Marilena Vellozo Soneghet Bergman



Sempre fui um pouco aventureira e a baía de Vitória, de enseadas sinuosas e pontilhada de ilhotas, me atraía. Não raro, ao entardecer, por uns poucos "mirréis" eu alugava uma catraia no porto das barcas, e fazia a travessia. Lá do outro lado ficava o meu planeta: uma elevação de pedra sob a guarda do Penedo, pertinho do Péla-macaco. Era meu observatório, o refúgio onde eu podia, a bel-prazer, render-me a devaneios de menina contemplativa.

Deliciava-me perambular por ali, escalando descalça a pedreira onde cresciam bromélias, aspirando a maresia, a olhar minha ilha toda vestida de ouro ao esplendor crepuscular. A Catedral, os prédios a deitarem sombras, os morros onde as casinhas se amontoavam para ver o cenário... eu conhecia de cor a paisagem, mas Vitória surgia transfigurada ao toque dos últimos raios de sol que já se deitava no horizonte – um bracelete de âmbar no braço esmeralda do mar.

O mar, em esmeralda e ouro, cochilava manso. Algumas barcas atravessavam preguiçosamente a baía. Havia uma coruja. Pousava a poucos metros de mim, olhava-me com olhos cismadores e me aceitava. Eu já fazia parte do seu mundo de pedra, acaso, mar e nostalgia. Uma estranha ausência me agitava o coração.

Eu e a coruja nos observávamos mutuamente. Não com desconfiança; com um crescente sentimento de identificação. Afinávamos nossas liras para a mesma melodia nessa hora de luminoso silêncio. Algumas vozes longínquas, vindas das casas além, denunciavam tons intimistas de bulha doméstica, quando voltam da escola os filhos, e os homens, do trabalho. Era a vida. Vida a esvair-se na distância, na quietude da noite que repentinamente chegava com seu cortejo de estrelas andarilhas.

Eu me deixava ficar, a cantar baixinho, a dizer versos.

Sombras pousavam sobre os telhados, como pássaros. A coruja, penas arrepiadas pelo vento, a cochilar com um olho só, fundia-se aos poucos na noite. Esfumavam-se as silhuetas. Era preciso voltar. Descer o morro às escuras, tomar a barca e atravessar a baía.

Eu me deixava ficar, mais um minuto apenas, a aspirar o ar leve de um anoitecer ameno, impregnado de eternidade.
 

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