Um simples abraço
O amigo era mesmo muito feio. Aliás, sempre foi. Claro que ele estava considerando a sua aparência física comparada aos padrões de beleza masculina normalmente aceitos como tal. Sua beleza interior era inquestionável, como geralmente acontece nesses casos.Não lembrava seu nome de batismo pois todos o chamavam de Frank, simplificação do apelido com que era conhecido por toda a escola: Frankenstein. Os professores tentavam chamá-lo pelo sobrenome o qual, embora de difícil pronúncia, permitia ao corpo docente evitar maiores constrangimentos. Os colegas, por outro lado, faziam questão de chamá-lo pelo apelido embora, depois de algum tempo, já o tivessem reduzido para Frank, o que tornava tudo mais fácil. Eliminado o fator constrangimento, até Dona Sinvalda, a professora de português, aderiu ao Frank.
O encontro com Frank foi acidental no aeroporto quando ambos esperavam para embarcar. Depois de uma penca de anos, perguntas do tipo "e a família?" são naturais. No mais perfeito "porto-alegrês", o amigo respondeu: - Não tenho, não me casei. Tu sabes, né tchê, eu sou muito feio. Aliás, sempre fui. Deves ainda lembrar como as gurias da turma mudavam de assunto ou mesmo fugiam quando eu insinuava um namoro. Desta forma, morei com meus pais enquanto eles viveram e tenho vivido solito no más desde que os velhos se foram. Nunca me dei muito bem com o resto da família, se tu te lembras.
Ele argumentou que viver sozinho não é bom para ninguém, que precisamos de calor humano em nossa volta, que o amigo ainda era moço e saudável e poderia arrumar uma companheira para alegrar sua casa, dividir sua cama e sua mesa, ir ao cinema, passear de mãos dadas ou conversar em volta de uma boa garrafa de vinho. Que são coisas assim que adicionam qualidade às nossas vidas. O amigo o contemplava sorridente enquanto ele falava e esperou que terminasse para perguntar, também sorridente: - Tá bom, tá bom, me abri pro discurso, tchê. Mas conta aqui pro amigo velho qual a peça rara do mulherio que vai se interessar
por um cara feio desse jeito?
Achou que a auto estima do Frank estava muito lá em baixo e protestou dizendo que ele não era assim tão feio nem era o único sujeito feio que ambos conheciam. Discorreu ainda sobre sujeitos famosos e sobre pessoas que venceram na vida apesar de não serem primores estéticos. Lembrou-o dos políticos que são vistos quase todos os dias nos jornais e na televisão, entre os quais há muitos feios. - Engano teu, tchê! Observa bem como eleição favorece o visual. Uma plástica aqui, um "lifting" ali, uma lipo acolá, um cabeleireiro famoso, um alfaiate careiro, não há eleito que não melhore. Ao seu protesto pelo exagero, o amigo cedeu: - Pode ser. Pode ser. Alguns políticos continuam horríveis mesmo depois de eleitos.
Sugeriu, então, esquecer os políticos e voltar ao mundo real. Argumentou que quando se trata de qualidade, alguns conceitos como aspecto visual podem variar de uma pessoa para outra e que tem muita mulher achando que certas coisas muito feias são, ao mesmo tempo, boas e gostosas.
- Por acaso tu tá falando de morcilha frita, jaca madura, churra de testículos, essas coisas? Ou tu tá falando de que?
Explicou que estava falando de aspectos físicos, de detalhes anatômicos, de pessoas. Disse-lhe que gente feia estava na moda. Que havia lido sobre mulheres famosas se manifestando sobre a anatomia masculina e salientando como certos detalhes feios podem ser gostosos.
- Mas bá, tchê, essa tua conversa tá ficando pra lá de esquisita. Todo caso, se pintar alguma guria que possa se interessar por um bicho fora de esquadro como eu, guarda aí este cartão com meu telefone. Quem sabe eu desencanto e começo a explorar esse negócio de feio gostoso. Mas presta atenção na cabeça da mina. Feiúra pode até ser gostosa mas burrice é outro departamento.
E com um "então tá", o amigo se despediu e sumiu na multidão de passageiros. Ele saiu andando em direção à sua sala de embarque sentindo-se um perfeito idiota. Encontrara alguém que não via há muitos anos e tudo o que conseguira fazer fora dar uma de conselheiro a quem não pediu conselhos e, ainda por cima, transmitir a impressão de ser uma espécie de "tia casamenteira". Tentara, também, convencer o antigo amigo de que valia a pena ser feio numa sociedade que só valoriza a beleza.
Chegou à dura conclusão de que ele próprio era uma pessoa feia, horrível, monstruosa até. Era como muitas outras pessoas que parecem existir apenas para subtrair qualidade da vida de parentes, amigos e conhecidos. Que são incapazes de manter uma conversação interessante, divertida. Que sempre estão municiadas com exemplos inoportunos, experiências mentirosas ou conselhos hipócritas como resposta a uma confidência ou a uma simples revelação.
Teria sido tão mais fácil e amistoso, para não dizer humano, um simples abraço no amigo e alguns minutos de nostalgia onde as lembranças dos tempos divertidos da escola seriam saboreadas enquanto tomassem um café.
jun/2000