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Parabéns Cynthia!
Educação em Valores Humanos:
O resgate da Construção do Indivíduo Ético
Fonte: Regina de Fátima Migliori. Educadora e Consultora,
Diretora do Campus Século 21 da Fundação Peirópolis
de Valores Humanos.
A
transformação social almejada pela humanidade em direção
a uma sociedade de paz e harmonia, passa necessariamente por uma mudança
no processo educacional que deve formar o ser humano capaz de construir
esse mundo novo. Isso exige uma revisão na proposta educativa
no sentido de uma expansão da compreensão da realidade
e do desenvolvimento do ser humano nos seus níveis intelectual,
afetivo, emocional e espiritual, seu compromisso com a ética
e a responsabilidade social e planetária, numa visão
de educação integradora e formadora de caráter.
A abordagem da
Educação em Valores Humanos busca integrar essas dimensões,
do conhecer, do pensar, do vivenciar e do agir do ser humano, e para
isso propõe uma formação que nos leve a dominar
os conhecimentos na fronteira das ciências, da epistemologia
e do avanço de campos científicos que estão estabelecendo
novas visões de mundo, a partir da física quântica,
da teoria dos hemisférios cerebrais, da ecologia profunda,
da visão de novos processos em educação, de perspectivas
éticas, numa proposta de educação transdisciplinar,
sob um ponto de vista complexo e complementar que fundamenta os novos
paradigmas da ação humana. Porém, esta não
pode ser apenas uma viagem intelectual, mas um compromisso institucional
e individual profundo com a ação amorosa. Ainda que
o amor não possa ser quantificado nem definido cientificamente,
manifesta-se no servir, que implica sair de nós mesmos.
Servir nos leva à percepção da unidade na diversidade,
e nos oferece a chave para a abertura da alma. Esta proposta visa
propiciar essa formação visando a construção
de uma sociedade amorosa e harmônica, a partir da formação
do caráter de forma integradora e globalizante, propondo:
· uma metodologia que vincula a elaboração teórica
e vivencial com a ação referenciada em Valores Humanos;
· uma abordagem transdisciplinar;
· uma formação baseada na prática dos
paradigmas emergentes;
· uma integração das múltiplas dimensões
do ser humano:biológica, racional, lógica, criativa,
intuitiva, emocional, social, cultural, planetária, cósmica
e espiritual.
O que se pretende
é embasar a ação humana numa visão de
mundo sistêmica e integrada, que possibilite um pensar, sentir
e agir coerentes e harmônicos, atendendo às necessidades
deste momento em que se buscam modelos de educação para
um ser humano capaz de atuar na construção de um mundo
de paz e harmonia.
As perspectivas de educação no Brasil já vêm
apresentando a necessária abertura a essas premissas. Os Parâmetros
Curriculares Nacionais, as propostas de Temas Transversais, as possibilidades
de ação dos Conselhos Municipais são exemplos
das oportunidades que o próprio sistema nos oferece, buscando
uma abordagem mais complexa do processo educativo, e ampliando as
possibilidades criativas: A tradição escolar - que não
fazia diferença entre um erro que é parte integrante
do processo de aprendizagem e um simples engano ou desconhecimento
- trabalhava com a idéia de que a ausência de erros na
tarefa escolar era a garantia de aprendizagem. Hoje, graças
ao avanço significativo da investigação científica
na área da aprendizagem, tornou-se possível interpretar
o erro como algo inerente ao processo de aprendizagem e ajustar a
intervenção pedagógica para ajudar a superá-lo.
O erro costuma traçar na escola, a fronteira entre o sucesso
e o fracasso. Se cada experiência de aprendizagem for uma experiência
de sucesso, o aprendiz constrói uma representação
de si mesmo como alguém capaz de aprender.
Se, ao contrário, cada experiência de aprendizagem for
uma experiência de fracasso, o ato de aprender tenderá
a se transformar em ameaça e a ousadia necessária à
aprendizagem se tornará em medo, para o qual a defesa possível
é a manifestação de desinteresse.
Parâmetros Curriculares Nacionais
A recomendação
é a de alimentarmos a nossa ousadia. O medo, a violência,
o desinteresse e a desesperança permeiam todas as faixas etárias
e todos os grupos sociais. Estamos diante de desafios extremos, e
precisamos aprender a nos exercitarmos como seres humanos integrando
competência e sensibilidade, ação eficiente e
amorosa, aliando a perspectiva linear dos resultados à consciência
da complexa repercussão da nossa ação.
Esta proposta
não oferece um modelo fechado, uma receita pré-fabricada
de ser humano competente e feliz, pois isso seria reduzir as nossas
potencialidades. A complexidade humana nos faz perceber que somos
artistas, cientistas, e empreendedores. Que possamos integrar razão
e emoção, ver o mundo com os olhos inteligentes do coração.
Analisar cada aspecto e promover uma nova síntese.
Contemplar a construção integrada de um conhecimento
que emana das idéias que cada um desenvolve. Prestar atenção
às nossas potencialidades, e procurar viver os valores humanos
aqui sugeridos, a partir do exercício do amor. Essas idéias
não são novas, ao contrário, emergem na história
da humanidade em todas as épocas.
Admitir a hipótese de que cada ser humano traz em si potencialidades
a serem desenvolvidas é admitir a idéia de permanente
transformação. É falar de mudança. Às
vezes é muito importante percebermos que algo em nós
deve mudar. E quando isso é feito suave e naturalmente, essa
mudança não nos causa nenhum dano. Isso é o que
diz este trecho do I Ching, texto da milenar sabedoria oriental:Ao
término de um período de decadência sobrevem o
ponto de mutação. A luz poderosa que fora banida ressurge.
Há movimento, mas este não é gerado pela força...
O movimento é natural, surge espontaneamente. Por esta razão,
a transformação do antigo torna-se fácil. O velho
é descartado, e o novo é introduzido. Ambas as medidas
se harmonizam com o tempo, não resultando daí, portanto,
nenhum dano.
Transformar significa simplesmente colocar movimento em situações
que parecem estagnadas. Certezas internas que podem ser revistas,
situações externas que podem ser modificadas, não
só como as nossas certeza internas determinam. Às vezes,
uma dureza interna nos faz muito infelizes. E esta não é
só uma sabedoria chinesa:"Não é possível
dizer-te sempre coisas novas, nem te é necessário ouvi-las.
O que importa é que sejas sempre novo, que te desprendas cada
dia do homem-velho, e que cada dia tornes a nascer, a crescer e a
progredir."(Santo Agostinho)
Não somos
uma realidade dura como uma pedra. E não vale à pena
tentar ser. É só perceber que não somos os mesmos
todos os dias, nem nos fecharmos na dureza das nossas convicções.
Perceber que a vida flui, e não há, nem pode haver diagnósticos
definitivos sobre nós mesmos. Não pretender ser duro
e inflexível como uma pedra. Esta é a idéia de
realidade como um constante processo. Nós somos um processo
em constante transformação, em harmonia com uma realidade
mais ampla e mais complexa, e esta também é uma idéia
que há milênios permeia o pensamento ocidental: A harmonia
invisível é mais forte que a visível. No mesmo
rio nós pisamos e não pisamos. Não se pode pisar
duas vezes no mesmo rio. (Heráclito).
Mas como ser flexíveis e integrados conosco, com os outros
e com o mundo simultaneamente? Nós, que nos habituamos a organizar
a realidade sob o ponto de vista da ordem linear, estabelecemos relações
de causa e efeito fechadas e intransigentes, que cerceiam a nossa
capacidade de compreender o outro e nós mesmos, na nossa complexa
plenitude.
Essa dificuldade se suaviza, quando acionamos mecanismos internos
que não se detenham exclusivamente na compreensão racional
dessa realidade. Falta-nos, às vezes, acionar alguns aspectos
que as modernas teorias denominam múltiplas inteligências.
Acrescentar emoção, intuição e criatividade
à nossa racionalidade. Algo que nos atrevemos a utopicamente
sugerir. Algo que a sabedoria universal entende como Amor: O Amor
como pensamento é Verdade. O Amor como ação é
Ação Correta. O Amor como sentimento é Paz.
O Amor como compreensão
é Não-Violência. (Sri Sathya Sai Baba). Um educador
dos nossos dias que nos remete mais uma vez a uma verdade universal.
Outro autor, outra cultura, dizendo coisas tão próximas.
O mundo inteiro está tentando mostrar, há muito tempo,
coisas muito simples. O fundamento da nossa vida é o amor.
Tudo o que se faz baseado e inspirado pelo amor, frutifica e dá
certo. Qualquer ação movida pelo ressentimento, pela
indignação, pela discórdia nos impõe sofrimento.
Neste final de
século temos visto o surgimento de inúmeras abordagens
do universo, do planeta, e de nós mesmos baseadas na urgência
da recuperação de um ingrediente precioso para a manutenção
da vida: o Amor. Este amor vivenciado, de uma maneira muito simples
e ao mesmo tempo extremamente complexa, se reflete em valores universais:
Paz, Verdade, Ação-Correta e Não-Violência.
Este pode ser um mergulho na nossa imensa competência amorosa.
Nossa tarefa como
educadores passa a ser a de despertar o que há de melhor nos
outros e em nós mesmos.
Transformar essas idéias em algo acessível à
nossa família, nossos amigos, nossos alunos, nossos companheiros
de trabalho, introduzindo-os em atividades que atendam à integração
da ação humana compreendendo seus diversos níveis
de conexão: 1º nível: A Descoberta
O contato consigo mesmo, o mergulho interior nas nossas potencialidades
e na nossa consciência. 2º nível: A Ação
O exercício das nossas potencialidades em nosso universo de
ação de forma criativa e transformadora. 3º nível:
A Repercussão
Nossa atuação compreendida numa perspectiva local e
global: a família, a escola, a comunidade, o país, o
planeta, etc. A repercussão da nossa ação é
um fenômeno inerente a qualquer um dos nossos atos, dos mais
simples aos mais complexos. Qualquer idéia, qualquer sentimento
e qualquer atuação humana gera repercussão.
Tomar consciência disso aumenta a nossa responsabilidade e nos
faz perceber a importância de clarearmos o enraizamento interior
das nossas ações. O mundo em que vivemos é o
mundo que construímos. Realidade externa e realidade interior
são absolutamente integradas e interdependentes, interagindo
permanentemente.Dessa forma, estaremos atuando em torno de 3 eixos
direcionadores: a criação do conhecimento . o desenvolvimento
do potencial humano. a vivência de valores humanos
A criação do conhecimento é realizada a partir
de uma atuação centrada nos paradigmas que vêm
orientando a ciência neste século, embasados nas noções
de complexidade, complementaridade e totalidade integrada.
Construir conhecimento de forma integrada prevê também
a ampliação da visão do ser humano sobre si mesmo,
descobrindo e desenvolvendo novas potencialidades, acionando os cérebros
de forma mais criativa, flexível e harmônica. Porém,
criar conhecimento e desenvolver potencialidades ainda não
basta para termos um mundo melhor. Um procedimento de educação
baseado somente nestes dois aspectos pode ainda gerar "genialidades"
voltadas para a destruição. É preciso encontrar
outras premissas, que nos levem a outros resultados, embasar nossa
atuação em valores humanos universais.
Não podemos nos esquecer que para entrarmos em ação
de forma consciente e transformadora, é preciso estabelecer
um circuito metodológico em que seja possível: . harmonizar-se
internamente . estabelecer processos reflexivos e criativos . atuar
em relação àquilo que foi elaborado
Não basta
saber, é preciso acreditar no que se sabe. E somente agir movido
por aquilo em que se acredita. Aí sim, a vida passa a ser vivida.
Só dessa forma pode-se pensar em criação, evolução
e transformação.
É preciso atenção, inteligência, sensibilidade
e cuidado para não cair na armadilha interior de querer que
o mundo seja de uma única maneira. Dividir-se entre certos
e errados, e continuar discutindo, cada um achando que tem mais razão
do que o outro, esquecendo que o que se faz, agindo assim, é
pregar a paz e semear a guerra.
Muitas guerras já aconteceram simplesmente porque alguém,
em algum lugar, queria fazer do mundo um grande "porque sim",
onde tudo funcionasse por conta do seu modelo desejado. Porque acredita
que está certo e resto do mundo está errado. E a vida
não é assim. Cada ser humano, à sua maneira,
busca seu caminho de desenvolvimento. Temos que aprender a compreendê-los
e, como educadores, mostrar uma possível trajetória.
A opção de caminhar é responsabilidade de cada
um, é tornar-se senhor de si mesmo, é o caminho para
a formação do caráter. Isso todos temos que aprender.
Esta é a raiz da autonomia e da liberdade, e não a busca
frenética e desorientada de uma liberalidade sem pé
nem cabeça, do desenvolvimento de modelos que alienam e manipulam,
que nos fazem perder o chão, perder o precioso tempo da nossa
vida, perder a dignidade das relações humanas e alimentar
a desesperança.
Daí a importância de despertar nas pessoas o desejo de
mudar e encaminhar as possibilidades de elaborar uma atuação
que realmente nos conduza a outros resultados. Talvez mais felizes.
Não esperemos que o mundo faça isso por nós.
Não esperemos que o mundo nos compreenda se não nos
fizermos entender. Viver é ter a humildade de se explicar,
se assim for necessário, e a grandeza de compreender, pois
isso sempre é necessário. Não trancar o nosso
coração. Não obstruir a nossa inteligência.
E não se convencer de que não nascemos para realizar
os nossos sonhos. A vida é sonho, pois quem não sabe
sonhar, não sabe planejar. Somos grandes planejadores e estrategistas.
Não percamos então a nossa capacidade de sonhar. O plano
é algo linear: pensamos isso, para depois acontecer aquilo
e aquilo outro. O sonho é múltiplo. Nele cabe muita
coisa ao mesmo tempo. É assim que a vida acontece. Tudo ao
mesmo tempo, sem que a nossa ordem particular possa interferir com
mais força do que a ordem, às vezes caótica,
dos acontecimentos. Nós somos responsáveis pela vida
que vivemos, pelos sonhos que sonhamos, pelos sonhos dos quais desistimos
e por aqueles que levamos em frente. Se algo muda em nós, tudo
à nossa volta muda também. Este é o mecanismo
de desenvolvimento das nossas potencialidades. Uma estrutura de conexões
estabelecida em níveis que nos integram a nós mesmos,
ao nosso universo de ação e à consciência
da repercussão da nossa atuação, que é
muito mais ampla do que nossa percepção pode detectar.
Todos os setores da sociedade podem se mobilizar neste sentido. Isso
não requer exclusivamente capacitação técnica
e recursos financeiros. Ao contrário, depende muito mais da
disposição pessoal e institucional de exercitar a nossa
"competência amorosa", um exercício de liberdade
e de responsabilidade, ativando a nossa capacidade de responder de
forma eficiente, criativa e harmônica às solicitações
que a vida nos faz.
Isso significa que diante de tantos fenômenos sociais desarmônicos
temos que deixar de agir exclusivamente sob o ponto de vista corretivo.
Os diagnósticos já são mais do que suficientes
para nos instrumentalizarem numa ação de correção
de rumo, porém isso já não é suficiente.
A ação não pode ser exclusivamente corretiva
ou punitiva.
Já não basta corrigir. Temos que criar. Encontrar novos
rumos para a formação e o desenvolvimento dos seres
humanos pelos quais somos responsáveis.
E no fundo, somos todos responsáveis por todos.
A construção de uma sociedade ética será
o resultado da atuação daqueles que consciente e deliberadamente
desenvolverem uma ação social. Mas é preciso
rever nosso conceito sobre ação social. É diferente
da assistência social paternalista e distanciada. A ação
social não imobiliza recursos, ao contrário, mobiliza
potencialidades dando sustentabilidade a uma criativa rede de relações
complementares.
O caminho já não é exclusivamente a determinação
de um orçamento que dita o quanto se pode gastar patrocinando
projetos, criando equipes, mensurando resultados, e considerar a missão
cumprida. A ação pode e deve ser muito mais ampla. A
questão não é quanto temos para "gastar",
até porque em tempos de crise o que mais falta é dinheiro.
A questão é outra: O que temos a oferecer? Só
dinheiro, recursos e tecnologia é pouco, e às vezes
dispensável.
Os grupos sociais dispõem de conhecimento construído
e experimentado, de especialidades e estratégias comprovadas,
de tempo voluntário e autônomo disponível, de
potencialidades humanas a se desenvolver.
A ação humana tem duas dimensões: uma mensurável,
concreta e quantitativa; outra não mensurável, abstrata
e transcendente. Quantificamos quanto custa um projeto, mas não
podemos utilizar as mesmas metodologias de cálculo para dimensionar
a felicidade que ele pode gerar.
Qual a contrapartida?
Uma proposta de desenvolvimento onde haja coerência entre o
que a cabeça pensa, o que o coração sente e o
que as mãos fazem.
Qual a expectativa de resultados? A construção de um
mundo melhor.
O sistema educativo está infestado de muitos problemas. Não
tem conseguido promover nos jovens o amor, a indulgência e a
inteireza. Em vez disso, serve para incentivar a natureza animal dos
estudantes, não havendo lugar para cultivar valores humanos
como Verdade e Retidão.
Os pais se preocupam com a educação de seus filhos,
mas não se preocupam com o tipo de educação que
lhes é oferecida. A educação deve ajudar os estudantes
a personificar Valores Humanos tais como Verdade, Amor, Retidão,
Paz e Não Violência.
O conhecimento acadêmico pode ajudá-los a ganhar a sua
subsistência, mas a educação deve ir além
da preparação para se ganhar a vida. Deve preparar-nos
moral e espiritualmente para os desafios da vida.
Porque nas pessoas "instruídas" em que não
haja valores humanos, o que encontramos é somente ansiedade
e preocupação. (Sathya Sai Baba)*

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