A d e s i v o s


O distinto leitor passa pela oficina para retirar hoje o carro que lhe foi prometido para anteontem. Verifica, então, que algumas das coisas que pediu para serem feitas na revisão simplesmente foram esquecidas mas resolve deixá-las para outra vez. Afinal de contas, você é apenas mais um cliente mal atendido e o seu carro é uma primeira necessidade nesta terra onde a qualidade está longe de ser atributo do transporte coletivo.

 

Para completar o seu dia, a nota fiscal da mesma oficina leva à constatação imediata de que a próxima fatura do seu cartão de crédito será dramaticamente maior do que você esperava. Começa a achar que está sendo assaltado à mão desarmada quando a garota bonita e bem vestida chega para esclarecer as possíveis dúvidas que iluminam seu rosto de vermelho como se você fosse um comercial vivo de molho de tomate.


A explicação, recheada de perfume e simpatia, deixa você mais calmo, digamos resignado, mas ainda nada convencido. A nova sensação, ao sair da oficina dirigindo o seu possante, é a de ter sido enganado. Suas orelhas começam a arder e você passa a se sentir como um idiota por ter sido neutralizado tão facilmente por uma garota que mal completou o segundo grau. O que um bom treinamento não é capaz de fazer, não é mesmo?


Mas o que você ainda não percebeu (mas não se preocupe porque a maioria das pessoas também não percebe) é que esta sensação de passar por otário é plenamente procedente. Veja só: você não recebeu o serviço no prazo prometido, com a completeza solicitada e dentro do custo esperado. De quebra, engoliu uma explicação muito bem ensaiada mas pouco esclarecedora. Em conseqüência, saiu do estabelecimento prestador do serviço sentindo-se mal.


Porém, e inexplicavelmente, seu carro ostenta agora um novo adesivo no vidro traseiro. E este adesivo está fazendo a divulgação comercial (e gratuita!) de quem? Ora, do responsável por seu mal estar! E você nem percebeu a ironia da coisa porque é bem possível que você seja um daqueles que considera adesivos nos vidros dos automóveis como banalidades que ninguém leva muito a sério, não é verdade?


Pois saiba que, para muitos de nós, vidros de automóveis são assim como uma "vitrina do ego" embora para muitos outros também sejam uma "janela do coração" ou um "escudo da cidadania". O brasileiro, em geral, não cultiva o hábito de se manifestar individualmente em praça pública devido ao justo receio de ser tomado por louco ou por candidato alternativo a qualquer coisa. Usamos, então, os vidros de nossos carros para manifestações livres desde que, é claro, elas não desrespeitem as leis vigentes.


Essas manifestações se fazem na forma de adesivos de vários tipos. Há os que grudam e desgrudam sem maiores conseqüências mas há também aqueles dos quais só nos livramos quando vendemos o carro (ou quando este é roubado, hipótese mais provável). Estes últimos eram conhecidos, no extinto milênio, como decalcomanias (coisa que minha saudosa professora de português chamaria de galicismo).


Manifestamos, por exemplo, através desses adesivos, a nossa cultura universitária adquirida no País ou no exterior (especialmente lá). Seja qual for a igreja freqüentada, manifestamos da mesma forma nossa inabalável fé e nossa mais profunda religiosidade (embora nossas reações algumas vezes decepcionem quem amassa nosso pára-choques traseiro). Também manifestamos nossa presumida valentia com adesivos de academias de caratê, de corporações policiais ou de fabricantes de armas. Há certas manifestações bem mais ameaçadoras e violentas mas essas, felizmente, são feitas quase sempre em inglês de maneira que você não é obrigado a entender a não ser que queira demonstrar sua cultura e sua estupidez, ambas ao mesmo tempo.


Mas é verdade que também existem manifestações de apoio a diversas profissões que buscam combater os inúmeros falsos profissionais e "curiosos" que pululam por aí (consulte sempre um profissional habilitado). Mas é verdade que também existem manifestações sinceras e recheadas de boas intenções, como aconteceu na campanha pelas eleições diretas (você certamente ainda lembra do "Quero votar prá Presidente") ou na campanha pela preservação da Mata Atlântica (o mapa do Brasil sem verde, lembra?). E, ao lembrar das eleições, lembre também de outras manifestações políticas em favor de uns, em favor de outros ou contra todos. Já fomos conclamados a votar em um monte de gente que ficou de fazer mas não fez e em um outro tanto que fez o que não deveria fazer. Tentaram nos convencer a alterar a grafia de pallavras (queira desculpar pela lembrança) mas também tentaram obrigar certos políticos a trabalhar (convidando-nos, é claro, a não votar neles).


Mais recentemente, cidadãos de certas comunidades manifestaram ter vergonha de seus vereadores. Outros estão denunciando a violência urbana e pedindo socorro silenciosamente. Já outras pessoas preferem confessar que amam a metrópole onde vivem e trabalham ou a cidadezinha do interior para onde fogem nos fins de semana ou declarar que adoram a esposa ou até mesmo a sogra, por que não? São manifestações cidadãs, democráticas, expontâneas, sinceras na sua maioria, humanas todas.


O que deveria levar você, caro leitor, a considerar o vidro do seu carro como um espaço precioso. Um espaço destinado a manifestações verdadeiras, que brotam do coração, como aquelas dos torcedores de clubes de futebol. Embora seus adesivos apareçam muito mais na fase das vitórias, faço justiça às torcidas brasileiras homenageando a torcida do glorioso "colorado" de Porto Alegre que, numa época de triste lembrança em que o Grêmio ganhava todas, colocava no vidro do carro esta dolorida porém sincera manifestação: " Inter, tu não prestas mas eu te amo!"


Por tudo isso, caro leitor, você deveria pegar o primeiro retorno, voltar à tal oficina e exigir a inapelável remoção daquele insolente adesivo do seu vidro traseiro. Desserviço? Tudo bem. Você foi apenas mais um cliente mal atendido e, na próxima vez, tentará outra oficina. Arrogância? Aí é ruim, não é mesmo? Isso você não precisa levar para casa e, muito menos, não deve exibir em lugar nenhum!

 

Arnaldo P. RibeiroŽ

 maio de 1999

 

(*) Arnaldo Pereira Ribeiro é engenheiro metalúrgico pela UFRGS e especialista em Qualidade.

 

 

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