* Ilda 86 anos e Noris 95 anos: apaixonados por relógios e pela coleção de corujas *

 

 

 

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Recebi lindos presentes de minha querida amiga Ilda Tambara e sua família

e, junto com minhas novas corujas, tive a oportunidade de ler

uma entrevista com este casal maravilhoso e pensei

que gostariam de saber um pouco mais dessa minha amiga tão especial.

Regina Ribeiro

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JORNAL DA CIDADE - BAURU

Bauru, quarta-feira 20 de junho de 2007 - n° 13.580

(Daiana Dalfito)


Ilda e Noris Tambara, cujas idades somadas chegam a 181 anos, testemunharam o crescimento da área central


          É fácil ouvir dizer que, mesmo após muito anos, não se conhece totalmente “aquele amor”, “aquele companheiro”. Mas após 60 anos de casamento, dona Ilda e “seo” Noris Tambara podem dizer que têm história para contar. Histórias de suas vidas que acabam por se confundir com os traços de Bauru. O casal é quase um guardião do Centro de Bauru, viu o Calçadão da Batista de Carvalho se desenvolver, se transformar. Juntos, somam 181 anos vividos.
          Numa casa de paredes externas azuis, encontro o senhor de 95 anos a olhar com paciência a rua Angenor Meira. ‘Seo’ Noris chegou àquela casa engatinhando e, ao ver a rua, seus olhos se enchem de lágrimas. “Era tudo diferente, essas ruas eram movimentadas e alegres. Se ouviam pianos nesta, naquela e naquela outra casa. O Centro era mais vivo que hoje”, recorda.
          Lúcido e cativante, ele conta com precisão sobre as experiências de sua juventude e aponta fatos históricos. Ele lembra, por exemplo, de quando a rua Batista de Carvalho começou a ser calçada. “Foi em 1924, antes isso era tudo terra”, aponta e pedindo à bisneta que alcance uma das fotos na parede, provando o dito. A foto traz a imagem de uma casa “Relojoaria Tambara – Casa de Jóias” e a inscrição a lápis “1915”.
          O pai de ‘seo’ Noris era de Verona, na Itália, e veio ao Brasil em busca de uma nova vida, em 1904. O italiano Albino Tambara, depois de servir o Exército, abriu a primeira relojoaria da cidade, que levava seu nome.
          Os Tambara ainda têm na bagagem a responsabilidade pela primeira ótica de Bauru. ‘Seo’ Noris seguiu a profissão do pai: “Ele ouvia o sino do colégio e eu tinha de correr para casa e ajudar no balcão”, esclarece. O senhor, apaixonado por relógios, trabalhou até seus 86 anos.
 

* Noris 95 anos e Ilda 86 anos, contam que ouviam o som de piano na Batista Carvalho *

 

Corujas


          As corujas sempre povoaram a vida de dona Ilda. Quando criança, no sertão de Pernambuco, a conterrânea do presidente Lula, brincava com “bichinhos do mato” pelas matas de Garanhuns. “Eu sempre tive simpatia pelas corujas”, afirma. Desde que entrei na casa de dona Ilda e ‘seo’ Noris, reparei nas coleções: muitas plantas na pequena área antes da porta principal, elefantes, relógios, fotografias e, acaso do destino ou não, me chamou a atenção uma porta com uma imagem de uma coruja.
          Ali, atrás daquela porta, estão guardadas muitas, de todos os tamanhos e materiais: corujas, corujas e mais corujas, que cedem pequenos espaços a cédulas, moedas e tesouras antigas.
          Os olhos de dona Ilda brilham em meio as cerca de 4 mil aves. Antes de deixar a sala, dona Ilda me aponta a foto de uma das suas últimas corujas vivas. “Esta foi a última de que cuidei. Ela veio com um problema na asa, passou alguns meses voando pela casa e depois foi entregue à natureza”, explicou.
 

Tic-tac do tempo


          A sala da casa de ‘seo’ Noris e dona Ilda é repleta de relógios que soam em sincronia: cucos brasileiros, relógios com precisão britânica e engrenagens alemãs em pêndulos e cordas. O relojoeiro por “herança” vai dizendo sem pressa que há tempos atrás o Calçadão era lugar da mais fina flor bauruense. “Eram cristais importados, vitrines com diamantes, ouro, tecidos finos. Cinemas aqui e ali na antiga Sociedade Italiana, efervescência”, acrescenta num sorriso franco a dona Ilda.
          Ela, esposa de ‘seo’ Noris há 60 anos, foi conquistada na relojoaria que ele viria a herdar. “Fui comprar uma lembrancinha e pouco mais de um ano depois estava ali, junto, atrás do balcão”, lembra ela. Na época, idos dos anos 40, Ilda tinha 22 e Noris, 34 anos. Ela vivia na Vila Independência e ele era violinista e, depois, trompetista da “Tambara e sua orquestra”.
          “O Nóris, meu cunhado e outros rapazes tocavam na Casa do Caboclo (esquina da Esequiel Ramos com a Angenor Meira – hoje apenas um galpão), na Rádio Club Bauru, no Automóvel Club, na inauguração do (hospital) Lauro de Souza Lima e nas (das paróquias) do Divino Espírito Santo, Santa Terezinha, Nossa Senhora Aparecida...” vai dizendo dona Ilda.
          “A gente saía dos bailes, das domingueiras depois das quatro da manhã e ia fazer serenata”, completa ‘seo’ Noris. Porém, ele diz que nunca fez uma “cantoria ao luar” para a namorada Ilda. Ela explica que, no início dos anos 40 os bairros da cidade eram “regrados” pelos bandos, espécies de grupos que defendiam seus territórios contra turmas de bairros vizinhos.
          A jovem Vila Independência era de domínio do “Bando da Coruja”, em 1945. Ninguém entrava ou saía sem o “aval” os “garotos” e, aquele que se arriscava, podia acabar dentro de um rio. Passado o namoro, consumado o casamento, dona Ilda passa a viver com o marido, os sogros e uma cunhada na casa onde os encontrei.   Hoje lá estão “sozinhos”, salvo o entra e sai de filha, netos, bisnetos... e eventuais corujas.

 

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