? São
manifestações cidadãs, democráticas, expontâneas,
sinceras na sua maioria, humanas todas.
O que deveria levar você, caro leitor, a considerar o vidro do
seu carro como um espaço precioso. Um espaço destinado
a manifestações verdadeiras, que brotam do coração,
como aquelas dos torcedores de clubes de futebol. Embora seus adesivos
apareçam muito mais na fase das vitórias, faço
justiça às torcidas brasileiras homenageando a torcida
do glorioso "colorado" de Porto Alegre que, numa época
de triste lembrança em que o Grêmio ganhava todas, colocava
no vidro do carro esta dolorida porém sincera manifestação:
" Inter, tu não prestas mas eu te amo!"
Por tudo isso, caro leitor, você deveria pegar o primeiro retorno,
voltar à tal oficina e exigir a inapelável remoção
daquele insolente adesivo do seu vidro traseiro. Desserviço?
Tudo bem. Você foi apenas mais um cliente mal atendido e, na próxima
vez, tentará outra oficina. Arrogância? Aí é
ruim, não é mesmo? Isso você não precisa
levar para casa e, muito menos, não deve exibir em lugar nenhum!
Arnaldo P. RibeiroŽ
maio
de 1999
(*) Arnaldo Pereira
Ribeiro é engenheiro metalúrgico pela UFRGS e
especialista em Qualidade.
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