Família Kessa/De Moura/Mor  

Informações do jornalista Roberto Hilas de Moura, em Dezembro/99 para conhecimento de toda a família, em seu texto original.

 

18/10/1999 - Parte 1

 

Sobre o nosso pai, saiba que todos nós, os netos da italiana Margueritta Chessa, herdamos da família dela essa capacidade de acessar o inacessível. Portanto, não me surpreendo que o pai te visite em sonhos. Eu só me nego a confundir esse fenômeno com religião. Vovó era espírita de quatro costados, amiga do Chico Xavier que, naquela época, ele ainda muito jovem, correspondia-se com ela.

Eu, quando morávamos em São Luís do Maranhão, me correspondi com a vó. Ela escrevia em português lindo, e olhe que a nossa língua ela só aprendeu no Brasil, onde chegou aos 17 anos. Vovó era de uma família muito antiga, da Sardenha, ilha hoje italiana, mas que foi, até o Renascimento, território do reino de Castela (depois Espanha).

Os Chessa, àquela época, assinavam Kasse (é Kasse mesmo, e não Kessa). Depois que ela morreu, a memória dela ficou confundida na família, pois o tio Virgílio priorizava o espiritismo e o nosso pai o aspecto ético e moral da nossa matriarca.

 

 

 

18/10/1999 - Parte 2  

 

Na verdade, nosso nome é Mor, do latim Morus nigra, uma árvore do Oriente Médio, um tipo de amoreira. Se o papai te contou que descendíamos de navegadores portugueses, não te surpreenderás com o que vou dizer agora: descendemos de Bastião De Moura, o maior navegador português da virada do século XV para o XVI, em cujo navio (seu), o Esperança, ele fugiu da Inquisição com a família, indo para Honfleur, França, porto da Normandia. Bastião foi o comandante do Espoir (afrancesamento de Esperança) d'Honfleur, o primeiro navio sob bandeira francesa a chegar à Índia, em 1505. 

 

 

 

 

O pai dele, João De Moura, foi o mais exuberante navegador português de meados do século XV. Foi quem fixou nos mapas as rotas lusitanas pela África. Vasco da Gama valeu-se dos mapas feitos por esse nosso ancestral para contornar a África. 

Agora, vai uma informação que te surpreenderá, com certeza, pois não a passei para nenhum dos nossos irmãos: os Mor/Moura eram portugueses desde o século XII, pois lutaram no exército que criou Portugal no século XIII e, por isso, ganharam uma cidade como prêmio do primeiro rei de Portugal. Entretanto, . . . não eram cristãos: eram judeus. Eram judeus de uma família de navegadores do Mediterrâneo, de desde os tempos do Império Romano. Levei anos pesquisando isso.

Busquei nossos parentes que fugiram da Inquisição e foram para Amsterdã, Holanda. São nossos parentes: os Mor da Holanda; os More do Reino Unido, dos EUA, da Austrália, da Nova Zelândia e do Canadá; os Mora da Espanha, os Moura de Alexandria, do Egito - que desde 1952 mudaram-se para Israel.

Por hoje é só. Os Mor eram israelitas da tribo de Judá, do local onde hoje fica a Jordânia. E, por tradição, fomos preponderantemente navegadores e cartógrafos, até o século XVIII. Portanto, Moura, nosso nome, não tem nada a ver com Mouro. Nada mesmo.

Em tempo: o atual cônsul de Israel em S. Paulo é da família Mor, descendente de um herói da formação do atual Estado de Israel. 

  

05/11/1999 - Parte 3

 

         A propósito da nossa origem familiar, nós somos De Moura e não apenas Moura. Por razões que desconheço, o nome Mor teria originado a palavra “moreno” (ou o queimado do Sol). Sobre a nossa família (apenas posso inferir), nosso avô Olímpio foi registrado como Moura, mas o pai dele era De Moura e, para trás, todos são De Moura até o século XIII. Anteriormente a isso, éramos conhecidos como Mor (houve pessoas que preservaram o sobrenome Mor e que foram, reconhecidamente, parentes). Isso era fácil de reconhecer, pois na Idade Média, a maior cidade de Portugal, Lisboa, não chegava a ter 10 mil habitantes. 

Quando nossa família fugiu da Inquisição Católica (uma das poucas famílias de portugueses de religião judaica que conseguiram isso), em 1498, os parentes nossos que foram para Amsterdã adotaram, aos poucos ( até cerca de 1658), o nome Mor. Os que ficaram por lá são Mor até hoje. São membros da Congregação dos Judeus Portugueses da capital da Holanda. Os que, entre os anos 1658 e 1664 foram para as ilhas britânicas, depois para as Antilhas Britânicas, e depois para as demais possessões britânicas (EUA, Austrália etc.), adotaram o More (não é Moore, mas More). Os Moura – a família era de judeus sefaraditas – dos reinos ibéricos (Castela etc.) viraram Mora, e foram maciçamente batizados como católicos, ainda que pela força: muitos morreram queimados em praça pública acusados de prática de uma religião ilegal, o judaísmo.

Um parente nosso, francês, escreveu uma tese universitária sobre o Mora. Os Moura chegaram ao Brasil – litoral da Bahia – em 1503, no navio de Bastião De Moura, o Espoir d’Honfleur. Ele voltou para Honfleur na França ao final de 1503, e em 1504 passou outra vez pelo mesmo litoral brasileiro, da atual Bahia, e deixou mais parentes nossos.

E depois, seguiu para a Índia, numa missão comercial francesa, a primeira daquele país até a península Índica (somos uma das dez famílias mais antigas do Brasil; mais antigas que a nossa, só as dos descendentes dos marinheiros do navio de Cabral que fugiram em 1500, embrenhando-se na floresta, e as dos descendentes de portugueses que, estranhamente, foram descobertos nas proximidades de onde hoje é Santos, e que ninguém sabe ao certo por que estavam lá – onde devem ter chegado antes de 1500). Bastião conhecia exaustivamente as rotas oceânicas, não apenas por ser filho de João De Moura, o excepcional navegador português de meados do século XV. Também detinha no cérebro informações de uma família dedicada aos oceanos e mares desde tempos remotíssimos. Naqueles tempos, a pessoa já nascia sabendo que profissão teria, pois inexistiam escolas, e os filhos eram sempre aprendizes da profissão paterna; entre os Moura, quem não era navegador era cartógrafo, e ambos eram igualmente comerciantes).

Os sefaraditas, todos da tribo de Judá, durante o império israelita sob reinado de Salomão, ocuparam portos do norte da África, da península Ibérica e outros pontos estratégicos do Mediterrâneo, até as ilhas britânicas.  

         Os judeus, portanto, foram os primeiros ibéricos de religião monoteísta, muito antes de o catolicismo chegar ali. Em termos de data, isso significa que o sefaraditas, judeus da tribo de Judá, estavam onde hoje é a Espanha e Portugal, desde o ano 900 antes de Cristo. A cristianização dos demais ibéricos aconteceu só a partir do século V da atual Era (cerca de 500 anos depois de Cristo).  

Isso deve ser surpreendente para você, mas para mim é como se fosse ontem. Estudei isso anos e anos, li milhares de livros, de muitos países, conversei com historiadores das mais diversas nacionalidades, e o que estou passando para você – e minhas sobrinhas – é uma história em que nos confundimos com a própria História.

Passei a ter orgulho dos Mor/Moura, e passei a conhecer o judaísmo, uma vez que li muitos livros em que a história misturava-se com a religião. Digo-me judeu, mas nunca entrei numa sinagoga. Definitivamente, não tenho religião. Acho que sou espiritualista como o tio Virgílio. Mas não sou fanático por religião, porque sei não só que Deus está presente em todas elas, mas também que os homens acabam sempre conspurcando a espiritualidade das religiões.

Todas as religiões, portanto, para mim, não servem como instituição. Mas os ensinamentos de todas as religiões são lindos, porque emanaram de Deus através de seus muitos arautos que viveram na Terra. 

Se você ler os livros do início de cada religião, você verá que todas têm uma mesma base, que já está presente nos textos de Moisés; se você colocar em computador as datas fundamentais do surgimento de todas as religiões, você perceberá que tudo começou no Egito faraônico, quando Moisés, salvo das águas do Nilo, foi adotado pela irmã do faraó: ele foi tornado príncipe, e foi aluno dos gênios culturais da época.

O judaísmo, portanto, tem raízes na religião egípcia do tempo dos faraós, o que é um detalhe que pouquíssimos sabem, e informação que irrita aos judeus, mesmo os mais cultos.  

 

Se você estudar o surgimento de todas as religiões desde os primórdios delas, e justapor todas as informações com a progressão do processo civilizatório humano ao longo de milhares de anos, perceberá que a Ética é a base das religiões, e que a Ética foi avançando pelo planeta na medida em que a cultura foi sendo deslocada por aqueles homens que faziam comércio. Em síntese: a Ética não é grega, mas egípcia; Moisés, o israelita príncipe egípcio deu início ao processo, sendo representante do Divino; e todas as religiões têm uma mesma base. Um dos homens que percebeu isso foi o iraniano Bahauláh, que tentou unificar as religiões.

Acho que cada religião merece o meu respeito, mas não quero proselitismo delas por perto de mim: me nego a ler qualquer livro de teologia, porque, para mim, todas as guerras, perseguições etc. surgiram das idéias desses tarados. Teólogo é um ser tão prejudicial para a humanidade quanto o ideólogo. Mas isso é uma reflexão que, se quiseres, ainda te passarei.

Sabes por que estou te dizendo tudo isso, às pressas? Porque essa é a minha missão. Deus não me deu todas as informações que estão no meu cérebro impunemente; ele não me deixou entrevado, quando dos acidentes isquêmicos cerebrais, por ter propósitos... Você é minha mana mais disposta a saber, e se quiseres, saberás. Não digo, escrevo, porque tuas filhas precisam saber disso, precisam ler o que escrevo, para um dia contarem aos seus filhos...

A cultura familiar infelizmente é desconhecida na nossa pátria. Mas entre outros povos, todos sabem tudo sobre suas origens. Os alemães, por exemplo, sabem quase tudo sobre as tribos germânicas, de onde vieram, como chegaram na Europa. Estudam isso e curtem esse estudo.

Eu quero te passar as informações, para que tenhas orgulho do que fomos como família, do que somos como brasileiros, e estejas preparada para enfrentar o João e o Virgílio Moura quando chegada a hora. Agora, provavelmente, eles já sabem quem foram e quem somos...

 

10/11/1999 Parte 4

   

Sobre nossa família, ainda escreverei outras vezes. Tenho muito orgulho dos nossos ancestrais.

O primeiro feudo europeu de uma família de religião não católica foi a dos De Moura, no século XII, a cidadela De Moura, em Portugal.

O primeiro rei de Portugal, Dom Afonso Henriques (Afonso I), nos deu um feudo por sermos heróis da independência portuguesa. Ele tinha, em seu exército, duas tropas de religiões não-cristãs: a nossa, de nossa família, judeus sefaraditas, e uma de portucalenses de religião islâmica.  

 

A cidade De Moura existe até hoje, e lá estão as ruínas do palácio árabe que nós sitiamos e conquistamos. Somos lusitanos desde o primeiro momento. Mas, infelizmente, nos séculos XIV e XV deram-se as perseguições contra os portugueses de religiões judaica e muçulmana.

Mas agora isso já não é importante vivencialmente. Importância tem, como história. Só isso. Foi uma parente de João De Moura, aia da rainha portuguesa na primeira metade do século XV, a mentora escolar daquele que depois de adulto entraria para a história como o criador da escola de Sagres, líder dos navegadores que fizeram a glória de Portugal, o Infante Dom Henrique.

Por influência dela ele foi grande amigo dos navegadores de religião judaica. Entre os grandes navegadores de Portugal nos séculos XIII, XIV e XV quase a metade era de judeus praticantes ou cristãos-novos (judeus que aceitaram o batismo com receio das perseguições religiosas).

 

23/11/1999 Parte 5

 

Sobre nossa família, tenho algumas informações que acho que vão te interessar. Primeiro, quero destacar que estará nas livrarias em breve um livro, Dicionário das Famílias Brasileiras, quase 3 mil páginas, escrito por Eduardo de Almeida Barata e Antônio Henrique da Cunha Bueno, ambos paulistas.

Neste livro, uma das famílias estudadas é a nossa. Só que os dois autores evitaram detalhar as verdadeiras origens de muitas das famílias, dos De Moura, inclusive; apenas citam que temos o direito de assim sermos chamados familiarmente porque conquistamos a fortaleza árabe que depois se chamou Moura; porque durante a guerra de cerco à cidadela - quando da transformação do condado Portucalense em reino de Portugal - uma suposta princesa árabe filha do líder local suicidou-se atirando-se do alto da torre principal. Tudo firulas... balelas, que quem estudar a história lusitana verá que é invencionice para esconder origens familiares desagradáveis ao establishment católico. Mostra também que nossa família tinha um brasão, até‚ bonito, o que é verdadeiro: temos um brasão, e detemos o direito de usá-lo.

Como já te disse anteriormente, os Moura foram a primeira família não católica, em toda a Europa, a ter um feudo medieval, isso no século XII. Moura foi nosso feudo; ou melhor, de nossos ancestrais. É hoje uma cidade bonita, perto da fronteira de Portugal com o Algarve (que há tempos era um reino coligado).

O Cunha Bueno é um autor meio estranho: não gosta que lhe lembrem que ele descende dos judeus sefaraditas Boinos, da Ibéria, hoje Espanha. Ele se acredita um cristão-velho, tanto que casou com toda a pompa com uma aristocrata pernambucana de origem lusitana, é um dos líderes do movimento monarquista (foi o chefe, no Congresso, do plebiscito sobre República ou Monarquia, em 1988). Gosto dele, mas é um pouco tendencioso. É honesto só até certo ponto com as coisas do País, mas puxa a brasa para a sua sardinha, sempre.

Se leres o livro do Cunha Bueno e do Barata, não acredite em tudo. Para ele, os Moura são cristãos velhos, o que de fato nunca fomos. Mas de fato temos um brasão. Aliás, os judeus de muitas famílias européias conquistaram esse direito, e algumas são nobres com direito assumido. Existem diversas, na Europa.

Em linguagem de historiógrafo, fomos judeus da corte, ou seja, cidadãos que trabalhavam para o reino em funções de interesse do estado português.

Em alguns momentos da história portuguesa, casamos com aristocratas e tivemos destaque nos governos. Por isso muitos Mor/Moura aceitaram o batismo, para melhor serem aceitos como lusitanos pelos católicos...

Outra curiosidade que o livro de Cunha Bueno e Barata irá revelar.

A família Cavalcanti, uma das campeãs em divisões familiares no País, surgida em Pernambuco na segunda metade do século XVI, provavelmente em 1592, resultou do casamento de um europeu de nome aportuguesado Francisco de Cavalcanti com uma mulher mestiça de índia da família Moura. Os Cavalcanti são, portanto, aparentados conosco desde a origem, na segunda metade do século XVI.

Outra curiosidade: os Cavalcanti se pensam descendentes de um italiano, só que na Itália inexiste, originalmente, tal família. Logo, ele, na realidade, não era um Cavalcanti, ou então a grafia está equivocada. Eu penso que ele nem italiano era. E que Cavalcanti possa ser fonetização de duas palavras de origem germânica, kawal kant.

De qualquer maneira, no livro do Cunha Bueno e do Barata, existem 880 linhas de texto sobre a família Cavalcanti, a mais densamente analisada.

Se tivéssemos no País a tradição dos nomes compostos, eles se chamariam, desde o berço, Moura-Cavalcanti. Conto isso para que possas mensurar a importância de nossa família, ao longo dos séculos.

 

Parte 6 30/11/99

 

Sobre o fato de que estou usando, nas nossas mensagens, o De Moura, quero que saibas que não tenho pruridos pequeno-burgueses: se a família, até o pai do vô Olímpio, era De Moura, porque não serei eu Roberto Hilas De Moura ?

Acho que nosso bisavô chamava-se João Felisberto De Moura. Era de São João del Rey, Minas Gerais, cidade importante durante o império.

O fato dele ter chamado o filho de Olímpio revela uma preocupação histórica, cultural, pois deriva de Olimpo, Grécia, o berço da república, da gestão pública dos interesses do povo. O fato dele excluir o "De" do nome do filho Olímpio Moura, revela uma preocupação política pois, durante a luta pela república,"De" significava origem aristocrática, e os republicanos queriam cortar as ligações com Portugal, uma monarquia. Só que o "De" não tem nada de aristocrático. É muito anterior a essa concepção do Renascimento.

Os De Moura nunca foram gentil`homens em Portugal, pois trabalharam pesado. O De Moura que foi vice-rei do Brasil, no século XVIII, era um trabalhador, tanto que chegou a morar em Mato Grosso, onde só haviam brenhas, naquelas épocas. Nunca fomos de boa vida. E como já te disse algumas vezes, tenho orgulho dessa família antiquíssima como poucas o são.

Sobre os Chessa, tenho uma informação interessante. Apesar do tio Virgílio e do nosso pai afirmarem que só a vó Margueritta e um irmão dela tinham vindo para o Brasil, e que o irmão dela não deixou descendência, existem brasileiros da família Chessa no Espírito Santo, exatamente o estado onde a vó Margueritta morou por primeiro no Brasil. Acredito que sejam descendentes de outros parentes, que teriam vindo depois dela e do nosso tio-avô. Mas são Chessa, e da Sardenha, tanto quanto a vó era.

Conheci profissionalmente alguns, mas não foi possível aprofundar a relação. Eu os procurarei, se algum dia escrever um livreto sobre nossa participação nas estórias desse País amado.

 

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