Por: Marlene Fortuna          

 


Abrem-se as portas do Teatro do Clube Paineiras do Morumbi.

Ao descer as escadas, sensações de estranheza nos envolvem: duas fileiras de mulheres vestidas de cinza e preto da cabeça aos pés, adormecidas em posição fetal, dão aos degraus um ar de inexplicável exotismo. Esta imagem começa a testemunhar o diferencial do espetáculo que vamos assistir.

Após o tradicional toque dos três sinais, a maravilha do que transmite o elenco de Arte in Cena se estampa a nossos olhos. Aureolando os quatro elementos primordiais: terra, fogo, água e ar, inicia-se "As Troianas", colocando o público, sensivelmente, entre as perdas, enganos e dores da cidade asiática de Tróia.

A tragédia grega do ano 415 a. C., escrita por Eurípides, traduzida por Sartre, encenada por Moisés Miastkwosky e revivida pela ebulição de heroínas trágicas remanescentes, quando todos os troianos foram dizimados pelos gregos, é digna de méritos sem conta. Mulheres fortes, em que pesem os lamentos, reivindicam a inteireza da cidade troiana por elas venerada, mas incendiada pelos gregos. De que serviu poupar as mulheres, se foram pelos gregos escravizadas? "As Troianas" não é uma alegoria ao vencedor, também não é uma alegoria ao vencido – este foi morto! A condição feminina de mulher – viúva e refém – toma por completo o universo cênico da trama.

Entre os sentimentos de dor e violência e a semântica de uma escritura que beira a perfeição, está as "mãos douradas" de um diretor que sabe ler para além das aparências, os meandros das sutilezas da clemência e do pavor.

Poseidon e Athena dão o toque inaugural. Depois, entre gritos e sussurros que eclodem da profundeza trágica das heroínas de Tróia, elas estampam indignação pela queda do reino perdido. Compactuamos juntos, elenco e público, momentos terríveis brotados poética e perturbadoramente da voz de Hécuba, Cassandra, Andrômaca e Helena. Os poucos homens, guerreiros fortes que existem, garantem o contraponto deste quaternário feminino.

Moisés apresenta em "As Troianas", requintes cinematográficos, plasmados na estetização inteligente de cada cena. Insanidade, paixão, ódio, insensatez, desmesura, piedade e desejos subterfugidos são todos sentimentos tratados com capacidade ímpar pelo diretor: signos verbais e emocionais simbiotizam-se, dirigindo-se, sem censura, à percepção aguçada da platéia. Aliás, o pensar dialoga com o sentir nas Troianas de Moisés.

A visceralidade do coro, fecunda o que há de mais sombrio nas fronteiras do humano: aqueles esgares são nossos esgares, aqueles "abortos" são nossos "abortos", aqueles abandonos são nossos abandonos, aliás, esta é uma das funções da tragédia: fazer ressoar no receptor as mesmas pulsões psíquicas construídas pelos tragediógrafos. O coro parece um furacão de horrores conquistado pelas transmutações mágicas do corpo e da voz tão apropriadamente trabalhados.

Músicas, pouco identificáveis pelo senso cognitivo comum, sucedem-se ao fundo, confundindo-se aos sons de onomatopéias que os ventos do mar mediterrâneo da longínqua Grécia se encarregam de transportar.

O receptor que, antes de iniciar o espetáculo permanece apenas sentado, mas que, alguns instantes depois, é magnetizado por um arrebatador movimento interno, vai caminhando perplexo ao decorrer do espetáculo, configurado pela fusão do cenário, da iluminação, dos figurinos, da maquiagem, da trilha sonora e do texto. Tudo implacabilizado nas interpretações dos atores. Atores e diretor atingem com o padrão de montagem de "As Troianas", um indiscutível patamar de maturidade artística.

No momento em que as artes, na era da globalização, criam lacunas preenchidas de vácuo em nosso país, lamentamos perplexos a escassez de acesso dos grandes críticos da mídia contemporânea à espetáculos deste porte.

Aplaudimos com admiração e profundo respeito o Clube Paineiras do Morumbi, pela indispensável aquisição, em seu panorama cultural, de um diretor como Moisés Miastkwosky, capaz de nos conduzir, por momentos, ao tempo e espaço imemoráveis da destruída Tróia e de elevar um núcleo de associados artistas, para quem muitos atores profissionais deixam a desejar.

Parabéns e obrigada!

Marlene Fortuna

 

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